CIDADES
Sábado, 02 de Junho de 2001, 16h:03
A
A
VIOLÊNCIA
Mãe lembra dia em que filho se drogou
Vizinha de traficantes no Residencial Coxipó, faxineira de 27 anos não pode contar nem com a Polícia
CARLA PIMENTEL
Da Reportagem
Costuma-se dizer que a população está sendo cercada pela violência. A situação de Marluce* serve como um símbolo deste cerco. Faxineira, 27 anos, mora com o marido e três filhos de oito, nove e onze anos em frente a traficantes de drogas no bairro Residencial Coxipó. Nos fundos de sua casa, a atividade dos vizinhos é a mesma. Eu não tenho saída, afirma. Os cenários e personagens que fazem parte do cotidiano de Marluce e sua família são uma superexposição ao mundo das drogas. No caminho até a casa, as crianças geralmente atravessam rodinhas de pessoas entre homens, mulheres e crianças que se drogam ou falam de drogas em variados períodos do dia. Marluce coleciona episódios em que a violência acaba ultrapassando os muros de sua casa. A droga invade os sentidos da família das mais diferentes formas, mesmo que não seja usuária. Meus filhos ficam vendo o pessoal usando no meio da rua, a qualquer hora do dia. E, de noite, é aquele cheiro insuportável, descreve. A proximidade física com o mundo do tráfico já rendeu para Marluce algumas experiências inusitadas. Ela conta que, um dia, recebia a visita de uma amiga quando foi surpreendida por um rapaz de bicicleta, que confundiu sua casa. Ele chegou perguntando se eu vendia chimim. Eu perguntei o que era aquilo, e ele respondeu: É crack, pedra. Então eu falei que não, e pedi para ele procurar lá no vizinho, recorda-se. Eu fiquei com vergonha da minha amiga, porque não sei se ela ficou achando que eu traficava, completa. A invasão das drogas fez com que Marluce murasse a casa no ano passado. Antes disso, ela conta que já chegou a encontrar pacotes de droga jogados em sua porta provavelmente lançados às pressas, durante alguma perseguição policial. Polícia, aliás, é raridade na área onde mora. Viaturas chegam a rondar o bairro, mas sua rua que, acredita, é o foco de tráfico da região é pouco visitada. Marluce calcula que a última visita da Polícia Militar nas proximidades de sua casa aconteceu há cerca de quatro meses. Ligar para 190 é, segundo ela, perda de tempo: Uma vez, tinha muita bagunça e eu liguei para a polícia. Eles estão chegando até hoje... Um ponto intrigante da história é que o mesmo não se pode falar da Polícia Civil. Marluce relata que um grupo de policiais freqüenta a casa de seu vizinho dos fundos, sem jamais efetuar prisões. Eles chegam umas duas vezes por semana e ficam horas por lá. Mas nunca vi levarem ninguém. Chegam e vão embora como se não acontecesse nada, desconfia, confessando-se encurralada: A PM não aparece, e eu não posso pedir ajuda à Polícia Civil, que vive lá, na casa deles. O que eu posso fazer? A cena em que um vizinho foi executado na sua frente jamais sairá da memória de Marluce. Eu testemunhei. No ano passado, os homens chegaram e atiraram nele. Fiquei em estado de choque, afirma. O que mais revolta a moradora é que os homicidas desapareceram por algum tempo, mas já voltaram para o bairro. São os mesmos que estão todos os dias na frente da minha casa, diz. Além da droga, o contato com o universo da violência, da iminência da morte e da impunidade também acaba fazendo parte do dia-a-dia. Se você morreu, morreu. Não tem lei para esta morte, desabafa. Mas o episódio que mais apavorou Marluce foi o dia em que seu filho de nove anos apareceu drogado em casa. Ele saiu e demorou para voltar. Chegou meio vesgo e sem força para segurar nada, para se mexer. Eu falava as coisas e ele não respondia, parecia meio abobado. Perguntei se ele tinha usado droga e ele negava. Só assumiu quando eu ameacei dar uma surra nele, lembra ela. Atualmente, a família vive um outro tormento, com as festas feitas pelas gangues na porta de sua casa. Eles ligam o som na maior altura, ficam ouvindo funk e atirando até lá pela meia-noite. Sobe aquele fedor de maconha e até as crianças reclamam com o tanto que cheira. E se uma bala entrar e pegar nas crianças? Não se vive alegre em um lugar assim, reclama. A solução encontrada por Marluce para enfrentar o mundo que lhe bate à porta é trancar os filhos dentro de casa. As crianças estudam de manhã e passam o resto do dia isoladas no próprio quintal de preferência, dentro da morada de quatro cômodos. Enquanto isso, ela confessa mandar cartas para todos os programas de televisão que prometem dinheiro, casas ou outros prêmios uma solução que poderia, milagrosamente, arrancá-la de sua atual realidade. Os três filhos passam a maior parte do tempo sozinhos em casa. Marluce passa os dias de semana em suas faxinas, enquanto o marido padrasto das crianças geralmente sai durante o dia, em busca de emprego ou desempenhando algum pequeno serviço. A televisão acaba transformando-se na grande companhia das crianças brincar com vizinhos, nem pensar. Eu nunca sei quem são as boas companhias, afirma ela. Para Marluce, o mundo está de cabeça para baixo: Os condenados são meus filhos, que não usam droga. Os que usam estão por aí, soltos pela rua. Se eu soltar os meus, eles também vão para a perdição. O fluxo da natureza é o que mais perturba Marluce. Olhando a filha de 11 anos à beira da adolescência não sabe até que ponto conseguirá mantê-la trancada em casa. Ela imagina que uma escola em regime de internato possa ser a melhor alternativa para a menina. Se não escapar do lugar onde mora, Marluce não enxerga alternativas para o futuro de seus filhos: Vai ter uma hora em que eles vão ver os colegas usando drogas e vão pegar. Quando separei de meu ex-marido, cheguei a ter droga na mão, e pensei em usar. Se eu, como adulta, fiquei com tentação, imagina o que acontece com eles? Uma criança não pensa duas vezes, opina ela, completando: Quando olho meus filhos e enxergo que eles estão crescendo, fico apavorada. Sei que o mundo tem drogas, mas nem sempre assim, tão em cima de você; não a poucos metros de distância. Estou sem saída. *Nome fictício LEIA TAMBÉM #LINK#54513#Crianças que matam e morrem #LINK#54515#Sistema Nacional articula entidades #LINK#54516#Delegada Mara Rúbia diz que função da Deca foi alterada #LINK#54517#Promotoria pediu arquivamento de 700 processos #LINK#54518#Lar da Criança mostra problema #LINK#54519#Jovens infratores voltam a cometer crimes #LINK#54520#Mãe lembra dia em que filho se drogou #LINK#54521#Antes de completar 9 anos, Marcelo usou droga #LINK#54523#Brasil firma acordo mas não consegue cumpri-lo #LINK#54524#Volume de denúncias recebidas pelo SOS Criança aumento 24%