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Cuiabá MT, Quarta-feira, 10 de Junho de 2026

ILUSTRADO
Sábado, 06 de Setembro de 2008, 10h:24

FESTIVAL

Veneza na reta final, sem um grande filme

“O Lutador”, de Aronofski, traz um Mickey Rourke bombado e envelhecido no papel do ídolo da luta livre que está pedindo uma aposentadoria

Luiz Zanin Oricchio
Agência Estado
"The Wrestler", último filme em competição, dirigido por Darren Aronofski, foi uma boa surpresa, em especial quando se lembra do filme que ele apresentou aqui mesmo em Veneza no ano passado, o péssimo "A Fonte da Vida". "The Wrestler", (vamos traduzi-lo por "O Lutador"), sem ser nenhuma obra-prima, é bem melhor. Traz de volta à tela um Mickey Rourke bombado e envelhecido no papel do ídolo da luta livre que está pedindo uma aposentadoria, mas permanece no ringue para ganhar uns trocados a mais. O diretor faz um bonito começo de filme, com a câmera acompanhando o lutador por trás, enquanto ele se encaminha para a arena. É um longo travelling, cheio de sentido. E que será repetido, em outra circunstância, mais adiante. Há muito sangue e paixão - e um belo trabalho de Rourke, que faz jus à força desse tipo de personagem: o velho lutador, o gladiador dos tempos modernos, sempre obrigado a mais uma luta para sobreviver Claro, o tipo ideal de todos eles é Robert De Niro em "Touro Indomável". Mas aí temos a obra-prima. Não passando nem longe dela, O Lutador convence pela sinceridade. Sua história é da queda com dignidade, enfrentando desde um romance frustrado com uma prostituta (Marisa Tomei) até o relacionamento difícil com uma filha (Evan Rachel Wood). Na entrevista, Mickey Rourke disse que, antes de fazer o filme ele não tinha lá muito respeito pela luta livre. Afinal, ele lutou boxe e os boxeadores não levam lá muito em consideração esse tipo de combate que, mesmo sendo brutal, é em parte coreografado e ensaiado entre os supostos oponentes. Há um sempre do "bem", outro do "mal", os próprio juízes fazem parte do show e todos se divertem. Mesmo assim, sobram cortes, cicatrizes, dentes partidos e costelas quebradas. São como atores, vítimas da própria encenação. E, vendo a atividade mais por dentro, Rourke, segundo seu depoimento, passou a respeitá-lo. Isso porque Aronofski, habilmente, conecta a luta à sociedade do espetáculo. E faz a atração aparecer entre dois "atores do corpo", manipuladores da fantasia alheia - o lutador e a prostituta. Não se descarta um prêmio de interpretação para Rourke. No dia anterior à sessão de "O Lutador", Veneza havia descido ao fundo do poço com a apresentação da triste comédia "O Sêmen da Discórdia". A história: Verônica (Caterina Murino) é uma bela mulher, dona de butique, casada com um vendedor de fertilizantes (Alessandro Gassman, filho do grande Vittorio). Resolvem ter um filho, esforçam-se de maneira burocrática, mas nada acontece. Seu teste de gravidez finalmente dá positivo, mas no mesmo dia em que o marido se descobre estéril. Crise matrimonial, pois a mulher não sabe de quem é o filho. Com isso, Corsicato se põe a discutir gravidez, paternidade, fidelidade, aborto, estupro, etc. Grandes temas que, faz questão de afirmar, gosta de conduzir com leveza. Com ligeireza, seria melhor dizer. Da fotografia à exuberância feminina, fica perceptível o desejo, não de dialogar, mas de imitar Almodóvar, o que não se faz impunemente. Aliás, Corsicato adora citações. Logo no início do filme há um diálogo tirado de ..."E o Vento Levou". Em seguida, um carrinho de bebê é empurrado escada abaixo e, claro, trata-se de "O Encouraçado Potemkin". Piscadinhas de olho para cinéfilos. Tudo gratuito, embora Corsicato diga que não alimenta qualquer preocupação autoral. "Tudo aquilo que trago é fruto da minha experiência no cinema, de coisas que vi e de que gosto." Assim, ele vai atrás das cores de Almodóvar, das mulheres de Almodóvar, do exagero de Almodóvar, etc. Mas lhe falta a ternura do espanhol, o senso da ironia, o domínio do absurdo, etc. Falta-lhe o essencial. A alma E, assim, o resultado é constrangedor. O filme foi apresentado à noite, na enorme sala PalaLido e as reações dividiram-se entre aplausos e vaias. Sua presença na competição parece um grande equívoco. Mas talvez se explique em parte pela tentativa de "popularizar" a mostra, com a presença de obras muito comerciais e sem qualquer preocupação artística detectável, apesar dos belos discursos e perguntas eruditas de jornalistas que gostam de iludir a si mesmos - e aos seus leitores. Nada mais patético do que intelectualizar filmes completamente despretensiosos. Com os problemas apresentados pelos filmes da mostra competitiva, os prognósticos tornaram-se ainda mais incertos. Quem leva o Leão de Ouro na cerimônia de hoje à noite? Difícil dizer mas se o júri resolver consertar o trabalho malfeito da comissão de seleção, terá poucos filmes com que se preocupar. Se nos deixarmos levar pela preferência dos críticos, teremos de colocar a animação "Ponyo", de Hayao Miysaki, entre os favoritos Mas devemos torcer para que seja apenas uma excentricidade causada por esse momento particularmente difícil para a inteligência européia. "Hurt Locker", da americana Katryn Beglow, aparece também na ponta, mesmo que seja politicamente contestável quando visto de perto - "Um Rambo em Badgá", como bem definiu um jornalista local. É até possível que o etíope Teza venha a vencer, o que não seria má escolha, dadas as particularidades desta edição do festival. E há mesmo quem jogue fichas no Jonathan Demme de "Rachel Getting Married", filmado à maneira de um Cassavetes - mas sem qualquer traço da mesma inspiração. Com tantas dúvidas, pode até sobrar alguma coisa para os índios brasileiros de "Birdwatchers" de Marco Bechis, por que não? Uma única aposta parece certa: dificilmente alguém se lembrará do filme vencedor daqui a alguns anos - para ser otimista.

Edição EDIÇÃO 16959




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