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ILUSTRADO
Terça-feira, 07 de Julho de 2015, 15h:40

ARTES PLÁSTICAS

Gervane de Paula na Boca da Arte

Artista cuiabano consagrado nacionalmente, ele transformou ateliê em galeria e quer contribuir para o aperfeiçoamento cultural

BEATRIZ SATURNINO
Da Reportagem
De lá do Araés, Gervane de Paula está com a “Boca” aberta, escancarada , esperando o público chegar em seu espaço “Boca de Arte”. Cuiabano de “tchapa e cruz”, da rua Alírio Hugney de Matos, onde nasceu, cresceu, hoje vive e onde funciona sua galeria, o artista plástico mantém um trabalho instigante, questionador e sólido, o que estimula o visitante a refletir sobre a arte contemporânea. E dá o recado ao Governo do Estado de que está bem longe de ser o salvador da pátria das artes plásticas em Mato Grosso. Mas quem por ali passa e tem contato com seus experimentos artísticos, conceituados no Brasil e afora, com certeza sairá de lá com muita reflexão. Seus trabalhos são de investigação e apreciação de uma estética, cujas paredes e os cantos do chão da galeria são preenchidos por diversos temas, que não se definem em apenas uma tela. Na verdade esta acaba por se apresentar numa composição de várias telas, ou mesmo com uma instalação e também numa escultura. Ao entrar na Boca de Arte o visitante irá se deparar com um acervo de obras que retratam muito mais do que as cenas do cotidiano, da realidade, da violência urbana e em todos seus aspectos, tem também várias composições que são imaginárias, inventadas. A matéria-prima para produção de sua obra é farta. Não é só do tecido que gosta, também há latão, alumínio, pinta sobre paredes, madeira, pedra, porque a arte de fazer é que é importante, nunca acaba. A arte de Gervane seduz o expectador pela cor e o recado vem depois. Atrás do cromatismo sempre existe um ponto de partida, que é aliado ao suporte desses objetos para dar o formato da obra, com o metal, a madeira, o papel e papelão. “A arte é o que eu faço, eu não me considero obra, e nem tudo o que eu faço eu considero arte. Chego até a destruir, tacar fogo mesmo em alguma ou outra que não gostei deixo de lado e retomo depois, após ter outro olhar”, conta o artista. Gervane Ferreira de Paula (53), conceituado internacionalmente, é modesto, de poucas palavras, e já está enraizado com a arte, intrínseco de sentimento. “Esse Ferreira é quem une o Gervane de Paula, não diferencia e nem muda. A minha vida toda eu me entreguei ao meu trabalho e é difícil dividir um do outro”, diz Gervane, o quarto filho de nove irmãos. Mas ser artista hoje virou algo clichê, assim observa Gervane, na ótica de que hoje todo mundo é “artista”, basta fazer um risco, ou borrar uma tela que já se torna um. Bem como basta escrever uma mensagem nas costas de um cartão postal já é um escritor. Esta crítica se estende ao conflito de tendências que se esbarram na definição do que hoje se fala muito, que é a arte contemporânea. Está muito confuso. Há a dificuldade de muitos artistas em entender o que é contemporâneo, que se define no que está se fazendo no hoje, que não é o modernismo, o cubismo, nem mesmo outros movimentos que ganharam história. Segundo Gervane, a arte contemporânea está num redemoinho, no olho do furacão. Vale entender que a pintura é uma expressão antiga e que demora muito tempo para amadurecer. É um exercício, mas é contemporânea também e, por isso, traz confusão e questionamento, como o que aconteceu quando Gervane de Paula e Miguel Penha foram os únicos selecionados de Mato Grosso no 1º Salão de Arte Contemporânea do Centro-Oeste, que recebeu artistas dos quatro Estados. Dentre tantas outras expressões artísticas, em Vídeo, Fotografia e Literatura, por exemplo, ter a escolha de dois artistas plásticos e os demais recusados trouxe perplexidade à classe artística mato-grossense. Este episódio foi há cinco anos, em Goiânia, quando se discutia a arte contemporânea do Centro Oeste. “As pessoas não entenderam e acharam que mandar pedaço de ferro velho, foto desfocada, ou vídeo escuro, por exemplo, como aconteceu, era um conceito de arte contemporânea”. Para Gervane, a pluralidade de articular a linguagem pelo Vídeo, Fotografia e Literatura e outros como um todo, que não seja as artes plásticas é muito crítica, política e sempre grandiosa. Ocupa mais espaços públicos e museus. Diz ainda que ela vive constantemente em desenvolvimento, diferente da música e do teatro. “Há falta de clareza em Cuiabá sobre o que é contemporâneo mais do que em qualquer outro lugar do mundo, pois aqui não circulam as grandes mostras de arte. Não tem uma escola de arte como a FAAP – Fundação Álvaro Alves Penteado, em São Paulo. Hoje os artistas surgem também do autodatismo. Então, o Estado é muito omisso. Este é o papel dele, de inovar. Eu não sou empregado do Estado, nem o Adir Sodré, nem Benedito Nunes, Carlos Lopes, Miguel Penha, Vitória Basaia. É o Estado quem tem que resolver isso”, destaca. Segundo Gervane, nem o Modernismo passou por aqui, muito menos as obras dos anos 80 dos artistas locais, onde todos foram para o Rio de Janeiro, São Paulo, Bahia e Mato Grosso do Sul. Onde tem espaços adequados, investimentos, profissionais e segurança para fomentar e abrigar a arte que se faz no momento. O que acontece, por enquanto, são os movimentos e ações isoladas, que é pelos ateliês ou galerias como a Boca de Arte, inaugurada em maio deste ano, o Miguel Penha em sua Floresta, Jonas Barros que preferiu se isolar no município de Nobres, no sítio dele. Também Adir Sodré, ao lado do Cemitério da Piedade, em Cuiabá, e Vitória Basaia em sua “casa Basaia”, em Várzea Grande. Cada um em seu canto fazendo arte, o artista percebe que esta é uma necessidade, para se localizar, relacionar e se comunicar com o mundo. “Não é um emprego. Não somos iguais os petistas que só querem saber de emprego. Queremos nos localizar e produzir”, critica. “A arte visual é diferente da música, que se pode fazer debaixo de uma árvore, como se faz as Orquestras por aqui, em qualquer lugar aberto. As Artes Plásticas tem que ter outros cuidados e aparelhos. Isso não significa que uma é melhor ou maior que a outra. Aqui os jogadores de futebol surgem da várzea e os artistas do mato, à deriva, sem investimento”, disse Gervane. Suas obras já circularam por vários países da Europa, América do Sul, também foi para Seattle, nos Estados Unidos, por meio do Sebrae, do Museus de Arte Moderna do Rio de Janeiro e por editais. Antes disso, aos 17 anos de idade, rabiscava paredes, papel, reproduzia imagem até que, de repente, apareceu a tela, os pincéis, o solvente e Dalva de Barros, a professora da segunda geração de pintores. É contemporâneo de João Sebastião, Clovis Irigaray, que vieram antes e tiveram Aline Figueiredo como orientadora e mentora intelectual.

Edição EDIÇÃO 16965




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