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Cuiabá MT, Quinta-feira, 18 de Junho de 2026

ILUSTRADO
Quinta-feira, 18 de Junho de 2026, 16h:08

TEATRO

Felipe Hirsch rege orquestra de sons e ruídos mentais em espetáculo de sua nova fase

CRISTINA CAMARGO
Da Folhapress - São Paulo
Cena do novo espetáculo de Felipe Hirsch

 - Sozinho e insone na antiga casa da família, em Curitiba, Felipe Hirsch viveu um momento de irritação com a assistente de inteligência artificial Claude, com quem havia passado 15 horas seguidas conversando, como parte das pesquisas para a montagem de "Orkhéstra Phántasma", sua nova peça.

O "diálogo" gerou um arquivo de 500 páginas e um alerta da ferramenta: "Vai dormir. Só volto às 6h".

Falante, curioso e erudito, Hirsch esgotou o sistema com a sua insistência. A maratona virtual ocorreu em meio ao silêncio do imóvel vazio, onde se hospeda uma vez por mês para visitar a mãe, hoje vivendo em uma clínica especializada no tratamento da doença de Alzheimer, na capital paranaense.

Ali, no espaço ocupado por lembranças da infância e da juventude, o diretor e dramaturgo viu fantasmas na sala de jantar -o padrinho passava a travessa de comida, a mãe conversava, todos riam.

"Eu olhava, via e ouvia. Ao mesmo tempo, cortava para o silêncio profundo. Nunca tive uma sensação de tempo tão forte", diz ele.

O olhar para o passado e o vislumbre do futuro recheiam a mente de um dos mais importantes e inquietos homens do teatro brasileiro e criam ruídos capazes de alimentar a sua nova produção, tratada como o início de uma nova etapa na carreira de quatro décadas.

"Orkhéstra Phántasma", que estreia neste sábado (20), no Sesc Vila Mariana, em São Paulo, é definida como um conjunto de sons, vozes, ruídos, obsessões, mitos e ideias que cruzam uma cabeça.

Na verdade, algumas cabeças. Hirsch assina a dramaturgia ao lado do escritor e linguista Caetano W. Galindo, colunista da Folha, da assistente de direção Juuar e da equipe do espetáculo.

No palco, uma transmissão de rádio muda de estação constantemente, com uma antena sensível a sons de outros tempos, mundos diferentes, vozes vivas e mortas.

"Essa orquestra, inexistente mas presente, pode falar línguas que não entendemos, idiomas que talvez nem existam, pode nos colocar numa posição de fascínio ou recusa. Mas se recusa, ela mesma, a nos atender no que podíamos esperar. As frequências que sintoniza são, ao mesmo tempo, rádio, jukebox, karaokê e turntable", diz o texto do programa.

Um vídeo da exposição "Fala, Falar, Falares", com curadoria de Galindo e da cineasta e cenógrafa Daniela Thomas, no Museu da Língua Portuguesa, despertou a criação. Hirsch aprendeu que a palavra karaokê vem do japonês, unindo "kara" (vazio) e "okesutora" (orquestra). Nos meses seguintes, não parou mais de reunir ruídos para dar forma a um trabalho que ele afirma ser o primeiro após uma ruptura.

O diretor vive uma espécie de terceiro ato de sua vida teatral, iniciada com a fase na Sutil Companhia, com as montagens de peças notáveis como "A Vida É Cheia de Som e Fúria", "Puzzle" e "Avenida Dropsie", quando assumia uma persona centralizadora.

Em seguida, veio o período no Coletivo Ultralíricos, de encenações em grupo, experimentais e políticas, baseadas na literatura latino-americana e com a música tomando a frente, como em "Língua Brasileira", com Tom Zé. Agora, sua aposta é em espetáculos mais sensoriais e reflexivos sobre o destino da humanidade sob o domínio de grandes corporações.

O novo desassossego é fruto da parceria com Galindo, iniciada em "Agora Era Tudo Tão Velho: Fantasmagoria IV", peça polêmica de 2024 em que parte da plateia saía do meio da apresentação, cansada da fala repetitiva de um dos atores, enquanto a outra parte se divertia com a situação inusitada.

"A parceria é de duas pessoas pensando o tempo todo, construindo", diz sobre as trocas diárias com o linguista. Ele não quer, no entanto, que essa base intelectual seja refletida no palco. A intenção é que o público saia do teatro comovido com o que viu.

"Esse espetáculo não parece nada com o que eu já fiz", afirma, empolgado e curioso sobre a reação do público.

Sob o controle das grandes empresas, como podemos ser ruidosos, subversivos?, questiona o diretor. A IA, usada e abusada nas noites de insônia, também é uma vilã que precisa do brio da resistência para não dominar tudo e todos. O teatro é uma das possibilidades de criar frestas de sobrevivência para a criatividade humana.

Nas lembranças sobre os fantasmas de sua vida -que já temeu ao ponto de precisar dormir com uma luz acesa-, Hirsch recorda a reação de Antunes Filho, um dos seus mestres, quando contou sobre o desejo de conviver com os espíritos do Teatro Anchieta. Antunes colocou a mão em seu peito e perguntou: "Você está bem?"

É lenda, mas o diretor parece acreditar na história de que as paredes das casas e dos teatros gravam traumas, vozes e geram aparições nos ambientes. "Fiquei imaginando um teatro com essas reproduções. E a nossa cabeça é isso também, é uma orquestra com esses fantasmas", diz. "Essa peça é isso, as vozes na cabeça".

"Fantasmagoria", o antepenúltimo espetáculo de Hirsch, é uma obra mal-humorada do criador, segundo ele próprio, cansado de precisar falar no palco sobre as coisas que as pessoas esperam ouvir.

"Eu não quero corresponder a nenhum tipo de expectativa de discurso ou de assunto, seja de quem for, em especial de pares meus, em especial de pessoas que pensam como eu penso, porque eu não quero que ninguém fale para mim o que eu também já sei", reagiu em uma conversa com Galindo, na época.

Depois disso veio "Avenida Paulista, da Consolação ao Paraíso", apresentada no Teatro do Sesi, no ano passado, que revelou instantâneos da principal via de São Paulo e funcionou como uma espécie de transição entre uma fase e outra de Hirsch. Já no começo deste ano, dirigiu Chay Suede no monólogo "Peça Infantil: A Vida e as Opiniões do Cavalheiro Roobertchay", brincando com a vida do ator e com o clássico Tristram Shandy.

A avenida Paulista, de certa forma, retorna em "Orkhéstra Phántasma". O diretor mora em um apartamento envolto pelas antenas da avenida, sob a interferência das ondas eletromagnéticas.

Na fase dos Ultralíricos, eram as constantes manifestações políticas, realizadas a partir de 2013, que se intrometiam nas criações teatrais --ora como inspiração, ora atrasando apresentações por causa dos congestionamentos.

"O teatro é perigoso", avisou o diretor no percurso dos bastidores para as cadeiras da plateia, onde concedeu a entrevista para esta reportagem. Ele se referia aos fios, vãos e escadas do caminho escuro. Mas há outros perigos, que também cita.

Em uma performance de "Puzzle", por exemplo, um homem levantou da plateia e jogou um totem no palco. O espetáculo não parou. Em outra ocasião, a direção cênica da ópera "Rigoletto", de Giuseppe Verdi, no Theatro Municipal, foi vaiada por parte da plateia. E depois veio a dispersão do público em "Fantasmagoria".

Mesmo assim, o diretor afirma que o seu teatro é pop e acredita ser possível apresentar espetáculos com mais de três horas de duração para muita gente.

Hirsch diz que já pensou em abandonar os palcos e, ao mesmo tempo, afirma que o teatro o salva de sua própria cabeça. "Tenho amor profundo por isso", diz, entre uma reunião de 12 horas para discutir as cenas da nova peça e um ensaio técnico que considera chato, mas necessário.

Orkhestra Phántasma

Quando Quinta a sábado, às 20h; domingo, às 18h. Estreia neste sáb. (20), até 2 de agosto

Onde Sesc Vila Mariana - r. Pelotas, 141, São Paulo

Preço R$ 90

Classificação 18 anos

Autoria Caetano W. Galindo, Felipe Hirsch, Juuar e Orkhéstra Phántasma

Elenco Georgette Fadel, Milla Fernandez, Pascoal da Conceição

Direção Felipe Hirsch


Edição EDIÇÃO 16965




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