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Cuiabá MT, Sexta-feira, 12 de Junho de 2026

ILUSTRADO
Sexta-feira, 12 de Junho de 2026, 16h:06

TEATRO

A fé de Aderbal Freire-Filho era um diálogo sem regras ou leis, diz Marieta Severo

MARCELLA FRANCO
Da Folhapress - São Paulo
Retrato do diretor de teatro Aderbal Freire Filho,

 Em um artigo, certa feita, Aderbal Freire-Filho citou uma frase de Millôr Fernandes para falar sobre as críticas teatrais na imprensa brasileira. "Qual dói mais, a coluna vertebral ou a coluna do jornal?", concordavam os dois, ambos escritores, dramaturgos, tradutores.

Aderbal, morto aos 82 anos em agosto de 2023, tinha o que sua viúva, Marieta Severo, define como "um embate muito concreto" diante da atitude de alguns críticos, em especial a implacável Barbara Heliodora. "Não é que ele quisesse só aplausos. Ele queria um diálogo sem pressupostos, sem regras e leis. Essa era a fé absoluta dele, sua proposta de vida, era o que ele queria exercer", afirma a atriz.

Agora, essas reflexões estão reunidas em "Teatro Aberto: Escritos de um Diretor", lançado em abril pela editora Cobogó. Trata-se de um compilado de mais de três décadas de reflexões de Aderbal Freire-Filho sobre teatro, política e criação artística, organizadas em cinco capítulos por Patrick Pessoa, filósofo, dramaturgo e crítico carioca.

O projeto teve início a partir de uma carta encontrada por Marieta no antigo apartamento de Aderbal, no Rio de Janeiro. Escrita e assinada por ele, endereçada a ela, mas nunca enviada, a correspondência sobrou em um desvão. Na época, Aderbal dormia, inconsciente, depois de um AVC, na UTI montada especialmente pela mulher no apartamento dela.

"Em maio de 2021, vou fazer 80 anos. Se estiver vivo, claro", projeta Aderbal na primeira página –o AVC aconteceria cerca de dois anos depois, pelas estimativas de Marieta. Ele segue, dizendo que sonha "escrever muito, desordenadamente", e depois juntar tudo que produziu.

"Quando encontrei essa carta, guardei e não tive coragem de mostrá-la a ninguém", diz a atriz. "Depois, o trecho em que ele dizia querer contratar alguém para reunir seus textos espalhados por aí ficou martelando em mim. Era uma direção dele, e eu obedeci. Não sei por que ele escreveu e não me entregou. Ele tinha dificuldade de tocar nesses assuntos, uma dificuldade bem masculina", afirma. A carta está na íntegra no livro.

Pessoa comenta que levou dois anos no processo de criação da obra. Marieta o recrutou no início de 2024. Os dois contrataram a pesquisadora Ana Paula Dantas para levantar tudo que Aderbal um dia assinara —prefácios, posfácios, orelhas, artigos, programas, entrevistas transcritas—, e, com os textos em mãos, ele deu início à curadoria.

Estão lá outras coisas íntimas e ricas, entre elas uma troca de emails com José Celso Martinez Corrêa ao convidá-lo para uma residência artística no Teatro Poeira, idealizado por Marieta e a atriz Andréa Beltrão e fundado em 2005 no Rio de Janeiro. Aderbal também propõe políticas teatrais e mergulha em dramaturgias alheias e em sua própria, da qual faz parte um "Hamlet" idealizado por Wagner Moura, com que lotou teatros em 2008.

"Aderbal foi um mestre da admiração, a pessoa com mais capacidade de admirar o que outros artistas criam. Ele tinha uma urgência de incluir outras pessoas nesse encantamento pela vida, e a necessidade de criar condições políticas para que a arte não seja um produto de luxo, mas para que ela esteja entranhada no tecido mais cotidiano da nossa existência", diz Pessoa.

Aderbal Freire-Filho foi um dos fundadores do curso de direção teatral na Universidade Federal do Rio de Janeiro, a UFRJ, um dos primeiros no Brasil, e participou ativamente da construção da SP Escola de Teatro, em São Paulo.

Dirigiu dezenas de peças, entre elas "A Mulher Carioca aos 22 Anos" (1990), de João de Minas, "Apareceu a Margarida" (1973), protagonizada por Marília Pêra, "O que Diz Molero" (2003), adaptada da obra de Dinis Machado, "O Púcaro Búlgaro" (2006), de Campos de Carvalho, "As Centenárias" (2007), de Newton Moreno, "Moby Dick" (2013), e "Incêndios" (2013), com Marieta Severo, pela qual recebeu o Prêmio Shell de melhor diretor.

O livro também apresenta detalhadamente o conceito do "romance em cena", linguagem criada por Aderbal no início dos anos 1990 para levar romances ao palco, sem transformá-los em peças tradicionais, mantendo a narração inclusive em trechos longos. Para tanto, os atores alternavam entre personagens e narrador, por vezes descrevendo as ações enquanto as executavam.

"Isso nasce da paixão dele pela literatura", avalia Pessoa. "O Aderbal é capaz de teorizar sobre as coisas mais complexas com muita leveza, com muito humor", afirma Marieta. "Por mais que tenha teorias de teatro, ele quer muito compartilhá-las com todos os públicos. Fala de maneira leve e bem-humorada de questões da cena que talvez você nunca tenha pensado, o que te faz ver os espetáculos de maneira mais rica, com outras compreensões."

Marieta lembra ainda que, junto do lançamento de "Teatro Aberto: Escritos de um Diretor", também foi ao ar um site —aderbalfreirefilho.com.br— com toda a obra do dramaturgo. "Tem um pessoal jovem que talvez não leia o livro, e eu queria que qualquer pessoa tivesse acesso às ideias dele. E sempre linkando com essa consciência de preservação de memória, que é muito falha no país. Tem um significado grande para mim essa pequena pedra que estou colocando na cultura teatral do Brasil."

Teatro Aberto: Escritos de um Diretor

Preço R$ 128 (424 págs.)

Autoria Aderbal Freire-Filho

Editora Cobogó

Organização Patrick Pessoa


Edição EDIÇÃO 16961




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