José Serafim de Lima, mas pode me chamar de Zé do Wantuil, seu criado, uai. Assim se apresentou, com voz pausada e cansada, estendendo-me a mão calejada. Nosso encontro foi obra do acaso. Parei num córrego perto de Castelo de Sonho, município de Altamira, para lavar o pára-brisa e Zé do Wantuil surgiu montado numa mula preta acenando com timidez. Respondi puxando prosa. Zé do Wantuil apeou e conversamos por alguns minutos. Alegre por encontrar com quem conversar, contou-me parte de sua história. Era ainda moço, lá pelos 35 anos, com mulher e três filhos pequenos quando deixou o Vale do Jequitinhonha, no norte de Minas, pelo Eldorado que o governo pintava nos grotões do Pará. Jogou tudo que tinha na carroceria de um caminhão fretado, deu adeus à sua terra, ligou a Rural Willys e fez uma viagem sem volta. Nove dias depois, numa ensolarada tarde de agosto de 1976 pisava com felicidade naquele chão preto que era sua janela para vencer na vida mesmo sendo caboclo que nunca esquentou sequer banco de escola primária. Zé do Wantuil investiu na fazenda Belo Horizonte, de 860 alqueires geométricos numa região distante de tudo e de todos, a economia arrancada nos braços no cerrado mineiro, com a certeza que em breve a rodovia Santarém-Cuiabá (como é chamada no Pará a Cuiabá-Santarém), seria pavimentada ao lado de sua cerca de Itaúba. Passou um ano e nada. Dois, 10, 20, 30 anos e a estrada continua empoeira no verão e coberta por atoleiros no inverno amazônico. Para complicar, o governo a abandonou por mais de duas décadas. O tempo passando e ele lá, no batente de segunda a segunda, dando exemplo de competência da porteira pra dentro, mas sem meios de vender o que produz porque no inverno a estrada corta, e no verão o frete engole o preço do arroz, do milho e até da bezerradinha. Enquanto falava, fazia estranhos riscos no chão, e em seguida os desmanchava. A certa altura sua cadela Birosca deitou sobre o lugar onde passava o graveto. Não se importou. Fez cafuné na barriga da vira-lata, e numa expressão tipicamente mineira disse que estava no casco. Falou, falou, depois olhou acabrunhado para um ponto qualquer da mata na fralda de uma serra na linha do horizonte, coçou o queixo e franziu a testa. Disse alguma coisa para animá-lo, pedi licença para tocar a viagem. Levantou-se com certa dificuldade. Aprumou o corpo. Vai com Deus, sô!, despediu-se, montou no mulão bonito e foi pra casa. O vi pelo retrovisor, encurvado. Era a imagem da derrota, está mesmo no casco. EDUARDO GOMES é jornalista
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