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Cuiabá MT, Quarta-feira, 10 de Junho de 2026

ARTIGO
Quinta-feira, 08 de Maio de 2008, 21h:13

SÉRGIO CINTRA

Às mães sem filhos...

E por que todos filhos dirão louvores às mães, dirigir-lhes-ão olhares mais demorados e mais ternos, distribuirão rosas e presentes e, os menos aquinhoados pela ventura, perder-se-ão em longos abraços e beijos eivados de carinho; é que canto a mãe sem filhos, aquela que viu seu rebento perder-se no tempo e na memória dos homens. Todavia, é como se o coração do ausente batesse suavemente no peito dessa mãe de olhos lassos. Vive em lágrimas como se fosse ela quem perpetrara o crime de viver quando o fruto de seu ventre expirou. Os parcos sorrisos fortuitos parecem-lhe proibitivos, denotando a culpa pelo infortúnio que não brotara dela. De cansada, deixa os lamentos só para si e todos dias lembra-se daquele que partiu inadvertidamente sem, ao menos, uma palavra de adeus. As agruras do hoje são recebidas com indiferença (nada pode causar-lhe dor maior). Tem sempre o olhar nos filhos de outras mães como se buscasse neles um pouco daquele que fora seu e o destino lhe tirou. Teima sempre em continuar olhando a fotografia do inexistente como se o seu olhar tivesse o dom de dar vida ao retrato. Ouve, vez enquanto, pelos cantos da casa, um “mamãe” e, apressada, corre ao encontro do nada. Pressente que a porta abrirá a qualquer instante, ela abre os braços instintivamente para receber o que jamais virá... (agora ela sabe que lhe mentiram quando disseram que a maior dor que há é a do parto). Guarda, mesmo às escondidas, algumas peças de roupa e se flagra abraçada à camisa dele ou arrumando aquelas roupas como se ele ainda as fosse usar. O quarto continua intocado, está como ele o deixara sendo possível, para ela, quase sentir o perfume que ficou para sempre perdido no ar... Uma Pietá, não a de Michelangelo; porém, encerrando a mesma dor e uma única paixão. Sua resignação é aparente, se se olhar bem nos olhos dela, ver-se-á um lampejo de não aceitação digna. Já não maldiz mais Deus; contudo, nunca aceitará o seu desígnio. Ao contemplar a escultura com o Cristo no colo, sente um pouco de inveja porque o seu regaço nunca mais servirá de conforto para o seu cristo... Em que pese seus dias doridos e tristes, há uns piores: o do nascimento, o da partida e o das mães. Entretanto, nada comparado ao último. Aquele em que ela receberia as dádivas, os galanteios e os elogios mais profundos. O início de maio é imenso. Os dias não passam e ela apenas vislumbra o segundo domingo que virá. O domingo mais feio de toda a eternidade. O domingo que ela não gostaria de esperar. Bom que do sábado brotasse a segunda-feira... Mãe sem filhos, receba, deste menino velho, um tanto de carinho e as flores do filho que brinca em seus sonhos... * SÉRGIO CINTRA é professor em Cuiabá e Várzea Grande [email protected]

Edição EDIÇÃO 16959




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