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ARTIGO
Quarta-feira, 11 de Julho de 2007, 21h:04

PAULO RONAN

O filme de Cacá, o de Souza

A explicação no título é para avisar que não vou tratar de nenhum filme de Cacá Diegues. É do Cacá de Souza, jornalista afamado daqui mesmo. Pontuou em várias emissoras do estado como repórter, foi marqueteiro de campanhas políticas etc. E cineasta. A gente sabe falar do último lançamento do cinema iraniano, das últimas loucuras de Kusturica e Michael Moore e não conhece o que se produz por aqui. Esta semana, tardiamente, vi o documentário dirigido pelo moço aí do título quase dez anos depois de lançado. Trata-se de um belo trabalho que mostra a épica viagem do então já ex-presidente americano acompanhado do Marechal Rondon, então coronel, subindo o Rio da Dúvida, hoje Roosevelt, até sua nascente. Depois de certa idade ou montamos uma ONG e vamos fazer o bem ou pelo menos imaginar que estamos fazendo-o, ou começamos a buscar coisas interessantes para conhecer e sair elogiando e defendendo que nem tudo está perdido. Estou na segunda turma. Semana que passou falei de um programa de televisão local. Hoje é do filme de Cacá. Tudo começou na semana que passou numa mesa de bar. Estávamos secando algumas garrafas no Choppão quando surgiu a polêmica. Seria apenas por amor ao naturalismo a vinda do presidente americano aqui no começo do século que passou ou ele já desconfiava da existência das reservas de diamante que mais tarde se confirmaram no leito do rio que ele buscava a nascente? Colocada a questão a mesa dividiu-se em dois blocos, ambos plenos de estarem com a razão. Um lado liderado pelo Aylon defendia a segunda hipótese alegando a coincidência muito grande em se tratando de americano, uma turma que não brinca em serviço. O outro liderado por Alfredo Menezes argüiu que o moço era realmente naturalista e que tinha no curriculum duas aventuras parecidas na África. Apesar de sempre atentar para o pragmatismo judaico de Aylon, votei contra ele nessa. Mas atendendo a uma sugestão do Alfredo, fui falar com o diretor do filme, que além de não ter dúvidas das suas intenções científicas, conhece com profundidade todas suas motivações. E ganhei uma cópia da obra. O trabalho é impar. Sem a repetição e a falsa profundidade que norteia este tipo de cinema, o filme informa. E de forma objetiva. Não tem vergonha de cumprir com exclusividade este papel. Sem análises falsas e quase editoriais que, por exemplo, transformaram os filmes de Michael Moore. Uma locução maravilhosa, uma música também, traz informações que me tocaram profundamente, como, por exemplo, a vinda da missão a Santo Antônio de Leverger. Se atentarmos que a entrada se dava pelo Atlântico (impossível ter sido diferente, não existia o trem da Noroeste ainda) dá pra ver que esta vinda foi uma desviada de Rondon para trazer o presidente a sua terra natal, Mimoso, pois seu objetivo estava à frente da foz do Rio Cuiabá. São incríveis as dificuldades enfrentadas pela expedição. Com três mortes e vários derrubados pelas doenças da floresta, o filme é uma bela demonstração de coragem, determinação e perseverança. Aí se explicam as carreiras de sucesso de ambos os protagonistas. Um presidente dos EUA, outro o brasileiro que realmente conta no exterior. Ao término do filme Cacá faz um pequeno comentário de registro, e informa a indicação de Rondon para o prêmio Nobel da Paz. Informa ainda que Einstein veio ao Brasil com o único objetivo de se encontrar com Rondon, ao ter notícias desta expedição. Aí explica os textos mal criados deste cientista sobre o Brasil. Ou seja, não queria nada conosco, veio aqui com o objetivo exclusivo de encontrar o mato-grossense. Aliás, a participação do diretor é limpa, sem estrelismos e vaidades gratuitas deixando o fato protagonizar a vontade. Quando estava no meio deste texto recebi um telefonema de Aylon. Falei-lhe do teor. Foi claro. “Vocês são uns loucos sonhadores achar que este moço veio aqui atrás de borboletas”. * PAULO RONAN é economista [email protected]

Edição EDIÇÃO 16959




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