NA HORA
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Cuiabá MT, Quarta-feira, 10 de Junho de 2026

ILUSTRADO
Sábado, 19 de Fevereiro de 2011, 12h:46

CRÔNICA

Confissões Aborrecentes

Luís Gonçalves*
Especial para o Diário de Cuiabá
Não tem coisa que mais fustiga a minha indecência do que uma chuvinha dengosa que acaricia o rosto do telhado. Costura a imaginação com remendos do pecado dos beijos que não deveriam vir a lume. Destampa uma coceira besta no sangue só pra mexer com quem está quieto. Uma passagem só de ida a total loucura. Tenho a carne fraca pra esse tipo de desafio. Não resisto sequer um convite sedutor. Não nasci para curtir vontade. Não há juízo que me prende longe de uma boa vadiagem. Também, não confio em quem nasce com o intuito de se manter longe desse tipo de safadeza. A vida tem cinco sentido: quatro errado e um perdido. Quem se esquiva está na contramão. Pior é quem não gosta e ensina aos outros a não gostarem. Segundo o pastor pregador ali da Praça Alencastro: “a mulher nasceu para dar prazer e alegria ao homem”. Como sou um sujeito de brio, seguidor dos bons princípios, nunca que vou deixar essas coitadinhas arderem no fogo do inferno por não cumprirem tão sagrado mandamento. Se depender da minha pessoa elas sobem ao céu sem passagem bíblica. Embora a modernidade tenha exigido uma qualificação intensa, qualquer paixão me diverte. De repente, até um “papai com mamãe” virado no doze já me acalma o sangue e que os anjos digam amém. Essa garoa besta arrepia o juízo da pessoa. O lombo do rio fica fervilhando numa canalhice de dar inveja. O rio é amante da chuva. Os dois têm um caso amoroso daqueles bem sem vergonha. Vira e mexe também tiro algum dessa situação. Aproveito que o tempo está com água na boca e faço uma folia qualquer só pra levantar o ciúme do vento. Não tem coisa melhor que suspirar embaixo de um toró só pra morrer de paixão depois. Cá, entre nós, essa chuvinha de molhar lombo é danada para atiçar o calor das veias e acordar desejo adormecido. Dá pra fazer uma farofa de um tempo desse com apenas uma fatia de dengo e algum cheiro da perdição. Quando vejo o dia querer dar uma de rebelde com todo aquele aparato de indelicadeza, vou logo tratando de aprontar a lenha que sei que o fogão vai estar no jeito pra cozinhar o galo em fogo brando. Pra domar qualquer tristeza basta duas gotas de chuva bem colocadas e alguns beijos sapecados de paixão. Nada como uma paixão atrás da outra. Sou danado para atarraxar o prazer logo pelo começo da manhã assim não sobra tempo para o dia ruim azedar nada. *Luís Gonçalves é publicitário, escritor e colabora com o DC Ilustrado [email protected]

Edição EDIÇÃO 16959




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