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ILUSTRADO
Quinta-feira, 18 de Fevereiro de 2010, 10h:23

MÚSICA

O Rec-Beat e a sua vitrine diversificada

A festa teve quatro dias de duração e terminou na quarta-feira já de madrugada. O caldeirão multicultural de Recife confirmou novamente sua ótima reputação

Lauro Lisboa Garcia
Agência Estado
Diz a língua do povo que tem caráter de novo tudo aquilo que a gente não conhece. É novidade para quem vê de fora, portanto, desde o rock experimental da dupla belga Madensuyu e o "índio" rock da banda acreana Caldo de Piaba, até o trabalho de um veterano do coco, o arrebatador Mestre Galo Preto, e bandas de rock instrumental da capital pernambucana. Essas foram algumas das incríveis revelações da 15ª edição do Festival Rec-Beat, que acontece no meio do Carnaval Multicultural do Recife. Além do mais, nos intervalos entre os shows, o DJ Patrick TOR4 engrossava o caldo com uma infinidade de sons diferentes e contagiantes de toda parte do planeta, misturando kuduro angolano, afrobeat, tecnobrega, música dos Bálcãs, até clássicos tropicalistas, frevos carnavalescos e novidades nacionais, como a BaianaSystem, e latino-americanas. De ofertas adicionais, vale destacar os sensacionais vídeos criados pela VJ Milena Sá, que marca presença há quatro anos no Rec-Beat, com minucioso trabalho de pesquisa e tratamento de imagens, em sincronia com o estilo de cada banda. A festa terminou na quarta-feira já de madrugada, com a retumbante união de duas bandas de Olinda, Eddie e Orquestra Contemporânea de Olinda. O caldeirão diversificado do festival teve muito mais para confirmar sua ótima reputação. Deixaram sua marca artistas mais conhecidos no, digamos, circuito alternativo do eixo Rio-São Paulo, como Lucas Santtana, Renegado, Cidadão Instigado, Céu e Stela Campos, além da Eddie. Nem tudo foi de agrado geral, mas todos os riscos foram válidos. O projeto eletrônico dos argentinos King Coya + La Yegros foi o que menos empolgou público e imprensa. A banda pernambucana Volver, bastante popular por aqui, arrebatou os fãs, mas é artisticamente fraca, falta personalidade. Bem encaminhado, Zé Manoel é um potencial talento a se desenvolver. Na ponta oposta, Céu já parece mais um ponto brilhante no star system, tanto pela popularidade como pelos equívocos de comportamento que envolvem celebridades. Uma das atrações de maior público no festival, ela caiu nas graças da multidão. No entanto, soou vagarosa demais depois da espetacular e fervorosa sequência do Madensuyu (que significa água mineral em turco) e da banda espanhola Ojos de Brujo. A dupla belga, que toca sexta-feira no Sesc Pompeia, fez talvez o melhor show do festival. É apenas guitarra e bateria, mas o resultado é tão estrondoso quanto o de uma superbanda. O rótulo de rock instrumental é simplista demais para explicar a arrojada sonoridade da dupla. É importante prestar atenção aos detalhes de composição e execução desse som, cheio de nuances por debaixo da intensa descarga de informação. Os espanhóis trouxeram uma potente mescla de rumba catalã, hip-hop, ragga indiano, flamenco, dub, ska, música cigana e otras cositas más. Saíram consagrados, como os colombianos do Puerto Candelária, comprovando a força da latinidade entre o público pernambucano. Já os mexicanos do Cabezas de Cera, que tocam sábado no Sesc Pompeia, causaram estranhamento, com instrumentos exóticos e únicos e uma mistura caótica (no bom sentido) de música eletrônica contemporânea com jazz, ruídos e atitude roqueira. Em interessante contraste a isso tudo, o veterano Mestre Galo Preto deu um show de elegância, graça, simpatia e inteligência com seus fluentes e contagiantes cocos da fronteira de Pernambuco com Alagoas, só à base de voz e percussão, com muito improviso, sutileza e rimas ricas. Convidando o rapper Zé Brown, evidenciou a proximidade do hip-hop com a embolada e cantou até um tema que fez para uma campanha contra a aids e outro em defesa da diversidade sexual. Poesia pura.

Edição EDIÇÃO 16959




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