Os dias passam. Numa cadência contínua marcada pelas horas e minutos triturados pelos marcadores impiedosos. Os sonhos não vividos sobram e desandam em minutos sofríveis repletos de arrependimentos e pensamentos dengosos banhados em melancolia. Aprendemos que não há tempo para espera. É preciso viver tudo que há pra ser vivido e com ânimo. Fazer o dever de casa com a certeza de que o novo dia vem logo em seguida trazendo novas tarefas. Geralmente, com novas oportunidades e outro tanto de aprendizado. Assim acumulamos as cobranças e as cortesias. Preencher as horas para se distanciar dos apelos pode ser uma fuga comprometedora. Também, ceder aos apelos para saciar os sentidos aflorados pode não ser um bom negócio. O tempo é precioso e não é amigo do homem. Homem e tempo não combinam. Talvez até seja o juiz, ou o limite de tudo que podemos ser. Leva ao vento a sabedoria de empenar o juízo humano e fazer baderna com as horas que passa. As vezes o tempo é tão curto que mal dá para esticar uma linha de vida. Na maioria, algumas ficam semeadas pelo caminho por não conseguirem acompanhar a velocidade do tempo. As vezes o que acontece numa manhã a tarde já foi esquecido. As coisas ruins ficam com a noite que passou. O novo dia vem com tudo para uma nova vida que no fim da tarde pouco diferencia do passado. Frustrações. A grande sabedoria é conhecer a cadência do tempo. É estar embaralhados nesse ritmo sem esquecer de ser feliz. A vida possui um ciclo diferenciado que retrata exatamente a ansiedade do corpo. Não adianta correr para ganhar tempo. Vai gastar energia desnecessária e ainda ceder margem ao azar. Até ser flagrado com a boca na botija. Quem muito corre atropela as oportunidades. Faz da corrida uma vida de encontros e desencontros. Em alta velocidade os acidentes costumam acontecer com mais frequência. Geralmente fatais. Nem sempre os acertos são justos e as horas propícias. Ficar enganchado pelo meio do caminho vendo a vida passar é totalmente inócuo. O tempo passa levando todas as realizações que poderiam ilustrar essa tal felicidade. A vida é uma construção rica em detalhes e com uma arquitetura pré definida. Não adianta adicionar mais traços além das formas pré concebidas. Sobrecarrega o visual e agredi a fachada. Nada impede que seja arrojado e até agressivo. Esses impulsos marcam os passos e acertam o ritmo. Embora cada um tenha seu próprio tempo e faça dele a melhor salada, o tempo tem a sua horta e cultiva nela os próprios legumes e vegetais. O apressado come cru e o último também, não vai passar. É uma questão de dar um passo de cada vez. *Luís Gonçalves é publicitário, escritor e colabora com o DC Ilustrado
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