Editoriais
Sábado, 02 de Agosto de 2008, 14h:24
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Fracasso da Rodada Doha
Não é apenas o Brasil nem só os países que ambicionavam um ambiente comercial mundial mais favorável que perdem com o fracasso da Rodada Doha da Organização Mundial do Comércio (OMC). As relações multilaterais é que sofrem o maior impacto, com o provável fortalecimento das tendências protecionistas. O Brasil, por ter-se envolvido com profundidade na negociação e por ter até mesmo corrido o risco de fazer concessões que nem mesmo seus aliados do G-20 e do Mercosul aceitavam, surge como um dos maiores derrotados. Quando o fio arrebentou, como plasticamente o ministro Celso Amorim se referiu ao melancólico final de sete anos de negociações, o Brasil ficou sem um dos sustentáculos de sua política comercial e terá que refazer laços e promover aproximações. Foi uma aposta bem-intencionada, baseada na defesa do interesse brasileiro e na tentativa de salvar a Rodada Doha, que se frustrou. Talvez por ter cometido o equívoco estratégico de descuidar-se dos acordos bilaterais enquanto apostava no multilateralismo, o Brasil terá a tarefa de retomar os acordos comerciais diretos. Isso é de especial urgência com a Argentina, que se considerou traída pelo Brasil quando nosso país aceitou flexibilizar salvaguardas, afastando-se do Mercosul e aproximando-se do grupo de países ricos. Uma das normas previstas nos tratados do Mercosul é a de que nas negociações internacionais o bloco atuará com uma voz só. Tal norma foi rompida pelo Brasil, com as conseqüências políticas do fato para o acordo regional e também para as relações comerciais bilaterais. A pior conseqüência do fracasso das negociações que se iniciaram em 2001 é que a competição internacional se manterá sem freios, limites ou disciplina. O protecionismo praticado pelos países ricos é que continuará a comandar as conflituadas relações comerciais que terão que ser refeitas a partir de agora. Esse protecionismo, defendido com farisaísmo interesseiro pelas nações desenvolvidas, baseia-se numa espécie de egoísmo nacional ou regional: a retórica é de abertura comercial, a prática nega isso. A retórica prega a liberdade, mas a conduta dos governos é de uso de subsídios e de defesa de seus nichos agrícolas ou industriais. Prevaleceram os interesses individuais. Os interesses multilaterais, muitos dos quais haviam avançado nesse planeta de competições acirradas, terão que esperar por novas oportunidades, num futuro de muitas incógnitas. O pano de fundo do final da Rodada Doha coincidiu com o surgimento da crise da produção e do preço dos alimentos, fato que lançou nuvens sombrias sobre uma questão que é fundamental para os avanços sociais planetários e para a erradicação da fome no mundo. A existência de um comércio agrícola injusto, que as fracassadas negociações não conseguiram melhorar, é um elemento que potencialmente pode inibir a produção de alimentos e, portanto, ampliar a crise. Os mais pobres, como ocorre muitas vezes, poderão ser os mais afetados e terão que pagar a maior parte dessa conta. O protecionismo praticado pelos países ricos é que continuará a comandar as relações comerciais