Há dias rebeldes que deveriam ser escrito com tinta transparente. Infelizmente, nesses momentos os pincéis mágicos não funcionam. É um pedaço de tempo que chega para cutucar com vara curta a paciência do vivente. Cada segundo é um pedaço de ilusão. Não basta saltar da cama lá pelo rabicho da aurora disposto a ser feliz. O dia rebelde quando nasce para bagunçar o leilão de sonhos do freguês não tem quem muda. Não há antídoto contra dia traiçoeiro. Pra começar o sol empaca atrás das nuvens que não há cristão capaz de lhe polir a fuça e dar novo brilho. Sopitado, o tempo abafado libera um vapor medonho que suga o sossego e leva o infeliz a desandar numa palpitação que não há paz que de jeito. Dali a pouco a vida resolve atolar em tristeza que nada que se faz dá concerto. O dia começa fustigado em assombração e ameaça de chuva que nunca vem. Qualquer brincadeira vira uma ventania sem graça que só serve para levantar a poeira. Isso engasga a boca do mato e daí a pouco começa um vendaval sem fim e está formada a arruaça. A ventania vem dançando com as folhas secas e fazendo canudos de vento que levanta acampamento da calma e da razão. A cidade fica cinzenta e repleta de fuligens amarga. Esse tipo de dia é pirracento. É um dia sem vantagem alguma. Se o infeliz insistir em colocar a fuça na rua vem de lá todo cromado de poeira e com duas ou três horas de tosse gratuita. É danado para empenar a saúde e obrigar o infeliz a receber a visita dos amigos na horizontal. Dia desses entrei numa contenda de desafiar um período acabrunhado desse tanto. Minha valentia redeu três horas de banho de cheiro e uma semana de escalda pés. O que me valeu foi o xarope da mamãe. Depois disso passei a olhar esse tipo de dia com mais respeito. Dá pra notar que nem o tempo suporta tanto desatino. Basta ver que quando a traquinagem vai além do que deveria o tempo desanda a chorar uma chuva de molhar bobo que leva o resto da vida em banho maria. Tenho cá os meus palpites muito bem articulados que alguns dias são belos, outros são apenas para serem vividos. Alguns dias provocam sorrisos, outros instigam as lágrimas. Porém, os dias para a minha pessoa foram feitos na medida certa do amor. Nem adianta fazer cara feia. Luís Gonçalves é publicitário, escritor e colabora com o DC Ilustrado (
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