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ARTIGO
Quarta-feira, 26 de Setembro de 2012, 21h:32

ROBERTO BOAVENTURA DA SILVA SÁ

Final de greve

Depois de 127 dias, as assembleias gerais (AGs) dos docentes das universidades federais definiram suspender a mais longa greve já realizada no ensino superior do país. Detalhe: a greve ocorreu contra um governo que se diz ser dos trabalhadores. Ai se não fosse! Durante o período da greve, várias atividades foram realizadas na tentativa de conseguir o necessário diálogo com o governo. Por aqui, até reunião com parlamentares federais foi feita. Tudo em vão. Não conseguimos o diálogo reiteradamente pleiteado. Quando o governo Dilma/PT se dispôs a se sentar à mesa das “negociações” foi apenas para expor e impor sua proposta para a Universidade brasileira. Para isso, contou com a assinatura de alguns docentes subalternos ao PT (no universo político-sindical, conhecidos como pelegos), agrupados numa federação (Proifes) de pouquíssimos professores e sem nenhuma representatividade. Em geral, além de escórias humanas, essa gente ajuda a compor a turma do mais baixo clero da academia. Dessa forma, e com essas “armas” sujas, o governo petista pôs nas mãos do Congresso Nacional um Projeto de Lei (PL) específico que modifica – para pior – o cotidiano das universidades. Nesse PL, tudo é perda; dentre todas elas, a maior é a da Autonomia Universitária. Ela vai ladeira abaixo. Diante desse quadro, e de sua parte, vale lembrar que a maioria do Congresso Nacional está nas mãos do governo de plantão. Ai de nós! Pobre Brasil! O futuro vai-lhe ficando cada vez mais sombrio. Particularmente, avalio a realização da greve como um marco histórico importantíssimo ao país, mesmo sem nenhum ganho em relação à pauta das reivindicações. Por ora, o governo pode cantar a vitória. Mas o Movimento Docente não morreu, como se podia pensar. Por si, a greve provou para nós próprios que ainda somos capazes de alguma resistência num país cada vez mais dominado. Findada a greve, é hora do retorno, tendo a certeza de que fizemos o que foi possível de ser feito. Agora, cada uma das federais deve redefinir calendários de reposição. Todavia, para isso, é comum que a AG dos docentes que dá por encerrada a greve aponte para as instituições a data do retorno das atividades. E por aqui (UFMT) isso foi feito. Deliberou-se democraticamente na AG de 24/09 pp. que o retorno às aulas deveria ocorrer no dia 01/10/2012, dando o devido tempo para o retorno de acadêmicos que não estivessem na cidade, bem como um tempo necessário para que departamentos e institutos discutissem pontos importantes para esse reinício. Incluíam-se nisso sugestões de pontualidades no novo calendário. Todavia, mais uma vez, a Administração Superior da UFMT atropelou tudo. Desconsiderando uma dinâmica histórica na Instituição, antidemocraticamente, antecipou-se e convocou o órgão superior responsável (CONSEPE) para bater o martelo sobre o novo calendário. Nessa batida, foi aprovado pela maioria dos conselheiros, que não tinham deliberação para isso, um calendário que impunha o retorno para o dia 24 pp. Resultado: confusão. Colegas que pouco cultivam o espírito democrático rapidamente trataram de cumprir a ordem, criada sob pressão. Os que ainda apostam na democracia institucional, aliás, cada vez mais ultrajada, estão seguindo a deliberação da AG do Sindicato. Diante do quadro, resumo: o que tem ocorrido no âmbito macro, ou seja, um governo federal demonstrando-se autoritário a cada momento, tem sido reproduzido no âmbito micro. A turma de baixo está levando a sério demais a forma autoritária de governar. Isso pode ser muito perigoso. *ROBERTO BOAVENTURA DA SILVA SÁ - dr. em Jornalismo/USP; prof. de Literatura/UFMT

Edição EDIÇÃO 16959




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