Quase sempre as composições originais superam suas versões, mas admito que fico estimulado quando vejo uma canção ser repaginada, reinventada, ressuscitada. No sábado passado fui ao Sesc Arsenal ouvir a Orquestra de Câmara de Mato Grosso e saí extasiado com a versão que fizeram para Adios Nonino, do argentino Astor Pantaleon Piazzolla. O original foi escrito em 1959, quando Piazzolla perdeu seu pai Vicente. A força do original está nos solos do seu bandônion, que na música é a síntese do trágico na vida do argentino. Na versão de nossa orquestra de câmara, as cordas são conduzidas de forma competente pelo jovem maestro Leandro Carvalho. O ponto alto da interpretação é o solo de viola da sueca Nina Kopparhed, que supera em beleza os solos de violino e violoncelo. O concerto de sábado passado foi uma viagem por composições da América do Sul. Começou com o Brasil de Heitor Villa-Lobos e sua Bachianas número 9 não tão famosa como a 2ª e 5ª, o que ajudou na sensação de que o Brasil foi goleado na comparação com as quatro composições de Piazzolla, interpretadas logo em seguida. É impossível comparar compositores tão distintos, como o erudito Villa-Lobos e o popular Piazzolla. Seria mais fácil, para nós, brasileiros, se o programa fosse um embate entre Piazzolla e Tom Jobim, os dois maiores compositores da Argentina e do Brasil, respectivamente, na segunda metade do século XX. Como minha casa é metade argentina e metade brasileira, saí da sala com a sensação que o lado argentino estava mais feliz, com ar de ter tido uma noite vencedora. Além de Adios Nonino, a orquestra tocou de Piazzolla La muerte del Angel, Oblivion do filme Henrique IV com Sophia Loren e Marcello Mastroianni e Lo que vendra, que foi repetida no bis. No programa ainda havia obras de compositores do Paraguai, Equador e Venezuela. Mais importante do que as comparações entre Brasil e Argentina, o que mais me marcou naquela noite foi a felicidade de poder contar em nossa cidade com uma orquestra de câmara que ajuda a enriquecer a nossa vida cultural. O trabalho desta orquestra pública, de difundir e resgatar a música em nosso estado, é algo louvável. Para quem ainda não conhece a nossa orquestra de câmara, hoje ela volta a se apresentar às 20 horas no Sesc Arsenal, com peças de Leos Janacek, Henry Purcell, Ottorino Resphighi, Aron Copland e Claudio Santoro. Será uma ótima oportunidade para apreciar os violinos, violas, celos, contrabaixo e a nossa viola-de-cocho. GUSTAVO OLIVEIRA é diretor de Redação do Diário
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