Cheguei a Cuiabá numa tarde calorenta do dia 25 de agosto de 1976, vindo de Brasília. Gostaria de comparar aquela Cuiabá com a de hoje que vai sediar jogos da Copa do Mundo de futebol de 2014. A cidade era muito modesta, com pouco mais de 100 mil habitantes. Hoje são 600 mil. Conservava um ar interiorano na aparência urbana. Mesmo no centro, ainda eram comuns as casas geminadas, ao estilo português. Muitas eram de adobe, com suas portas e janelas em aroeira rústica e as calçadas de pedra canga. Havia casas maravilhosas, é verdade. Mas o contraste era evidente. No centro, estacionava-se o carro em qualquer lugar, porque não faltavam vagas. Era bastante comum fazendeiros pararem suas caminhonetes C-14 no meio da rua para conversarem longamente, e alguém atrás esperando a boa vontade, ou até que a venda dos bois se realizasse. Havia um permanente bom humor no ar. Cuiabá sempre foi uma cidade muito bem humorada. Aos poucos a cidade começou a crescer, aquelas casas geminadas foram desaparecendo e os moradores foram para bairros como CPA e outros, e os de classe média para bairros residenciais fora do centro. Mais tarde mudaram-se para apartamentos quando os filhos cresceram. Hoje estão preferindo os condomínios. Lá se encontram os antigos e os seus descendentes. O jeito de falar era mais carregado no sotaque. Também mudou. Mas as famílias tradicionais viram os seus filhos se casarem e mudar a eugenia. O frenesi da época multiplicou-se no espírito festeiro tradicional. Esta cidade pequena dos anos 70, simpática, calorenta e calorosa, vai sediar jogos da Copa do Mundo. Melhor de tudo é que terá vencido sua eterna rival, Campo Grande, depois de arengas e mais arengas de quase um século de divergências de todas as espécies. A Cuiabá que vai se preparar para a Copa vai com garra. Será transformada e se globalizará definitivamente, ainda que isso possa mudar a sua personalidade física. Mas como já sobreviveu a outras passagens, sobreviverá a mais essa e deixará o seu DNA. Afinal, o jeito hospitaleiro, a facilidade de comunicação dos habitantes, a sempre presente certeza de que existe um futuro promissor, farão da Copa um evento de transformações com ganhos imensos. Ruas, avenidas, vias de escoamento de tráfego, estádios, complexos esportivos, melhores restaurantes e hotéis, um aeroporto decente, etc.etc. Nesses quase 33 anos, nunca deixei de avaliar as mudanças e as transformações que a cidade tem sofrido. É um prédio que surge no lugar de uma antiga vila de casas, é uma rua nova na pequena chácara, é um prédio no lugar da casa de alguém tradicional, são ares de modernidade. A própria visão aérea da cidade pontilhada de prédios, a opulência do trânsito com suas caminhonetes de luxos às centenas, revelam que a riqueza do estado converge mesmo para Cuiabá. Por tudo isso, não me canso de pensar no que virá ao longo desses cinco anos até a Copa de 2014, e depois. Terá sido um salto de século em alguns anos. O melhor, contudo, terá sido testemunhar tudo isso! * ONOFRE RIBEIRO é jornalista em Mato Grosso
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