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CIDADES
Sábado, 19 de Fevereiro de 2011, 13h:44

MORADIA

Casal encontra conforto ainda que habitando sob uma ponte

Na margem várzea-grandense do rio Cuiabá, Júnior e Raquel montaram sua casa e, para aplacar o calor, até de ar-condicionado dispõem no local

DHIEGO MAIA
Da Reportagem
Quem trafega de carro ou caminha sobre a ponte Júlio Müller, que faz a ligação entre Cuiabá e Várzea Grande, nem imagina o que ela esconde. Embaixo dela, na margem várzea-grandense do rio Cuiabá, um casal apaixonado pelo rio construiu uma casa impressionante para os padrões de quem se dispõe a morar nesses locais, geralmente utilizados por moradores de rua. À primeira vista, quem olha do lado de fora da casa, feita de madeira e com piso de cimento queimado, logo imagina que Júnior de França Campos, de 41 anos, e Raquel dos Santos, de 36 anos, vivem em uma situação de extrema penúria. Ledo engano! Encravada no barranco do rio, é dentro da casa que o casal mantém todo o conforto com geladeira, fogão a gás, cama de casal, guarda-roupa, ferro, armário e uma infinidade de outros itens. O calor danado que faz dentro da casa é superado por um aparelho que chama a atenção: um ar-condicionado. Júnior disse que um ventilador não seria suficiente para amenizar a temperatura, já que a casa não tem nenhuma janela e, por isso, foi em busca de um aparelho mais potente. Para manter o ambiente climatizado, ele fechou todas as frestas com espuma. Pescador há 25 anos, Júnior disse que decidiu morar na margem do rio pela profissão e porque gosta de criar animais. Patos, gatos, cachorros e galinhas convivem livremente no “quintal” inusitado da residência. Há alguns anos, até porcos tinham seu espaço. O que mais impressiona é o isolamento acústico da casa. O barulho do vai-e-vem de carros e pedestres se dissipa na parte superior da ponte. Do lado de baixo, se ouve pouca coisa. “Isso acontece porque a casa está localizada debaixo da passarela para pedestres”, explicou o pescador. Um dos desafios do casal é manter uma vida comum. Como estão em um endereço não-reconhecido oficialmente, as contas chegam a um bar de um amigo localizado na avenida Alameda. Entregas de mercadorias é um transtorno transformado pelo casal em histórias bem-humoradas. “Quando compramos o guarda-roupa, o entregador se impressionou com o local onde a gente morava”, disse, em risos, o pescador. Para os afazeres domésticos, Raquel, que também é cozinheira profissional, capta de uma bomba a água que utiliza para lavar a roupa e as vasilhas diretamente do rio. Já para beber, ela compra água mineral. As necessidades fisiológicas e o banho diário são feitos ali mesmo, em pleno rio. Para morar com Júnior na beira do rio ela enfrentou a oposição da família. “Eles não aceitam. Acham que eu sou doida. Na verdade, eu nunca liguei em ter uma situação boa. Viver aqui está bom”, disse. Ela largou uma casa em Várzea Grande que cedeu a uma filha recém-casada para morar à beira do rio com Júnior. Em relação à segurança, o casal nunca passou por nenhuma violência. Eles disseram que certa vez acordaram e não mais viram os patos que criavam. “Nós acreditamos que alguém roubou os nossos patos”, estimou a cozinheira. Mas o problema mesmo vem do alto, com as precipitações. No período chuvoso, o casal acompanha atentamente a elevação no nível do rio Cuiabá. Ano passado, uma cheia obrigou Júnior a erguer às pressas todos os móveis da casa. Até as canoas foram utilizadas para abrigar os bens do casal. “Eu não me preocupo muito com essa situação porque sou pescador e conheço o rio”, definiu. RISCOS – O presidente da Federação dos Pescadores de Mato Grosso, Lindemberg Gomes de Lima, não sabia que um pescador morava debaixo da ponte. Para o representante, o local é inapropriado. “É preocupante a situação. Eles convivem diretamente com toda a contaminação do rio Cuiabá”, salientou. Lima ainda explicou que no passado alguns acampamentos que existiam no local eram de papelão, mas foram desfeitos. “Na verdade, muitas pessoas deixam suas casas para ir morar debaixo da ponte”, apontou Lima. A Defesa Civil de Várzea Grande também desconhecia a existência da moradia improvisada. O órgão disse que vai inspecionar o local para saber como vive o casal. Para o órgão, o local também é inóspito. “A margem pode desbarrancar”, confirmou o comandante do órgão no município, Rodrigo Alonso Lemos. Enquanto a vida do casal é orientada pelo rio, Raquel já tomou conhecimento de que a Copa de 2014 pode mudar a vida deles. “Quando ela chegar quem sabe a gente já conseguiu sair daqui”.

Edição EDIÇÃO 16959




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