"Quem Ama Cuida", a nova novela das nove da Globo, tem investido pesado para engajar o espectador em suas primeiras semanas. Não tem sido poucas as cenas de festas, jantares, anúncio de noivado e casamento que reúnem quase todo o elenco num mesmo take.
Às vezes dá vontade de tomar um Plasil, porque a câmera gira sem parar para abarcar os muitos convidados na sala do milionário Artur (Antonio Fagundes). Nesta quarta (3), Artur sai de cena e começa o tradicional "quem matou". O mistério vai servir de prova dos nove para o engajamento do público.
Nesses primeiros capítulos, a novela de Walcyr Carrasco e Claudia Souto já mostrou suas forças e fraquezas. A mocinha Adriana (Leticia Colin) sofre um grande risco perante o público mais conservador: ela aceitou um casamento por amizade, e não por amor. Mesmo que diga que não quer o dinheiro de Artur, vai herdar toda sua fortuna.
Me lembrei da Márcia (Malu Mader) de "O Dono do Mundo" (1991), que foi seduzida pelo poderoso Felipe Barreto (Fagundes) e acabou cedendo às suas investidas bem no dia da sua noite de núpcias. O público, em vez de vê-la como vítima, condenou-a pelo mau passo fora do casamento.
Mas Adriana não parece sofrer esse risco. A cuidadora já sofreu o pão que dez diabos amassaram nos primeiros capítulos. Perdeu a casa e o marido numa enchente e sua mãe está muito doente. Sabiamente, recusou um vestido de noiva (símbolo do amor) em troca de um traje mais sóbrio, já que sua união não envolve sexo.
Agora, antes que desfrute da riqueza do marido, já vai se tornar viúva, e será presa e condenada por um crime que não cometeu. Tudo isso está bem construído, e o público deve comprar de bom grado. O talento de Leticia Colin também ajuda.
Só falta o tapa-olho
Mas existe um lado mexicano na trama que deixa a desejar. A maior parte dos personagens não parece ter densidade própria e se abriga dentro do mesmo guarda-chuva: a família gananciosa e interesseira de Artur. Nenhum deles mostra a mínima sutileza na hora de parasitar a fortuna do patriarca. Nesse ponto, "Quem Ama Cuida" nos lembra as novelas mexicanas que costumamos assistir no SBT desde os anos 90.
Até Carmita (Deborah Evelyn), que descobrimos outro dia ter sido namorada de Artur no passado, apareceu do nada outro dia na joalheria para dar em cima dele às vésperas do casamento com Adriana, sem nenhuma sutileza. É claro que não colou.
Isabel Teixeira é uma atriz de mão cheia e tira o máximo da intensidade em todas as suas cenas como a irmã má Pilar. Seu registro "over" às vezes me lembra a grande Catalina Creel, vilã com tapa-olho da mexicana "Ambição" (1986), grande sucesso da emissora do seu Silvio nos anos 90. Para os noveleiros mais radicais, a referência não é nada ruim.
O outro irmão, Ulisses (Alexandre Borges), é um bobo que só consegue dizer sim aos planos maléficos da irmã. Os sobrinhos de Artur também passam a novela inteira a babar na fortuna do tio e ver como podem tirar vantagem dela.
E há ainda o trio das peruas fúteis: além de Carmita, Fábia (Flávia Alessandra) e Dora (Mariana Ximenes), que vivem fazendo ginástica na sala de casa, entre cremes faciais, visitas ao dermatologista e à joalheria de Artur. Tudo muito parecido.
A saída de cena de Artur joga mais peso nas costas de Adriana, Pilar e também do galã bom-caráter Pedro (Chay Suede) para conduzir a história. Espero que cada personagem, especialmente os sobrinhos, ganhem histórias próprias mais desenvolvidas para manter o interesse. Nunca é bom jogo apostar contra Walcyr Carrasco: se precisar mudar a história toda para conquistar sua audiência, ele o fará sem nenhum remorso.




