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Cuiabá MT, Quarta-feira, 10 de Junho de 2026

CIDADES
Sábado, 02 de Junho de 2001, 16h:03

VIOLÊNCIA

Mãe lembra dia em que filho se drogou

Vizinha de traficantes no Residencial Coxipó, faxineira de 27 anos não pode contar nem com a Polícia

CARLA PIMENTEL
Da Reportagem
Costuma-se dizer que a população está sendo cercada pela violência. A situação de Marluce* serve como um símbolo deste cerco. Faxineira, 27 anos, mora com o marido e três filhos – de oito, nove e onze anos – em frente a traficantes de drogas no bairro Residencial Coxipó. Nos fundos de sua casa, a atividade dos vizinhos é a mesma. “Eu não tenho saída”, afirma. Os cenários e personagens que fazem parte do cotidiano de Marluce e sua família são uma superexposição ao mundo das drogas. No caminho até a casa, as crianças geralmente atravessam rodinhas de pessoas – entre homens, mulheres e crianças – que se drogam ou falam de drogas em variados períodos do dia. Marluce coleciona episódios em que a violência acaba ultrapassando os muros de sua casa. A droga invade os sentidos da família das mais diferentes formas, mesmo que não seja usuária. “Meus filhos ficam vendo o pessoal usando no meio da rua, a qualquer hora do dia. E, de noite, é aquele cheiro insuportável”, descreve. A proximidade física com o mundo do tráfico já rendeu para Marluce algumas experiências inusitadas. Ela conta que, um dia, recebia a visita de uma amiga quando foi surpreendida por um rapaz de bicicleta, que confundiu sua casa. “Ele chegou perguntando se eu vendia ‘chimim’. Eu perguntei o que era aquilo, e ele respondeu: ‘É crack, pedra’. Então eu falei que não, e pedi para ele procurar lá no vizinho”, recorda-se. “Eu fiquei com vergonha da minha amiga, porque não sei se ela ficou achando que eu traficava”, completa. A invasão das drogas fez com que Marluce murasse a casa no ano passado. Antes disso, ela conta que já chegou a encontrar pacotes de droga jogados em sua porta – provavelmente lançados às pressas, durante alguma perseguição policial. Polícia, aliás, é raridade na área onde mora. Viaturas chegam a rondar o bairro, mas sua rua – que, acredita, é o foco de tráfico da região – é pouco visitada. Marluce calcula que a última visita da Polícia Militar nas proximidades de sua casa aconteceu há cerca de quatro meses. Ligar para 190 é, segundo ela, perda de tempo: “Uma vez, tinha muita bagunça e eu liguei para a polícia. Eles estão chegando até hoje...” Um ponto intrigante da história é que o mesmo não se pode falar da Polícia Civil. Marluce relata que um grupo de policiais freqüenta a casa de seu vizinho dos fundos, sem jamais efetuar prisões. “Eles chegam umas duas vezes por semana e ficam horas por lá. Mas nunca vi levarem ninguém. Chegam e vão embora como se não acontecesse nada”, desconfia, confessando-se encurralada: “A PM não aparece, e eu não posso pedir ajuda à Polícia Civil, que vive lá, na casa deles. O que eu posso fazer?” A cena em que um vizinho foi executado na sua frente jamais sairá da memória de Marluce. “Eu testemunhei. No ano passado, os homens chegaram e atiraram nele. Fiquei em estado de choque”, afirma. O que mais revolta a moradora é que os homicidas desapareceram por algum tempo, mas já voltaram para o bairro. “São os mesmos que estão todos os dias na frente da minha casa”, diz. Além da droga, o contato com o universo da violência, da iminência da morte – e da impunidade – também acaba fazendo parte do dia-a-dia. “Se você morreu, morreu. Não tem lei para esta morte”, desabafa. Mas o episódio que mais apavorou Marluce foi o dia em que seu filho de nove anos apareceu drogado em casa. “Ele saiu e demorou para voltar. Chegou meio vesgo e sem força para segurar nada, para se mexer. Eu falava as coisas e ele não respondia, parecia meio abobado. Perguntei se ele tinha usado droga e ele negava. Só assumiu quando eu ameacei dar uma surra nele”, lembra ela. Atualmente, a família vive um outro tormento, com as “festas” feitas pelas gangues na porta de sua casa. “Eles ligam o som na maior altura, ficam ouvindo funk e atirando até lá pela meia-noite. Sobe aquele fedor de maconha e até as crianças reclamam com o tanto que cheira. E se uma bala entrar e pegar nas crianças? Não se vive alegre em um lugar assim”, reclama. A solução encontrada por Marluce para enfrentar o mundo que lhe bate à porta é trancar os filhos dentro de casa. As crianças estudam de manhã e passam o resto do dia isoladas no próprio quintal – de preferência, dentro da morada de quatro cômodos. Enquanto isso, ela confessa mandar cartas para todos os programas de televisão que prometem dinheiro, casas ou outros prêmios – uma solução que poderia, milagrosamente, arrancá-la de sua atual realidade. Os três filhos passam a maior parte do tempo sozinhos em casa. Marluce passa os dias de semana em suas faxinas, enquanto o marido – padrasto das crianças – geralmente sai durante o dia, em busca de emprego ou desempenhando algum pequeno serviço. A televisão acaba transformando-se na grande companhia das crianças – brincar com vizinhos, nem pensar. “Eu nunca sei quem são as boas companhias”, afirma ela. Para Marluce, o mundo está de cabeça para baixo: “Os condenados são meus filhos, que não usam droga. Os que usam estão por aí, soltos pela rua. Se eu soltar os meus, eles também vão para a perdição”. O fluxo da natureza é o que mais perturba Marluce. Olhando a filha de 11 anos – à beira da adolescência – não sabe até que ponto conseguirá mantê-la trancada em casa. Ela imagina que uma escola em regime de internato possa ser a melhor alternativa para a menina. Se não escapar do lugar onde mora, Marluce não enxerga alternativas para o futuro de seus filhos: “Vai ter uma hora em que eles vão ver os colegas usando drogas e vão pegar. Quando separei de meu ex-marido, cheguei a ter droga na mão, e pensei em usar. Se eu, como adulta, fiquei com tentação, imagina o que acontece com eles? Uma criança não pensa duas vezes”, opina ela, completando: “Quando olho meus filhos e enxergo que eles estão crescendo, fico apavorada. Sei que o mundo tem drogas, mas nem sempre assim, tão em cima de você; não a poucos metros de distância. Estou sem saída”. *Nome fictício LEIA TAMBÉM #LINK#54513#Crianças que matam e morrem #LINK#54515#Sistema Nacional articula entidades #LINK#54516#Delegada Mara Rúbia diz que função da Deca foi alterada #LINK#54517#Promotoria pediu arquivamento de 700 processos #LINK#54518#Lar da Criança mostra problema #LINK#54519#Jovens infratores voltam a cometer crimes #LINK#54520#Mãe lembra dia em que filho se drogou #LINK#54521#Antes de completar 9 anos, Marcelo usou droga #LINK#54523#Brasil firma acordo mas não consegue cumpri-lo #LINK#54524#Volume de denúncias recebidas pelo SOS Criança aumento 24%

Edição EDIÇÃO 16959




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