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Cuiabá MT, Quarta-feira, 10 de Junho de 2026

ECONOMIA
Sábado, 22 de Maio de 2010, 14h:24

SOJA - II

Salles, o pioneiro da sojicultura estadual

Cultivo começou sem mercado ao grão, sem tecnologia e sem equipamentos

MARCONDES MACIEL
Da Reportagem
A família Salles, do patriarca Adão Riograndino Mariano Salles – falecido no ano passado - foi a primeira a desenvolver o cultivo da soja em Mato Grosso. Tudo começou em 1971, quando ‘seo’ Adão Salles decidiu se mudar do Paraná para Rondonópolis (210 quilômetros ao sul de Cuiabá) com a esposa Albina Ortollan Salles. Comerciante, ‘seo’ Adão não entendia nada de agricultura. Mas apostou no sonho da prosperidade e da “vida nova” em Mato Grosso, trocando seu pacato comércio no sudoeste paranaense por uma área de terras em pleno cerrado, a fazenda São Carlos, de 9,8 mil hectares, na região de Ponte de Pedra, município localizado a 238 quilômetros ao sul da Capital mato-grossense. “O comércio não vislumbrava grande futuro para nós, por isso começamos a plantar arroz em uma área de 70 hectares”, conta um dos filhos de ‘seo’ Adão, Luiz Salles. “Na época não existiam calcário (corretivo de solo) e fertilizantes (adubos), diferentemente do que é hoje, em que a agricultura dispõe de toda a tecnologia para se desenvolver e aumentar sua produtividade”, acrescenta. Salles relata que o primeiro trator utilizado no plantio de soja no cerrado mato-grossense foi comprado pelo pai. “Mas quando chegou a hora de colher, tivemos de buscar mão-de-obra em outras regiões, pois na época não existia colheitadeira. A primeira que adquirimos foi em Santa Catarina, em 1973”. Dois anos depois do início da empreitada, parentes e amigos do ‘seo’ Adão vieram do Paraná passear em Mato Grosso e trouxeram as primeiras sementes de soja para a lavoura da família já radicada no Estado. (Veja ao lado a expansão da sojicultura no Estado) “Chegaram com duas sacas da variedade Santa Rosa. Fizemos a primeira experiência em uma área de dois hectares e colhemos 30 sacas (média de 15 sacas por hectare). Mas não tínhamos para quem vender e acabávamos dando toda [a soja colhida] para os porcos. Mais tarde, em 1976, chegaram os norte-americanos da região de Rio Verde (GO) trazendo algumas sacas da variedade IAC-2. “Plantamos 25 hectares com calcário e adubos. Chegamos a colher até 30 sacas por hectare, o que já era um grande resultado. Mas a produção era sempre aproveitada como ração para animais e também para multiplicação de sementes. Com o tempo, aumentamos a produção e a soja foi sendo difundida e espalhada para outras regiões, como Rondonópolis, Itiquira e Alto Garças e, depois, para Jaciara, Barra do Garças e Pedra Preta, dando início ao ciclo de produção em escala comercial a partir de 1980”, conta Salles. LUCRO DIMINUÍDO - Odenir Ortolan veio de Chapecó, Santa Catarina (SC) em 1984. Foi direto para a região de Campo Novo do Parecis, localizado a 396 mil quilômetros ao noroeste de Cuiabá. Gostou do clima, da topografia e das terras. Comprou uma área de 240 hectares e decidiu mudar para Mato Grosso em definitivo, plantando soja e colhendo 30 sacas por hectare. Hoje, em uma área de 5 mil hectares, dobrou a produtividade para 60 sacas/hectare. “A soja fixou nossa família em Mato Grosso e hoje trabalho também com outras culturas, como o milho, além da pecuária”, relata o produtor. Ele revela que apesar de estar colhendo o dobro do que colhia há quase 30 anos, a margem de lucro é menor. “Naquela época se ganhava mais dinheiro do que hoje, pois não tínhamos problemas muito sérios com pragas e doenças nas lavouras, como o nematóide e a ferrugem asiática, que consomem grande parte do nosso lucro. Hoje, temos de desembolsar muito mais dinheiro para tratar a lavoura, além disso temos problemas com os bancos e o endividamento do setor é alto. Sou otimista, mas as autoridades devem acordar e buscar saídas para os nossos problemas, como uma política de longo prazo para a agricultura, seguro rural e solução para a logística. Hoje as áreas são maiores, porém as margens de lucro diminuíram”.

Edição EDIÇÃO 16959




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