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Cuiabá MT, Sexta-feira, 05 de Junho de 2026

ILUSTRADO
Quinta-feira, 04 de Junho de 2026, 23h:05

OBITUÁRIO

Morre Marjane Satrapi, autora de 'Persépolis', saga sobre o Irã

Exilada na França desde 1994, ela alcançou fama mundial com a obra autobiográfica; Artista recusou Legião de Honra francesa em 2025 para denunciar a política do país com o Irã

Da Folhapress - São Paulo
Marjane Satrapi

A artista iraniana Marjane Satrapi, autora do best-seller autobiográfico "Persépolis", morreu aos 56 anos, informaram nesta quinta-feira (4) familiares à AFP.A artista iraniana Marjane Satrapi, autora do best-seller autobiográfico "Persépolis", morreu aos 56 anos, informaram nesta quinta-feira (4) familiares à AFP.


"Marjane Satrapi morreu de tristeza mais de um ano após o falecimento de Mattias Ripa, seu marido e o amor de sua vida", diz o comunicado. Produtor, ator e diretor, Mattias Ripa morreu em 8 de abril de 2025.


Exilada na França desde 1994 e naturalizada francesa em 2006, Satrapi alcançou a fama com a HQ "Persépolis" (2000), na qual relata a infância no Irã sob o jugo dos mulás, a repressão sofrida pelo povo iraniano e a dolorosa partida para a Europa.

Exilada na França desde 1994 e naturalizada francesa em 2006, Satrapi alcançou a fama com a HQ "Persépolis" (2000), na qual relata a infância no Irã sob o jugo dos mulás, a repressão sofrida pelo povo iraniano e a dolorosa partida para a Europa.


A adaptação da obra para o cinema, junto com Vincent Paronnaud, recebeu elogios internacionais e foi premiada em 2007 pelo júri do Festival de Cannes, além de ter sido indicada ao Oscar de melhor filme de animação.


"Embora este filme seja universal, quero dedicá-lo a todos os iranianos", declarou em Cannes a artista, que nos últimos anos continuou denunciando o regime dos aiatolás do Irã.

O presidente francês Emmanuel Macron prestou homenagem a Satrapi, dizendo que ela era "uma grande artista que transformou sua infância iraniana em um conto universal".

"Marjane era uma artista extraordinária e uma mulher encantadora que personificava a alegria da criação e a dor do exílio e das memórias dolorosas. Nós a pranteamos nesta manhã", disse Thierry Frémaux, diretor do Festival de Cannes.


Em 2024, Marjane foi premiada na Espanha com o prêmio Princesa de Astúrias de Comunicação e Humanidades por ser "uma voz essencial para a defesa dos direitos humanos e da liberdade".


Ferrenha opositora das autoridades de Teerã, Satrapi recusou em 2025 a Legião de Honra francesa para denunciar "a atitude hipócrita da França em relação ao Irã", onde ocorria novamente uma forte repressão.


'Sua coragem ecoará'Ela foi uma apoiadora vocal dos protestos que eclodiram na república islâmica após a morte em 2022 de Mahsa Amini, uma iraniana curda de 22 anos que estava sob custódia por supostamente violar o código de vestimenta para mulheres.


Ela organizou uma coletânea de histórias em quadrinhos sobre o movimento "Mulher, Vida, Liberdade" em seu último livro, lançado em inglês em 2024, e estava entre os participantes de um protesto em Paris naquele mesmo ano para marcar dois anos da morte de Amini.


"É muito importante que esse regime desapareça", disse ela sobre a república islâmica, mas ressaltou que isso não poderia acontecer da noite para o dia. "Acho importante manter a esperança."


Narges Mohammadi, a iraniana ganhadora do Prêmio Nobel da Paz que está presa, elogiou Satrapi como "uma voz destemida pelo feminismo, pelos direitos humanos e pela liberdade".


"Ela defendeu consistentemente os direitos das mulheres, solidarizando-se com o povo do Irã e amplificando a mensagem do movimento Mulher, Vida, Liberdade no cenário global", afirmou a fundação. "Sua coragem continuará a ecoar muito além de sua vida."


Também pintora, em 2020 Satrapi exibiu uma série de obras que disse ter passado os últimos sete anos pintando entre outros projetos, falando sobre a necessidade de se isolar do mundo com suas telas.
"Acho que minha saúde mental depende disso", disse ela.


Ela afirmou acreditar em ser feminista através de suas ações.


"Se eu mostrar que sei fazer as coisas tão bem quanto — ou até melhor que — um homem, então venci a batalha e posso ser um exemplo para a garota que virá depois de mim", disse.

'Amor da minha vida'Ela disse no ano passado que havia recusado a mais alta honraria civil da França, a Legião de Honra, acusando o país de "hipocrisia" em relação às políticas de visto que impediam dissidentes de viajar do Irã para a França.


"Não posso ignorar o que vejo como uma atitude hipócrita em relação ao Irã, que forjou a outra parte da minha identidade", escreveu, acrescentando que não pretendia desrespeitar o prêmio e que amava a França "profundamente".
Seu trabalho se expandiu para além de histórias ligadas ao Irã, incluindo "Radioactive", uma cinebiografia de 2019 sobre a pioneira pesquisadora de radioatividade e ganhadora do Prêmio Nobel Marie Curie, estrelada por Rosamund Pike.
Seu marido, um produtor, ator e roteirista sueco, havia sido um colaborador de longa data.


Após a morte dele em 8 de abril do ano passado, Satrapi fundou a Fundação de Cinema Mattias e Marjane Ripa-Satrapi para apoiar estudantes estrangeiros que desejam vir a Paris estudar cinema.


Desde que ele morreu, a página de Instagram de Satrapi consistia quase exclusivamente em uma série de imagens formando a frase "Pois eu perdi o amor da minha vida", junto com uma foto de seu marido e um anúncio da fundação.
Marjane Satrapi nasceu em Rasht e aos dez anos, após ter estudado em uma escola laica e bilíngüe, foi obrigada a freqiuentar um colégio religioso e a usar véu, como uma consequência da Revolução Islâmica de 1979, que derrubou o xá Reza Pahlevi.


"Persépolis" foi lançada na França, em 2000 e ganhou continuações até o quarto e último volume, em 2003.


Edição EDIÇÃO 16956




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