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ARTIGO
Quarta-feira, 25 de Julho de 2012, 21h:45

ANTÔNIO PADILHA DE CARVALHO

Strip-tease da Alma

Existem mulheres que se cansam de homens, como se cansam de roupas. Na psicanálise a alma fica nua, como uma prostituta no trabalho de strip-tease, com a diferença de que não existem luzes multicoloridas nem holofotes comumente utilizados nas boates. Poeta não mata, morre de amor. Quem mata não esquece e deseja fazê-lo de maneira sistemática, como a tentar esquecer o primeiro desequilíbrio que o atormenta como dor de dente da alma. Dependendo da situação que atravessamos, achamos a vida uma merda, somos pobres de esperança, pastamos fel, nossa alma rústica é roída por ratos famintos. Gente boa de pontaria apaga a luz de vaga-lumes com um tiro na escuridão das noites. Ninguém canta melhor que os negros, eles cantam com o coração. Existem lugares onde o sobrenatural é sempre natural. Matadores procurados viram pássaro, peixe-espada e até bosta de boi. Meu pai não era matador, mas foi perseguido; nessa oportunidade, virava toco de pau. Acredite se quiser. Contava papai que em certa época o perseguidor acabou picando fumo bravo em sua cabeça achando que era toco. Nem espirou. Se espirrasse, morte na certa! As classes baixas e médias associam a água azul das piscinas ao paraíso burguês. Em que oportunidade o crédito de confiança transforma-se em débito? Os anos vividos não doem no coração, mas nas costas, pernas, joelhos e coluna. Hoje em dia os gays, negros, sem-terra, jovens músicos e poetas alucinados são considerados psicólogos em rebelião, posto que jogam na cara de todos a hipocrisia que vivem no dia-a-dia. Alegar que frequenta bares para fugir de tédio é desconhecer-se totalmente. A cidade que tem maior quantidade de bares funcionando, é a cidade com maior número de óbitos registrados. Assim mostra-nos a Geografia da Saúde e da Violência. Viciados ingerem fel achando ser mel. Vivem no inferno como se fosse céu. Tomam Lexotan com uísque e boiam como se estivessem banhando no mar morto. De onde vem o suor da garrafa de cerveja? Qual é a sua visão de paraíso? Nossas loucuras escondem no coração. Muitos mortos nem sabem que já morreram e têm medo da morte. Mortos não trepam, se estrepam. Não existe suicida consciente. Suicida é doente. A grandeza do Iceberg está justamente na parte invisível aos nossos olhos. Aparências são aparências. Para pessoas sem preconceito, a relação entre sexos iguais é normal. Tudo é grão de areia nesta vida. Teoria não afeta coração. O melhor retrato da nossa sociedade é uma praça com loucos mansos, políticos risonhos, música de Raul Seixas, picolezeiros, vendedores de algodão-doce e pipoca, empregadas domésticas, idosas assanhadas dançando, estudantes de sétima série cheirando a sexo, pombas, cachorros vira-latas e velhos homossexuais usando dentaduras com odor de pobreza. Que praça linda! Ninguém se casa com pessoas ricas impunemente. De amante para açougueira, é um passo. Quando estamos tentados, o Diabo expulsa Deus do nosso coração e aloja-se ali. Não existe nenhuma possibilidade de sustentarmos uma Santíssima Trindade com misturas rudes de Gandhi, Che Guevara e Jesus Cristo. Água se não mistura com óleo. A língua não pode ser levada aos bancos dos réus, uma vez que é instrumento e não causa de crimes. Somente a Geografia tem o grande poder de nos preparar para, através de um simples debruçar na janela, ver um mundo novo. Olhar as casas, as árvores, os veículos, o caminhar das pessoas, os animais, as aeronaves, olhar o tempo, sentir o tempo, fazer parte do tempo, que voa, que escoa, que não para, que corre parado. O tempo é que passa ou nós que passamos pelo tempo? Vivemos um tempo dos novos-ricos buscando aventuras, sorridentes dos milionários falidos. Uma velharada erótica que adora ficar pelada e ser chicoteada por padres tarados. Agora, amar cadela não é mais pecado, é crime. Índio não dispõem mais de mata para se esconder. *ANTÔNIO PADILHA DE CARVALHO é advogado, geógrafo, professor, poeta e escritor [email protected]

Edição EDIÇÃO 16959




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