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Cuiabá MT, Quarta-feira, 10 de Junho de 2026

Primeira Página
Sábado, 02 de Agosto de 2008, 15h:35

ENTREVISTA

Dom Milton fala de eleição, fé e futebol

Arcebispo alerta eleitores para o poder do voto e pede para evitarem os políticos que defendem pesquisas com células-tronco

SONIA FIORI
Da Reportagem
Arcebispo da arquidiocese de Cuiabá, dom Milton dos Santos alerta os eleitores para a importância da conscientização do valor do voto. A igreja se une ao movimento nacional que pede a inelegibilidade de candidatos que respondem a processos na Justiça Comum, mesmo sem transitado em julgado. Destacando que a legislação eleitoral ainda não é clara, o arcebispo pontua que cabe ao povo se unir para assegurar um processo de disputa mais justo, igualitário e transparente. Dom Milton fala nesta entrevista ao Diário sobre a orientação da Igreja Católica para que fiéis não direcionem seus votos àqueles que regem políticas que, no entendimento da Igreja, vão contra a vida. Ele cita como exemplo as pesquisas com células-tronco. O arcebispo é enfático ao alertar que fé e política não se misturam, descartando a possibilidade de um padre disputar cargo eletivo. A orientação da Igreja para eleitores em 2008 se faz por meio de alertas propostos em programas de televisão e rádio e ainda através do documento da Igreja, formulado em amplos debates, denominado de “Sínodo”. No trabalho do Catolicismo pela evangelização, a Igreja aposta na ampliação de espaço em emissora de televisão. Corintiano de carteirinha, dom Milton não esconde sua paixão pelo “Timão” e pontua críticas a respeito do baixo desempenho dos times de futebol da região, que sofrem as agruras da falta de patrocínio. O arcebispo também se refere ao governador Blairo Maggi (PR) como um administrador que se empenha para firmar a aproximação com o povo. Diário de Cuiabá - Qual a orientação da Igreja e em especial do senhor para os eleitores? Dom Milton Santos - A orientação que nós damos é cada eleitor se conscientizar de que o poder está na mão do povo. O povo é o poder. Então eu sou o eleitor, eu sou o presidente da República, eu sou o governador, eu sou o prefeito, o deputado, o senador e o vereador. Essa é a conscientização porque uma nação é feita de indivíduos, que têm a sua identidade, não é uma massa anônima, mas indivíduos. Então, no momento em que cada um de nós se aproxima da urna e deposita o próprio voto, eu estou me colocando para governar. É esta a responsabilidade. E para nós, que somos cristãos, somos católicos, eu sou um salesiano, temos que lembrar aquilo que dom Bosco já pregava no século 19: precisamos formar honestos cidadãos e bons cristãos. Diário - Existe uma orientação para votar em políticos de determinadas correntes ideológicas? Dom Milton - A Igreja, nós orientamos que não se pode votar contra a vida. Se determinados políticos se manifestam contra a dignidade da pessoa humana, em que toca a vida, em que toca o aborto, a utilização de células embrionárias, se o embrião já é vida, então esse é o campo em que a Igreja orienta. Porque temos que ter uma conseqüência lógica do nosso voto, para aquele que vai promover a vida. Não é possível nós elegermos, para aquele que se diz cristão, se não for coerente com a própria fé. Nós não podemos separar vida concreta do dia-a-dia de um lado e a fé do outro lado. Não, a fé é algo que nós recebemos e que foi se purificando com Jesus Cristo. Estamos no ano 2008 depois de Jesus Cristo, então a pessoa que marcou a história. Portanto, alguém que manifestasse alguma linha de conduta que vai contra a dignidade, e se alguém atingir o setor da educação, por exemplo, que diz respeito à formação integral da pessoa, nós iremos aconselhar. Em síntese, um candidato que se apresente com suas propostas numa direção de atentar contra a vida, nós orientamos que não vote nesse candidato. Diário - Há alguma orientação da Igreja para evitar que padres disputem a eleição? Dom Milton - Não bate com eleição. Na eleição um candidato se filia a um partido. E a palavra já diz: divide. Então, não é possível um padre se colocar diante de uma comunidade e ele ser de um grupo. Cada partido possui uma ética, como existe a ética dos advogados, como existe a ética dos médicos. Num partido muitas vezes a sua ética é antiética, como vemos com tantos fatos concretos. Um partido para existir não podemos permitir que outra legenda se sobreponha à nossa, mesmo que esteja realizando coisas boas para o povo. Agora vamos para as eleições dos municípios. São as eleições mais importantes, porque são candidatos próximos de nós, que são o vereador e o prefeito. Por isso aconselhamos que se façam debates nas paróquias, ali no local para que conheçamos os candidatos. Então, se um padre vai se candidatar, ele vai contra totalmente a sua índole sacerdotal, que é de um homem promover comunhão, e não vai poder ser um candidato isolado de um partido. Diário – Mas, e se houver a intenção de um padre se candidatar? Dom Milton - Se um padre insistir em ser um candidato, ele precisará pedir licença de não exercer o sacerdócio. Ele tem que deixar. Ele não vai poder ser um sacerdote e um candidato a um cargo, porque são coisas que não se conjugam. Nós somos políticos, precisamos ser políticos, mas não partidários. Eu como arcebispo sou político, devo dar esse exemplo de cidadania, de uma educação política. Mas como sou líder de toda uma comunidade, no momento em que eu me manifestar favorável a um partido então estou do lado daquele grupo, porque cada legenda tem a sua ética e, portanto, isso atrapalha já na raiz o trabalho que o sacerdote precisa fazer. Diário - A Igreja vai distribuir ou orientar os eleitores por meio de uma cartilha ou algo semelhante? Dom Milton - Na arquidiocese, nós fizemos cartilha em 2006, nas eleições para presidente, senador e deputado. E os princípios são os mesmos, nós estamos recomendando, inclusive já fiz gravações. Estão todas prontas para a televisão, no canal 33 com a TV Canção Nova, nas programações diárias que eu faço, já orientando os eleitores nos dias mais próximos das eleições sobre os nossos princípios. A grande cartilha que a arquidiocese agora tem é o documento do Sínodo. Nós levamos quatro anos, desde 10 de junho de 2004, quando iniciamos uma grande assembléia que se chama Sínodo. E no dia 22 de maio passado, nós encerramos e entregamos esse documento. É um livro único, mas contém três documentos. No segundo documento fala assim: “o amor que impele os discípulos missionários a serviço da sociedade”. Então, é uma dimensão sociotransformadora. Porque o voto de cada cidadão precisa ser depositado nesse sentido, com esse peso. O meu voto, ele é social porque participo de uma sociedade e este voto é transformador porque temos que melhorar para o bem. Diário - Existe alguma recomendação para se votar em algum tipo de político? O que caracterizaria um político que não seria bom para o povo, na sua opinião? Dom Milton - Não é fácil nos dias de hoje a gente ter clareza dos candidatos porque, infelizmente, em todos os momentos de eleição nós vemos palavras bonitas, promessas. Há uma camuflagem muito grande. A realidade dessa camuflagem é que a sociedade também se cansa. Nas pastorais sociais e também em outros órgãos e setores da sociedade brasileira, a Igreja Católica do Brasil também fez movimentos em anos passados e até existe a lei 9.840, que foi uma semente de esperança e sinal de resistência para produzir o voto livre. Nós conseguimos pela causa de mais de 1 milhão de assinaturas, uma vontade popular que fez nascer uma lei. Por causa dessa lei uns tantos políticos não puderam mais se candidatar, mas nós entramos também, a Igreja Católica e outras entidades como a Ordem dos Advogados, com pedido de outra complementação. Entendemos que políticos que estão sendo julgados estão impedidos. Diário - Há um dito popular de que política, religião e futebol não se devem discutir. O senhor concorda? Dom Milton - Exatamente do que estamos falando, é preciso um respeito muito grande ao eleitor. É um dito popular que diz essa grande verdade de respeito à liberdade do indivíduo, nós, sim, devemos trocar idéias, é preciso trocar idéias. Neste momento em que nós estamos nos aproximando dos meses de agosto e setembro, iremos nos afunilando nessa conscientização e que é recomendação da arquidiocese para as pessoas que acolhem a nossa orientação, para que as paróquias, as comunidades, promovam os debates locais, ali no bairro, ali na paróquia. Esses debates são mais eficazes. Lembrando que todos os debates, como os de televisão, são abrangentes. Mas é importante nos bairros chamar os candidatos e fazer debates para esclarecer o máximo que é possível, com o candidato ali na frente, olho no olho. São luzes de esclarecimento. Diário - Dom Milton, o senhor assiste a partidas de futebol? Dom Milton - Bom, eu tenho até aqui no meu escritório a Gazeta Esportiva de 1999, quando era diretor em São Paulo. Sou corintiano desde 1954, quarto centenário de São Paulo. Então, tenho a graça de Deus de ser corintiano. E agora o Corinthians se renovando, por estar na série B, mas é o momento que foi importante, porque somos mais corintianos do que antes. Diário - Isso é uma provação, dom Milton? Dom Milton - Além de ser uma provação, há um momento quando um time é muito grande... Nós dizemos que aqui no Brasil tem duas religiões no esporte: é Flamengo e Corinthians e Corinthians e Flamengo. Os outros devem ser seitas. O esporte é um momento de lazer, de confraternização como estamos respirando aí os jogos olímpicos, que é um momento de congraçamento dos povos, um momento de fraternidade. Diário - Aqui o senhor vai aos campos, vai aos jogos? Dom Milton - Aqui eu ainda não tive oportunidade. O Corinthians não veio jogar aqui, mas se vier... Diário - O senhor tem preferência por algum time local? Dom Milton - Aqui infelizmente eu ainda não vi expressão dos times de Mato Grosso, como foi no passado. Em São Paulo a gente ouvia falar muito do Mixto, Dom Bosco, Operário, que já foram times de nome. Hoje a gente percebe que são times sem expressão, porque faltam patrocinadores e no momento em que um jogador começa a se destacar outros clubes já levam. Então, fica difícil um time do interior se manter para segurar seus atletas. Diário - Quando o governador Blairo Maggi se reelegeu nas eleições de 2006, o senhor disse que gostaria que ele continuasse sendo estradeiro. Como avalia a gestão? Dom Milton - Não estou avaliando politicamente. A gente se relaciona muito bem. Todo governo não consegue por si solucionar os problemas todos de um Estado e principalmente o nosso Mato Grosso, que tem dificuldades, pela extensão, até de locomoção, e isso dificulta tudo para qualquer governo. Logo que cheguei a Cuiabá vi esse posicionamento do governador Blairo Maggi. Há um esforço do governador nesses dois mandatos. Mas nessa parte de estradeiro eu estava observando, como fez bem. O governador deixou o seu gabinete e pegou a estrada. Numa dessas vezes em que ele chegou a Juína eu estava lá e brinquei com ele: “vim aqui ver o que o governador estava fazendo, estou investigando”. Tomara que tenha fôlego para continuar assim. Eu disse: o senhor faz o estradeiro político e dom Milton faz o estradeiro espiritual. A gente plantou uma idéia de que governo é aquele que se aproxima do povo. Dou os parabéns para o governador pelo que ele faz. Diário - Um recado do dom Milton para os eleitores nesse período eleitoral. Dom Milton - Eu agradeço a gentileza do jornal Diário de Cuiabá, oferecendo este espaço para a gente colocar aqui um pouco das idéias, das preocupações que a gente tem. Porque nessa parte de pastorais de fé também sou governante. O bispo exerce inclusive três poderes: ele é Legislativo, porque eu também faço com meu conselho de presbíteros as orientações. A gente também exerce o papel de Judiciário e Executivo. Temos essa responsabilidade que Deus nos dá para com os outros. Gostaria de terminar esse espaço com a mesma chave na qual eu abri, para que nesse momento das eleições nós sejamos, cada eleitor seja de fato um honesto cidadão para, como dizia dom Bosco, poder ser um bom cristão. O momento de culto a Deus é a hora de colocar o voto na urna. Estou pedindo a Deus que mande o Espírito Santo para escolhermos bem nossos representantes e assim sermos felizes. Diário - O senhor consegue perceber um aumento de fiéis na igreja? Dom Milton - Veja bem, Jesus já mostrou que o número não pode ser a nossa preocupação. A gente não anda atrás de número. O Cristianismo, o Catolicismo para a Igreja Católica não é propaganda, se nós nos preocupássemos em número de fiéis estaríamos fazendo propaganda da religião. Não, nós fazemos a evangelização. Lógico que eu sinto dentro desse pouco tempo que estou aqui como arcebispo. Assumi em 2004, através de assembléias que as pessoas se envolveram e terminamos o primeiro sínodo. Nunca na história da Igreja de Cuiabá houve um sínodo, que é como o Concílio Vaticano, é uma reunião, um debate. Nós ouvimos os fiéis e chegamos a um documento. No tempo de dom Aquino Corrêa houve o primeiro congresso eucarístico de Mato Grosso, antes da separação do Estado. Então o sínodo trocou de roupagem e o congresso eucarístico que começou no dia 22 de maio deverá terminar no dia 23 de junho de 2011. Então temos uma caminhada, uma direção. Nesse tempo o documento deverá chegar o máximo possível às bases, se tornando uma luz para fiéis e organismos. Nós estamos em preparação para 2010, de 100 anos de arquidiocese. Nesse jubileu chamamos a comunidade para uma maior conscientização. Temos o slogan dos 100 anos que é “Deus em nós e nós em Deus com Maria, a comunhão para nunca mais acabar”. Diário - Nos últimos anos o dízimo é uma questão que vem sendo massificada dentro da Igreja. Qual o motivo? Dom Milton - O dízimo não é algo inventado pela Igreja. É algo que já vem do antigo testamento. A preocupação da pastoral do dízimo é que os fiéis percebam que a Igreja da sua comunidade, ela se mantém pelos próprios fiéis. Então, aqui no Brasil a maneira do culto é diferente das outras nações. Eu cito, por exemplo, a Alemanha: lá quem mantém o culto é o governo. Cada indivíduo paga mensalmente uma taxa do culto, se é católico é para os católicos; se é anglicano, para os anglicanos. Se o cidadão não quer pagar mensalmente, pode deixar para o momento de declaração do imposto de renda, mas aí a coisa será mais vultosa. Em relação à parte econômica, o dízimo é esta parte de bens que a pessoa devolve a Deus aquilo que recebe. Nós recebemos de graça, Deus dá a vida e o ar que a gente respira e assim por diante. Mas é importante que os fiéis percebam a importância da prestação de contas do dízimo mensalmente e o que se faz com esse dinheiro mensalmente. A Igreja é mantida pelos fiéis.

Edição EDIÇÃO 16959




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