BRASIL
Quarta-feira, 24 de Novembro de 2010, 20h:30
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VIOLÊNCIA URBANA
Onda de violência espalha terror no Rio de Janeiro
Pelo menos quatro pessoas, incluindo uma adolescente morrem durante confrontos
MÁRCIA VIEIRA, PEDRO DANTAS, GABRIELA MOREIRA, MARCELO AULER E TALITA FIGUEIREDO
Da Agência Estado Rio de Janeiro, RJ
Foi o pior dia desde que a onda de violência atingiu o Rio no último domingo. Quatro pessoas, incluindo uma adolescente de 14 anos, morreram durante uma operação da polícia na Vila Cruzeiro, no Complexo da Penha, um dos redutos do Comando Vermelho (CV). Outras 11 pessoas, inclusive um PM, ficaram feridas no confronto e um caveirão (o blindado da polícia) foi atingido e inutilizado por coquetéis molotov atirados pelos traficantes. A Polícia Militar (PM) entrou de prontidão com 17,5 mil homens atuando na região metropolitana. Oito traficantes do CV, que estão presos no Rio, serão transferidos para a Penitenciária Federal de Catanduvas, no Paraná. Segundo informações do setor de inteligência da Secretaria de Segurança, a ordem para espalhar o terror no Rio teria partido do traficante Márcio dos Santos Nepomuceno, o "Marcinho VP", preso em Catanduvas. O responsável por colocar as ações em prática seria Fabiano Atanásio, o "FB", da Vila Cruzeiro. O governo do Rio acredita que os ataques são uma reação às Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs), que retomaram áreas dominadas pelos traficantes. Das 12 áreas ocupadas permanentemente pela polícia, 11 são do CV. O saldo dos ataques de ontem contabilizava, até 16h40, 17 veículos incendiados, 18 pessoas mortas, 25 presos, além de uma cabine da PM metralhada em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense. A polícia fez operação em 27 favelas. Quarenta e sete escolas e dez creches, que atendem 17 772 alunos, não funcionaram. A Universidade Gama Filho, na Piedade, zona norte, encerrou as aulas mais cedo. Quatro pessoas ficaram feridas quando foram impedidas de descer de uma van, em Santa Cruz, que foi incendiada por bandidos. Durante todo o dia, boatos de arrastões e mais ataques tiraram a tranquilidade do carioca. Em um ônibus incendiado em Vicente de Carvalho, na zona norte, a polícia encontrou um bilhete com o seguinte recado: "Com UPP não há olimpíadas", numa referência aos Jogos Olímpicos de 2016, que serão na capital carioca. A polícia prendeu Magno Tavares dos Santos, de 24 anos, que confirmou ter recebido R$ 200,00 de traficantes da Vila Cruzeiro para ajudar a tocar fogo neste ônibus. Ele foi apresentado na Delegacia de Homicídios e contou que sua tarefa era mandar motorista e passageiros descerem. Magno justificou que, por estar desempregado, e com a mulher grávida, aceitou participar da ação. O governador Sérgio Cabral Filho (PMDB), cujo principal trunfo na reeleição foi o sucesso na política de segurança pública, disse que não vai recuar e pediu que o carioca mantenha a sua rotina. "Com inteligência, trabalho firme, com coragem, com serenidade, vamos superar este momento que o Rio de Janeiro enfrenta. São manifestações desesperadas de tentativa de enfraquecimento da nossa política de segurança." O secretário José Marino Beltrame também foi enfático: não haverá qualquer mudança no plano estratégico da segurança. Para ele, o bilhete dos traficantes com referência às UPPs e aos Jogos Olímpicos mostra o desespero dos bandidos. "Estamos no caminho certo. Vamos continuar a reprimir, mas é importante pensarmos na frente. Se não fizermos isso, o Rio perde uma oportunidade de ter uma resposta concreta a meio e longo prazo para resolver o problema da segurança." Beltrame pediu ajuda da sociedade. "Eu sinto o apoio da cidade. As UPPs tiraram 200 mil pessoas da ameaça de um fuzil. Para alcançarmos o que pretendemos, fatalmente não teremos um caminho de rosas a trilhar. Sabemos onde queremos chegar. A sociedade que decida de que lado está." O secretário de Segurança cobrou também que os moradores do Rio exijam mudanças nas leis de execuções penais. "Certamente, as informações dos presos são passadas na visita íntima e no encontro com os advogados. Isso só vai mudar se a sociedade organizada cobrar dos deputados, do sistema, que isso se mude com urgência."