ILUSTRADO
Segunda-feira, 17 de Janeiro de 2011, 20h:50
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CRÍTICA
Show de Miss Winehouse deixou a desejar
Há três anos, ela fazia shows desse tipo com entrega e visceralidade. No sábado, ela cumpriu a agenda, mostrando desinteresse no sentido dos versos que cantava
Jotabê Medeiros
Agência Estado
As pessoas parecem ir até Amy Winehouse com dois tipos de atitude preventiva: a primeira, a de fazer sua defesa incondicional, irrestrita, e acusando seus detratores de caretice, de querer o aniquilamento de Amy por "inveja"; a segunda, é a atitude de chegar com uma opinião premeditada, com a intenção de destroçar o hype, a idolatria, reduzir tudo a uma condição mais terrena. Há também os que mantém uma perene desconfiança: o coté "pé na jaca" de Amy é falsificado ou é de verdade? E se for falsificado? Diminui a importância dela? Se ela morresse no palco seria mais divertido? Ao finalmente se apresentar para os paulistas, no palco do Anhembi, fungando e limpando o nariz sistematicamente, Amy manteve o mistério: nenhuma das atitudes acima teve sucesso após 1h12 de show. Suas tatuagens parecem grafites em muros demolidos, mas as corridinhas pelo palco com as pernas bambas e a doçura com os músicos mostravam um "monstrinho" comportado, uma personalidade leal por trás do mito. Afora umas blagues com o baixista e o vocalista Zalon, miss Winehouse foi toda simpatia e correção. A voz é que é um mistério - quando ela quer, ela mostra potência, cantando a 50 cm do microfone com competência. Mas aí há as falhas e a imprecisão e ela "atravessa" algumas vezes também. Poderíamos defendê-la dizendo que Amy, como Billie ou Nina Simone, incorpora a "sujeira" no canto, mas Cat Power também (e sua voz não desaparece nem esquece as letras). Muitos leem as entrevistas de Amy freneticamente, sempre esperando que a diva diga algo inteligente, mas ela nunca pareceu ter a mínima ideia do porque canta o que canta da forma que canta - tal qual um Garrincha do pop. Desde que surgiu, o fenômeno Amy embute uma questão fashion, outra questão comportamental, outra questão estética. A questão fashion, a salada retrô, já tem mais de 5 anos de existência e parece ter se exaurido. O topetão cansou e não se reciclou. Já a questão comportamental segue forte: Amy sugere, em especial às garotas, que é sempre possível endurecer sem perder a ternura (You Know Im No Good), que é possível ser feliz vivendo com intensidade. "Nunca é seguro para nós, nem mesmo de noite, porque eu tenho andado bebendo", diz o verso da canção que abriu o show, Just Friends. Já esteticamente, o estilo é mais uma reverência britânica ao som roots norte-americano de dor de cotovelo, de Etta James, Nina Simone e Aretha Franklin (e, claro, aos grupos de garotas negras dos anos 1950/60). Usa bem beats clássicos de R&B, como os dos Specials, e envenena baladas com uma ética moderna. Amy é também uma estratégia de antiglamour que bebe na fonte do glamour. Ao encampar em seu repertório canções como o tango Boulevard of Broken Dreams, de 1934 (composta para o espetáculo Moulin Rouge, e que ficou conhecida como Gigolo e Gigolette), ou o rocknroll Stagger Lee (de Lloyd Price, dos anos 50), Amy embaralha os tempos, as referências. Daí ela vem com sua própria versão underground para o glamour - é o que acontece, por exemplo, em Outside Looking In. O show de Amy no Anhembi não foi bom, sejamos francos. Não é por ser em arena, em espaço amplo - há três anos, ela fazia esses shows com entrega e visceralidade. No sábado, ela cumpriu a agenda, demonstrando não estar nem um pouco interessada no sentido dos versos que cantava. De vez em quando, era apenas gasguita em sua indolência. Talvez volte a ser o que já foi, mas não foi dessa vez.