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Cuiabá MT, Quarta-feira, 10 de Junho de 2026

ARTIGO
Sábado, 27 de Março de 2010, 15h:30

MÁRIO MARQUES DE ALMEIDA

Retrato do momento

Se pesquisa fosse uma ciência cem por cento segura que acertasse ali na batatolina, em cima da bucha, nem Erundina teria sido prefeita de São Paulo e o governador da Bahia hoje seria Paulo Souto (PFL) e não Jacques Wagner (PT). Dentre as muitas “barrigadas”, erros clamorosos (de boa ou má fé, vai lá saber) de renomados institutos de pesquisas, me vem à lembrança agora esses dois casos. O Vox Populi apontou, em 2006, já nas vésperas do pleito a vitória de Paulo Souto (então PFL) no primeiro turno, contra o petista Jaques Wagner, que acabou vencendo as eleições em segundo turno. Para tentar justificar a mancada, um diretor do Vox Populi em entrevista ao jornal Estado de S. Paulo saiu-se com esta pérola em matéria de tirar o corpo fora. "Às vezes você erra. O pessoal (os entrevistados, quis dizer) respondia que queria Paulo Souto, mas já estava pensando em mudar de ideia. Mas eu não estava perguntando para ele se ele queria mudar de ideia", afirmou. Por mais incrível que pareça, foram as palavras dele, acima reproduzidas com as devidas aspas. Desculpa de tão esfarrapada que beira ao cinismo ou a falta de humildade de quem não quer assumir que errou e errou feio. Ora, se meu avô não tivesse morrido de morte morrida, ele estaria vivo! Dá até vontade de dizer já dizendo... No tocante a Erundina, desta feita a “furada” foi patrocinada pelo Ibope (se não me falha a memória) nas eleições de 1988. A divulgação dos números ocorreu no dia da eleição, com trabalho de campo feito no dia anterior, quando o Ibope anunciou Paulo Maluf como o novo prefeito da Capital de São Paulo, mas o resultado muita gente conhece: deu Erundina na cabeça. O fato concreto é que o Ibope deveria ter sido mais cauteloso, ou seja, menos categórico e afirmativo quando colocou nas manchetes da imprensa Maluf como o “novo” prefeito da Capital paulista. Talvez, se não fosse a propagação dessa pesquisa, Erundina que venceu aquele pleito por uma margem apertada de votos, poderia ter obtido uma frente mais expressiva. E se ela, ao contrário, também em função dessa divulgação, tivesse sido derrotada? Quem iria reparar o seu prejuízo político e eleitoral? Não me recordo qual foi a resposta que o Montenegro (dono do Ibope), ou alguém do instituto deu na época. Ou se é mesmo possível responder, provar com argumentos lógicos, claros, que não houve manipulação, sacanagem das grossas com objetivo de influenciar a tendência do eleitorado já previamente detectada pelo Ibope. A suspeita tem razão de ser. Considerando que o “resultado” do Ibope saiu no dia da eleição, o que poderia ser interpretado por um quociente significativo de eleitores, pessoas menos esclarecidas, como se fosse praticamente pesquisa “boca de urna”. Onde, supõe-se, não pode haver margem para erro, principalmente com potencial para mudar o curso da votação que se processava naquela data. Coisa grave, bem típica de republiqueta bananeira, mas não compatível com a democracia brasileira, que então engatinhava e, por isso mesmo, não poderia ser alvejada numa eleição cuja disputa se travava na maior metrópole do país. Agora, neste 2010 estamos novamente em ano eleitoral e de safra gorda para as empresas de pesquisas que exploram o segmento político. Tudo bem, é o trabalho dessas firmas. Mas, diante da inegável influência que essas enquetes exercem sobre a opinião pública, a Justiça Eleitoral, com toda sua fartura de inserções no horário gratuito de rádios e TVs, prestaria um grande serviço à causa democrática se usasse boa parte desse precioso tempo para veicular forte campanha alertando as pessoas para o fato de que pesquisa é apenas o retrato do momento e não um veredicto final. Que só o eleitor pode dar. Além, evidentemente, do rigor na apuração e a punição para erros técnicos ou fraudulentos por ventura cometidos por determinadas pesquisas eleitorais. Mário Marques de Almeida é diretor do site e jornal Página Única. [email protected]

Edição EDIÇÃO 16959




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