ARTIGO
Terça-feira, 11 de Setembro de 2012, 21h:22
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ROBERTO BOAVENTURA DA SILVA SÁ
Atravessando a greve
O título deste artigo parafraseia a expressão atravessando o samba, que é empregada quando os instrumentos não estão em harmonia; quando uns estão mais acelerados e outros mais lentos. Metaforicamente, essa desarmonia pode dentre outras indicar a incidência de traição (política) em curso. E é disso que trato hoje. Como é sabido, universidades e institutos federais estão em greve desde 17/05. Durante esse tempo, o governo Dilma/PT jogou pesado contra os professores. No dia 31/08, sem dialogar com o ANDES (Sindicato Nacional), enviou ao Congresso um Projeto de Lei, que foi endossado por uma Federação de Professores (Proifes), formada por docentes subalternos ao governo. O Proifes não tem reconhecimento da maioria. Nesse tempo, o governo veiculou pela mídia e seus agentes, principalmente reitores, uma das maiores inverdades: de que a categoria havia recebido de 20 a 40% de aumento salarial, a serem pagos em três anos (até 2015). Na verdade, descontando inflações do período, não mais do que 10% (na UFMT seriam nove colegas) teriam de fato ganho real, mas não mais do que 13%, ao final dos três anos. Os demais, inclusive este que vos escreve, terão perdas salariais! Portanto, convido a olharem os índices realmente oferecidos que são variados, conforme titulação e tempo de serviço e fazer os descontos das inflações já passadas e das vindouras do período em questão. Dá trabalho, mas só assim se desmente o governo. Mas nossa greve não é só por recuperação salarial. Lutamos com bravura nunca antes vista em tempos de Estado de Direito pela Autonomia Universitária e por melhores condições de trabalho. Nossa proposta de Carreira, desconsiderada pelo governo, centra-se numa universidade realmente pública, gratuita, laica, de qualidade e socialmente referenciada. Estamos recusando a ditadura do mercado. Assim, tentei resumir o panorama de nossa luta. Nesse cenário, é possível identificar sujeitos em campos antagônicos. De um lado, os docentes sindicalizados no ANDES (Sindicato Nacional) e de outro, o governo e seus capachos. No entanto, essa dicotomia nem sempre é tão simples. Do lado do governo, há governistas (raros e de limitada influência política) sensíveis a nossa causa. Em contrapartida, do nosso lado, e ao nosso lado, há os hoplias sp., da família Erythrinidae. Traduzindo: a traíra, que é um peixe desprovido de nadadeira adiposa, do qual se deve ter cuidado ao manipulá-lo, pois pode morder, causando dor e intenso sangramento. Na piscicultura é indesejável, pois se alimenta de alevinos e peixes jovens de outras espécies. A traíra prefere a sombra/escuridão à luz. Metaforicamente, o traíra é o indivíduo que age nas sombras, sorrateiramente, delatando ou prejudicando seus colegas. Pois bem. Finalizo este artigo, sem comentários, reproduzindo a Nota de Repúdio que o Comando Local de Greve apresentou à diretoria da Adufmat (Sindicato dos Professores da UFMT): A Assembleia Geral da ADUFMAT-Seção Sindical/ANDES, realizada no dia 5 de setembro de 2012, REPUDIA, veementemente, a DIRETORIA da ADUFMAT-Seção Sindical/ANDES-SN pelo COMUNICADO DA DIRETORIA aos docentes em 5 de setembro de 2012, postado via e-mail, às 15:03. A Diretoria exorbita poderes e desrespeita instâncias de debate e deliberação da greve com a finalidade de enfraquecer o movimento docente em luta na defesa da universidade pública brasileira. Diante disso, a categoria solicita da Diretoria esclarecimentos em assembleia específica sobre o ato praticado, marcada para o dia 17/09/2012, às 9h. A greve continua... *ROBERTO BOAVENTURA DA SILVA SÁ - Dr. Jornalismo/USP; Prof. Literatura/UFMT