ILUSTRADO
Sábado, 14 de Junho de 2008, 13h:50
A
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OPINIÃO
Hora de dar chicotada nos jornalistas
Nosso colaborador, jornalista e escritor, bate duro nos erros nossos de cada dia e mostra o quão prejudicial eles podem vir a ser dependendo da barriga
Rodrigo Capella*
Especial para o Diário de Cuiabá
Antes mesmo de assistirem a Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal, os críticos, muitos deles jornalistas, já teciam comentários favoráveis à nova película, protagonizada por Harrison Ford. Houve quem comentasse, inclusive, que esse filme é tão importante para 2008 quanto 2001: Uma Odisséia no Espaço marcou o lendário 1968. Como se não bastasse essa bobagem, li também que a atuação de Ford é tão intensa que nos remete a uma reflexão racial e social. E mais: compararam Indiana Jones.... a marcas de carro e perfume, como se o cinema, mesmo de estrelas, fosse tão desejado quanto um CK One ou um Paco Rabane. Tais comentários assustadores e lamentáveis foram escritos, em jornais de circulação nacional, antes da realização da tradicional cabine de imprensa de Indiana Jones.. na qual profissionais de imprensa assistem ao filme antes do grande público. Ou seja, o jornalista-crítico deixou-se levar pelos bons filmes da série e, em muitos casos, apontou essa como a melhor história de Indiana. Puro erro! O longa diverte o público, tem bons momentos de aventura, mas não pode ser considerado uma película exemplar. O roteiro é o mais fraco dos Indianas e, acredite se puder, tem falhas de sincronismo. Longe, portanto, de ser comparado ao clássico 2001... e aos perfumes CK One e Paco Rabane, que mantém a mesma essência do começo ao fim do frasco. A melhor leitura que pode ser feita dessa aventura é um pouco árdua para a mídia, talvez por isso ainda não tenha sido publicada. O personagem, na verdade, representa a ética e com sua arma, o chicote envenenado de raiva, tenta a todo custo combater os desvios e interpretações equivocadas da imprensa. Os inimigos que Indiana enfrenta são os rusos porque essa foi, aparentemente, a forma encontrada para mostrar que os jornalistas, ao errarem, contrariam a lei da moral e dos bons costumes, prejudicando toda uma sociedade. Quem não se lembra, por exemplo, do Caso Escola de Base, no qual educadores foram erroneamente acusados de assediar crianças? Resultado: a escola foi depredada, os educadores quase foram presos e a mídia recebeu apenas alguns processos isolados. Casos como esse, infelizmente, são comuns e enquanto eu estava escrevendo esse artigo, mais um ocorreu: a mídia divulgou que um avião da empresa Pantanal havia caído em São Paulo. Mentira! Na verdade, uma loja que vende colchão havia explodido. Percebeu a disparidade? Pois é, a empresa aérea foi prejudicada sem ter qualquer culpa e a sociedade entrou em estado de alerta, sem ter necessidade. Só quem, realmente, estava em São Paulo soube o que ocorreu: desespero, tumulto e muita gente ansiosa, buscando informações sobre os passageiros do acidente mentiroso. Uma barriga (notícia mentirosa) como essa teria sido, facilmente, combatida com o chicote de Indiana, ferramenta necessária contra o lead (primeiro parágrafo de um texto) mentiroso. Necessária também para evitar que, na redação, a emoção supere a razão e para não permitir que filmes medianos sejam transformados em verdadeiros clássicos, antes mesmo de serem vistos. Chicotadas nos jornalistas, já! (*) Rodrigo Capella é jornalista, escritor e poeta. Autor de vários livros, entre eles Transroca, o navio proibido, que está sendo adaptado para o cinema, e Rir ou chorar, sobre o cinema brasileiro. Informações: www.rodrigocapella.com.br