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Quarta-feira, 10 de Junho de 2026, 00h:00

LIVROS

Roberto Pompeu de Toledo narra experiência da velhice em meio a luto por esposa

Mulher do autor morreu em 2021 e, a partir dali, ele passou a se ver como idoso; Ato de escrever 'Memorial do Inverno' foi antídoto para tristeza todas as manhãs

VICENTE VILARDAGA
Da Folhapress - São Paulo
Roberto Pompeu de Toledo

A velhice é um fardo difícil de carregar. Ela vem acompanhada de dificuldades de movimentos, descuidos, perda de energia e memória e excesso de divagações. O que se fazia com naturalidade na juventude se torna difícil. Palavras antes na ponta da língua de repente fogem. Visitas ao médico se tornam rotineiras. E, além disso, há a consciência da proximidade do fim e as especulações sobre a melhor forma de morrer.

O jornalista Roberto Pompeu de Toledo viu a velhice chegar junto com a morte de sua mulher Maria Isabel em 2021. Embora estivesse com 77 anos na ocasião, ele até então não se sentia um idoso e pouco pensava no assunto. Mas o desaparecimento do amor de sua vida o derrubou. "Nunca chorei tanto", lembra. O acontecimento tirou sua alegria e mudou seus hábitos. Muitas atividades que lhe davam prazer, como viajar, foram definitivamente deixadas de lado.

No recém-lançado livro "Memorial do Inverno – Um Retrato do Artista Quando Velho", ele conta essa experiência e descreve com maestria e doses de humor, amparado em muitos autores ilustres, como viveu e superou esse luto. Também revela como viu a velhice passar a ser uma questão importante e chegar acompanhada de reflexões sobre o crepúsculo da própria existência.

Escrita entre 2022 e 2025, a obra expõe a mudança dos tempos. Se antes, como disse Norberto Bobbio, a velhice estava associada à sabedoria, hoje os velhos são os que não sabem, principalmente quando se trata de tecnologia. Além disso, com o aumento da longevidade, surge o pior dos cenários, o risco da demência e das doenças degenerativas, fantasmas que perturbam a gente com idade mais avançada.

Pompeu de Toledo não faz drama. Se na primeira parte do livro ("Dor e luto") prevalece a sombra persistente da morte de Maria Isabel, na segunda ("Vida e destino") já se abrem novas vertentes e o próprio ato de escrever surge como um antídoto para a tristeza.

"Tenho escrito esse memorial da velhice com rapidez e alegria. Talvez nunca tenha escrito um livro com tanto entusiasmo", afirma. "Mal me levanto, a cada manhã, e quero logo pôr-me à mesa de trabalho."

Quanto mais o livro avança, mais fica claro, nas suas palavras, que a velhice não é o fim da vida, é uma vida também, é uma etapa, com dificuldades adicionais em relação à juventude. mas é vida. Amigos morrem, outros sobrevivem e o mundo continua girando, ora pregando peças, ora trazendo alegrias. O mais importante é continuar existindo com autonomia e humor.

Quem ajuda Pompeu de Toledo a continuar atento e forte é a chamada Primeira Amiga, uma companhia habitual de conversas e jantares. Ele lembra que, quando perdeu Maria Isabel, sentiu muita falta do "elemento feminino". Na fase do luto bravo, se sentiu amputado. E a Primeira Amiga, viúva e cinco anos mais nova, veio suprir essa lacuna, reestabelecer um pedaço de sua alma que havia sido dilacerado. "Sinto falta quando fico uma semana sem vê-la", conta.

Na terceira parte do livro ("Auroras e Galos"), o autor, agora com 81 anos, se mostra confortável com sua nova condição. Começa citando o gerontólogo Alexandre Kalache, que fala da importância de se preservar a capacidade funcional para chegar aos 80 acima da linha da dependência.

O luto foi superado, ele desfruta de autonomia e mora só em um apartamento em Higienópolis, mas longe da solidão. Tem filhos, netos, a Primeira Amiga e vários amigos queridos com quem se encontra com frequência. Tem também o ofício da escrita, que domina como poucos, e está cercado de livros. Diverte-se com suas viagens para a casa de campo em Atibaia.

Como diz na parte final, embora ache estranha a palavra "prazeroso" para definir o envelhecimento, nega que a condição seja horrorosa. Tem hoje menos medo de morrer do que no passado.

Pompeu de Toledo é autor também de duas obras clássicas sobre São Paulo, "A Capital da Solidão" e "A Capital da Vertigem", de outro livro de memória intitulado "O Espelho e a Mesa" e do romance "Leda".

No começo, esse novo livro deveria se chamar "Memorial do Outono", mas o inverno prevaleceu por uma questão de rigor cronológico. Como a obra trata da derradeira etapa da vida, então pareceu mais lógico denominá-la com a estação mais fria do ano. "O inverno castiga mais as pessoas, o frio e o isolamento que ele causa ilustram mais a fase da velhice", afirma.

 

* Vicente Vilardaga é jornalista e escritor. Publicou dois livros: “À Queima-Roupa - O Caso Pimenta Neves” e “A Clínica - A Farsa e os Crimes de Roger Abdelmassih”

 

 

MEMORIAL DO INVERNO: UM RETRATO DO ARTISTA QUANDO VELHO

Preço R$ 99,90 (216 págs.); R$ 39,90 (ebook)

Autoria Roberto Pompeu de Toledo

Editora Objetiva

 


Edição EDIÇÃO 16961




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