ILUSTRADO
Segunda-feira, 01 de Março de 2010, 22h:08
A
A
Reinado de Momo
Confete! Pedacinho colorido de saudade/ Ai, ai, ai, ai/ Ao te ver na fantasia que usei/ Confete, confesso que chorei! Essa letra me fôra evocada ao visitar a exposição Poesia de Carnaval, no Museu Histórico de Mato Grosso - ao lado dos Correios, no Centro da cidade -, idealizada por Antônio Sodré, com o apoio da Secretaria de Cultura Estadual. Nessa mostragem, pudemos ler as poesias, assim como observar as imagens em fotografias preto e branco. O Carnaval que vivi era animado por marcha, com letras curtas, fáceis de memorizar, porque sempre tinha a ver com o assunto atual. - faltava água no Rio de Janeiro, o poeta escrevia: Lata dágua na cabeça/ Lá vai Maria/ Lá vai Maria/ Sobe o morro e não se cansa/ Pela mão leva a criança/ Lá vai Maria/... - alguém que havia conquistado moça jovem, se inspirou: Ai, ai, brotinho/ Não cresça, meu brotinho/ Nem murche como a flor/ Ai, ai, brotinho/ Eu sou um galho velho/ Mas eu quero o seu amor/... - o cantor Jorge Goulart que namorava a trintona Nora Ney, defendeu: Não quero broto/ Não quero, não quero, não!/ Não sou garoto pra viver só de ilusão/ Sete dias na semana/ Eu preciso ver? Minha balzaquiana/... - outro compositor vai buscar personagem da antiga comédia italiana, quando escreve: Tanto riso, ai, tanta alegria/ Mais de mil palhaços no salão/ Arlequim está chorando/ Pelo amor de Colombina/ No meio da multidão/... - agora, o assunto é raça: Branca é branca/ Preta é preta/ Mas a mulata é a tal/ É a tal?/ Quando ela passa todo mundo grita/ Estou aí, nessa marmita/ Quando ela bole os seus quadris/ Eu bato palmas/ E peço bis/ Oh! mulata, cor de canela/ Salve, salve, salve, ela!/... - para chamar atenção do beberrão: Você pensa que cachaça é água/ Cachaça não é água, não/ Cachaça vem do alambique/ E água vem do ribeirão/... - com saudade das retretas, o poeta se inspirou: Todo domingo, havia banda/ No coreto do jardim/ Vindo de longe, a gente ouvia/ A tuba do Serafim/ Porém, um dia/ Entrou um gato/ Na tuba do Serafim/ E o resultado/ Dessa melodia/ Foi que a tuba tocou assim:/ Pum, pum, pum, miau/ Pum, pum, pum/... - despertando a atenção dos jogadores: Estava jogando sinuca/ Uma nega maluca me apareceu/ Vinha com o filho no colo/ E dizia pro povo/ Que o filho era meu/... - a florista também inspirou compositor: Oh! jardineira, por que estás tão triste?/ O que foi que te aconteceu?/ Foi a camélia que caiu do galho/ Deu dois suspiros/ E depois morreu/... - do norte de África vem a inspiração: Ala-la-ô, ôôô, ôôô/ Mais que calor, ôôô, ôôô/ Atavessamos o deserto de Saara/ O sol estava quente/ E queimou a nossa cara/ Ala-la-ô ôôô, ôôô/... - a cantora Emilinha Borba, animava: Chiquita bacana, lá da Martinica/ Se veste com uma casca de banana nanica/... - Dalva de Oliveira que brigava com o marido Herivelto Martins, desistia da desavença com o marido, cantando: Bandeira branca, amor/ Não posso mais/ Pela saudade que me invade/ Eu peço Paz/... - o Rio de Janeiro, como capital do país, era exaltado: Cidade maravilhosa/ Cheia de encantos mil/ Cidade maravilhosa/ Coração do meu Brasil/... Hoje, o coração é Brasília, como Distrito Federal. - desta feita, a inspiração vinha da Espanha: Espanhola/ Eu queo, quero, quero ver você sambar/ Joga fora a castanhola/ Que eu lhe dou um pandeiro pra brincar/... - Guardo, ainda, bem guardada a serpentina/ Que ela jogou/ Ela era uma linda Colombina? E, eu, um pobre Pierrot/... Todas essas marchas carnavalescas, ouvíamos no rádio, transmitidas pela Rádio Nacional, nosso meio de comunicação. Além das músicas, não podiam faltar: fantasias, confetes, serpentinas e o lança-perfume, recipiente cilíndrico, com éter perfumado, que se lança em jacto, especialmente pelo Carnaval. Os clubes que freqüentei: Náutico, Dom Bosco e o Feminino, dos quais tenho saudosas lembranças. E o baile de máscaras do Grande Hotel de Mato Grosso? (prédio onde se instalou a Secretaria de estado de Cultura). Não se tratava de bloco de sujos, mas de pessoas muito bem fantasiadas que animavam os salões do Grande Hotel. Os palhaços costumam dizer que, com a máscara, você consegue ser mais franco; sem ela, temos outra, a máscara social. Os animados corsos, os cordões, têm cheiro de saudade... A rádio A Voz DOeste incentivou compositores locais e o Hélio concorreu, mas como sua música não era propagada, ele se irritou e fez uma outra: Quer tocar, toca/ Não quer, não toca/ Não sou de lero-lero/ Nem tampouco de potoca/... Outro debochado entrou na disputa, com a marchinha: Eu mato, eu mato/ Quem roubou minha cueca/ Pra fazer pano de prato/... O que não gosto: música de samba-enredo, pois, nem sempre, a melodia agrada e o povo não acompanha a letra, pela extensão da história; daí porque as composições antigas se repetem a todo ano. Particularmente, sou fã do Carnaval; basta dizer que, durante 3 dias, podemos ser: rei, rainha, princesa, odalisca, pirata, muçulmano, tirolês, arlequim, pierrot, colombina e outras reinações; E tudo pra acabar na quarta-feira/... Nilza Queiroz Freire Cadeira 14