Nada como uma pequena mudança no tempo para modificar totalmente a paisagem cuiabana. O clima aqui é tão frágil que qualquer espirro da serra vira nevasca. Depois de cair na tigela qualquer vendaval é fatal. As pessoas abusam dos agasalhos e elementos de uma estação totalmente incomum à realidade local. É uma demonstração de que poucos entendem de frio. No entanto sobra malícia. As roupas pesadas sufocam o balanço das morenas. Prendem o passo saltitante da dançarina. Porém, fazem brilhar os laços de fita no cabelo que escorre em cacho apalpando a cintura. Os olhos murchos nem prestam atenção. Parecem sonolentos. Até os pássaros ficam na maior fossa. Os pardais bagunceiros ali da Praça Alencastro, entram em resguardo. As pombas andam encorujadas rebolando de um lado só. Cuiabá sem sol fica sem sal pra caramba. À noite o toque de recolher é inevitável. A partir do segundo piado da coruja não se vê mais uma viva alma na rua. A cidade fica a mercê do silêncio. Durante o frio a cidade se resfria e transforma naquelas vilas de faroeste onde o artista é o fantasma da modernidade. Os prédios durante a madrugada parecem peças de xadrez em profunda reflexão mórbida. O frio traz o desprezo e o isolamento. Nessas noites geladas a solidão é um crime perfeito. Todos buscam um cobertor de orelhas. A cidade dá um basta a ansiedade. Elimina a pressa e coloca um fim a essa ridícula ideia de grande metrópole. Cuiabá se recolhe em profundo silêncio e reflete um pouco sobre a própria existência. O que transformou a Cuiabá dos meus amores? Será que o progresso não sabe ser romântico? Não entende que os saraus devem ser iluminados pelo clarão da lua? Que a dança é suave como a brisa da manhã? Que a morena de cabelo cacheado só usa vestido de chita? Para que tanto apelo? Entre becos e vielas chapiscada de sereno as vitrines apressam em demonstrar o estoque quase inativo. Parece que até o tempo fica menos cuiabano. Perde totalmente a identidade e deixa de ser tchapa e cruz? As nuvens demonstram uma arrogância imunda e tudo parece estar sujo. Escuro. Dá a sensação de que os cuiabanos estão sendo observados de perto pelo vento sul. Parece que está todo mundo no camarim se preparando para a próxima festa. Cuiabá é um palco de alegria. Um espetáculo que acontece sem limite. Quando o sol voltar a brilhar não há frio que segure essa gente. Vai ter festa lá na casa de capim. O povo vai vir até doce. E aquelas manchas cinzentas do tempo que surgem com a cara de suco de limão sem açúcar fazendo curvas igual os seguranças das boates, vão morrer de inveja. Cuiabá, detesta o frio. Ainda bem!, por que o calor desse povo tem que continuar. Luís Gonçalves é publicitário, escritor e colabora com o DC Ilustrado
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