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ARTIGO
Segunda-feira, 17 de Junho de 2013, 21h:03

CAROLINE RODRIGUES

Parabéns, Antônio Mulato

A comunidade de Mata Cavalo, em Nossa Senhora do Livramento, está em festa. Antônio Mulato, um dos ilustres moradores, está completando 108 anos de vida. Ele nasceu na fazenda que hoje abriga os quilombolas e me contou, no final de 2008, quando fui à casa dele fazer uma entrevista, que todas as vezes em que estava longe da área só pensava em voltar para o sítio. Quando chegamos, ele estava sentado na área, em uma cadeira de balanço. Logo se levantou e me surpreendeu porque eu não esperava tamanha vitalidade de uma pessoa com idade avançada. Pegou um copo americano e ofereceu uma dose. Pensei que seria um licor ou suco, mas me enganei pela segunda vez. Ele foi até um móvel de madeira e serviu uma porção de pinga. Tomou tudo em um único gole. A memória dele é mais potente e eficaz que a de um computador de última geração. Recordou-se do tempo em que era criança e corria pela Fazenda de Dona Ana, proprietária da área. Ele conta que a mulher era sozinha e tinha medo de morrer sem assistência. Então, fez um acordo com os escravos. Eles iriam cuidar dela, mesmo após a abolição, e depois ficariam com a terra. Acordo fechado, cumprido pela fazendeira, mas não respeitado pelos demais proprietários da região. A terra sofreu inúmeras invasões e foi tomada pela violência dos ilegais e resistência dos quilombolas. Já na adolescência, Antônio Mulato foi levado à escola, mas não frequentou as aulas por muito tempo. Para chegar ao local, precisa fazer longas caminhadas e ainda ir uma parte do percurso a cavalo. Nesta época, também saiu de casa e foi prestar serviço em outras fazendas. Ele falou que era tratado como “cachorro”. Os negros tinham que dormir ao relento porque os brancos não queriam ficar sob o mesmo teto que escravos. Diziam que a tintura da pele podia ser transferida. Mulato ainda serviu ao Exército, onde eram dados os serviços domésticos aos negros. Eles, mesmo com a abolição, ainda eram tratados como desrespeito e repreendidos com chicotadas. Fora de Mata Cavalo, Antônio sentia saudade da área, dos amigos, vizinhos e das festas. Ele disse que só sentiu-se tranquilo quando voltou e não mais saiu. Agora, a comunidade monta uma grande festa para ele, que completa 108 anos. O ponto principal da comemoração será o baile. Em 2008, quando o vi, era véspera de festa e ele pediu para eu ficar. Ele queria mais uma companhia para dançar, tendo em vista que as mulheres e moças da região não conseguiam acompanhá-lo. Logo ficavam cansadas. CAROLINE RODRIGUES é editora de Cidades

Edição EDIÇÃO 16959




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