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ESPORTES
Quarta-feira, 09 de Junho de 2010, 20h:41

DIA DAS VUVUZELAS

Milhares de pessoas apoiam anfitriões

CHRISTIAN C. CRUZ
Da Agência Estado - Johannesburgo, África do Sul
Alguma coisa mudou ontem na África do Sul. Quando as primeiras pessoas começaram a chegar à frente do hotel da seleção de futebol local, em Johannesburgo, vestindo camisetas azuis da Aliança Democrática (o partido de oposição ao governista Congresso Nacional Africano, o CNA), parecia só uma boa ocasião para fazer um pouco de política aos olhos da mídia mundial. "Mandamos 400 SMS para pessoas ligadas ao partido. Elas repassaram as mensagens a outras tantas, de modo que teremos umas 2 mil pessoas aqui hoje (quarta)", dizia Angela Barns, uma loira grandalhona, gerente regional da AD no distrito de Sandton. "Mas viemos mais para dar apoio à Bafana Bafana". Verdade. Não era política. Durante toda a semana, duas estações de rádio, a 702 Talk Radio e a 94.7 High Veld Stereo, convocaram a população para uma espécie de "vuvuzelaço" de bons augúrios aos jogadores da seleção nacional. Nos primeiros 20 minutos, a polícia conseguiu controlar a massa atrás de dois cordões de isolamento usados para permitir que o tráfego continuasse fluindo. Uma policial calculava a aglomeração em 5.000 pessoas. O som das cornetas já era alto e elas funcionavam como um berrante chamando a boiada. Mais e mais gente com camisetas amarelas da África do Sul ia chegando, chegando e chegando. Por todos os lados. Tudo era motivo de festa. Passou o ônibus da seleção da Holanda a caminho do treino. Festa. Um apressadinho dentro do carro buzinava tresloucadamente querendo seguir viagem. Festa. Apareceu um tal de Paul Farrell, "de Skegness, Linconshire, Reino Unido", vestido de cavaleiro templário, recendendo cerveja e se dizendo um "inglês puro". Festa. Quando um carro de som tocando música eletrônica despontou na Fredman Road, adeus cordão de isolamento. A mesma policial subia a conta para 20 mil pessoas. Agora no meio da rua, jovens brancos e negros faziam juntos os passinhos coordenados da "discdance", que deve tomar contas dos estádios logo mais. "O que está escrito em nossa camiseta?", perguntava a loirinha Kerryn Deltour, estudante de pedagogia, bolsa Louis Vuitton, à dançarina Khuselwa Matshikwe. As duas traziam estampados no peito os dizeres em zulu: "Awhe mzanzi awhe" (Vai África do Sul, vai) e "Ayihlome Bafethu" (Estejam prontos, Bafana). Nos cartazes brandidos acima das vuvuzelas e acima das crianças sentadas nos cangotes dos pais lia-se também "Nada é impossível", "Um time, um sonho" e "Unidos estaremos". Na verdade já estavam. O sul-africano branco de Johannesburgo é conhecido por andar pouco - ou nada - na rua. Vai e vem quase sempre de carro. A pé, só em casa, no trabalho ou no shopping. Nesta quarta não. Eles dividiram com os compatriotas negros as calçadas, o asfalto, os sorrisos enormes, as bandeiras, as vuvuzelas e, principalmente, a ousada confiança em seu time: "África do Sul 3 x 0 México", rabiscou num papelão Peter Polan, um recrutador da AD. No meio da multidão, ainda pequena perto do que viria, tinha gente arriscando prognósticos para a Copa inteira, com os "Bafana Bafana" vencendo o Brasil na semifinal e a Argentina na final. "Agora sabemos jogar. Batemos a Dinamarca, a Colômbia. Não somos mais um time de mickey mouses", explicava Polan, citando dois amistosos recentes da África do Sul. Dentro do hotel da seleção sul-africana dizia-se que só o técnico Carlos Alberto Parreira e o capital do time, o zagueiro Aaron Mokoena, desfilariam no ônibus aberto que estava sendo preparado para um giro pelas ruas do bairro de Sandton. Acabou indo mais gente. E conforme eles iam avançando, acenando para a massa, mais gente saía às ruas. Na frente dos prédios de escritórios, homens de negócios vestiam as camisas da seleção por cima da gravata. Havia gente dando tchauzinho onde quer se olhasse. Na rua e nas calçadas (ao lado, na frente e atrás do ônibus da seleção). No topo dos edifícios. Nas janelas. Nas obras da inacabada estação de trem rápido. Nos carros parados nas transversais. Sul-africanos de todas as cores, na sensação de que a Copa, agora sim, começou. A polícia fechou num total de 195 mil pessoas nas ruas. De carona no ônibus dos jornalistas que seguiu o cortejo, o empresário de músicos Raphael Wyngaardt filosofava: "Este é o nosso momento de grandeza. Só temos outro igual em nossa história, o discurso de Mandela na Cidade do Cabo. E nós estamos fazendo parte disso, my friend!" Na apoteose, 1 hora e 4 km depois, o sempre contido Parreira adentrou o saguão do hotel emocionado: "Poucas vezes eu vivi algo parecido: em 70 e 94, quando voltamos campeões do mundo ao Brasil, e em 2005 quando a seleção brasileira foi jogar no Haiti Hoje, a África do Sul é o país do futebol". Resumo da ópera: os sul-africanos gostam de uma festa - e sabem como fazê-la. E a bola ainda nem rolou. Não dá nem para imaginar como vai ser se eles vencerem o México na estreia de amanhã. E se passarem da primeira fase, então? Vai faltar rua pra tanta comemoração.

Edição EDIÇÃO 16959




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