NA HORA
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ARTIGO
Segunda-feira, 07 de Junho de 2004, 21h:18

LUCIANA GIRADELO

Aos tímidos

Esse espaço de hoje eu dedico aos tímidos que, assim como eu, buscam artifícios para expressar seus sentimentos. Pra variar, a idéia surgiu a partir de experiência própria... e hilária. E foi quando eu descobri que as coisas ficam muito mais fáceis e a situação bem menos constrangedora quando você fecha bem os olhos. Vamos imaginar. É como se você estivesse numa boate, numa festa country, ou mesmo no pagodinho do bairro. Você está lá, sem graça, desenturmado (a), todo enferrujado (a), aquelas mulheres lindas com seus parceiros fortões, que as jogam de um lado pro outro e todos parecem flutuar. Enquanto você fica encostado (idem) na parede e, no máximo, mexe os dedinhos, como os paulistanos dançando marchinhas nos camarotes na Marquês de Sapucaí. Não que você não goste do ritmo, da banda, das músicas, muito pelo contrário. A vontade que dá é aproveitar a festa até o amanhecer, rebolar os quadris, mostrar que você também está em forma, ou pelo menos pensa que sim, mas... você acha que sua roupa não combina com o ambiente, que o perfume ou o batom está muito forte para a ocasião, que os acessórios são bregas, que todo mundo percebeu que o sapato é emprestado. Além disso, você nem sabe dançar como os outros, vão dizer que você é “perna-de-pau”, ou que você só aprendeu a dançar valsa com a sua avó na sala de casa e com as cortinas fechadas. E você fica o tempo todo incomodado, receoso, neurótico. A troco de quê, nem você mesmo sabe. O mesmo acontece no emprego novo. Torce para ter uma entrada paralela à principal, que dê bem pertinho da sua mesa e evita fazer qualquer barulho, muito menos comentário. Vai que você fala alguma baboseira. E ainda que ninguém nem tenha notado sua presença, você pensa que está sendo o centro das atenções. Voltando à música, ao ritmo, experimente fechar os olhos e se libertar. Pense que você também pode flutuar, que os seus passos vão se tornar a coreografia da festa, ou então, não pense em nada, interprete as letras, pense que você é sensação do momento, como a Maria Rita, e viva. Como se você estivesse em casa. Afinal, em casa ou junto de seus amigos, você é um palhaço, conta as piadinhas mais sem graça, canta no banheiro, faz caras e bocas em frente ao espelho e até sonha em ser artista. E é nesse momento que você revela quem realmente é e gosta de ser. Pra quê tanta encucação? Ah, sobre a experiência que me levou a pensar sobre a timidez, ih, eu tenho vergonha de contar. Luciana Giradelo é jornalista ([email protected])

Edição EDIÇÃO 16959




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