ILUSTRADO
Terça-feira, 04 de Outubro de 2011, 19h:17
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TEATRO
Para refletir na contramão da corrente
Peça foi concebida para a Mostra Internacional de Teatro de Oeiras, de Portugal (2009), e premiada no Brasil pelo Prêmio Myriam Muniz
Martha Baptista
Da Reportagem
O diretor Amauri Tangará volta a atacar. Na direção de um grupo de sete atores, Tangará vai encenar a partir da próxima sexta-feira o espetáculo Viver é raso, na Chapada dos Guimarães (a cerca de 60 km de Cuiabá). Segundo o diretor, que também assina o texto, trata-se de uma proposta ousada de buscar a reflexão ao contrário, no avesso, na contramão da corrente. A necessidade de esvaziar as mentes, para criar e formar conceitos mais críticos de nós mesmos é uma urgência. Nosso espetáculo abre a possibilidade de conversar com o público através de suas próprias lacunas, explica Tangará. Viver é Raso foi concebido para a Mostra Internacional de Teatro de Oeiras, de Portugal, em 2009, e premiado para montagem no Brasil pelo Prêmio Myriam Muniz. No espetáculo, sete atores vivem situações quase absurdas, que ensejam, de acordo com o autor, o autismo voluntário ao qual as pessoas se lançam cotidianamente. Tangará diz que estamos vivendo a era da imagem (cinema, TV, computador, celular, publicidade de rua, etc). Nesse contexto, o cérebro humano recebe diariamente em torno de 300 vezes mais imagens que sua capacidade de absorção e análise. O homem moderno está super exposto a todas as novíssimas formas midiáticas de informação, persuasão e deformação. Assim, sem poder digerir como se deve e analisar como lhe convém tantas imagens, fica no raso de praticamente todas elas, critica Tangará. Na opinião do dramaturgo, as novas tecnologias garantiram um ganho de tempo incomensurável em comparação ao passado, mas, por outro lado, a humanidade tem a sensação de nunca ter tempo para se aprofundar em alguma coisa. Estamos viajando em alta velocidade, embarcados numa nave que não tem piloto, e não temos tempo nem sequer de contemplar a paisagem. Não dá!... Não podemos!... Não temos tempo, pois há tanta coisa pra se ver, vender, comprar, pensar, perder, achar, buscar... que tudo fica assim: no raso!!!... Será que fomos transformados em um grande rebanho? - questiona. TRILOGIA Inspirado nessas reflexões, o inquieto Tangará criou Viver é raso texto que tem momentos de confronto e/ou flerte com outros artistas e filósofos contemporâneos como Marcel Duchamps, René Magritte om Friedrich Nietzsche. A peça pretende ser a primeira de uma trilogia, cujo segundo texto já está em elaboração e que deverá se chamar Morrer é Longe. Tangará faz parte de uma geração que enfrentou 20 anos de ditadura e fez do teatro uma trincheira e uma arma fundamental para a sobrevivência. Foram tempos difíceis, mas de uma criatividade e de uma força jamais vista, recorda o autor e diretor. Ele resssalta que a ditadura, ao contrário do que muitas pensam, não acabou, apenas fez plástica, mudou de cara e de nome e está aí mais poderosa que nunca. Para Tangará, os brasileiros nunca foram tão oprimidos. Só que agora, ao invés de sermos trancafiados nos porões, somos amarrados em sofás, cadeiras, nas frentes de TV e computadores. Ao invés das torturas físicas, somos massacrados mentalmente por milhões e milhões de ofertas de coisas das quais não necessitamos. Estão nos transformando num rebanho que já não consegue viver sem as coisas inúteis. Estamos sendo domesticados e catequizados para seguirmos à risca - em pensamento e prática -, a mais profunda e contundente filosofia contemporânea: deixa como está pra ver como é que fica. Estamos ficando híbridos, transgênicos, rasos... Se o teatro vai nos salvar, não sei, mas pretendemos fazer alguns estragos... SERVIÇO O QUE: Espetáculo teatral Viver é raso ONDE: Lions Clube de Chapada dos Guimarães (para chegar lá é preciso seguir reto pela rotunda de entrada da cidade e entrar na primeira à esquerda. QUANDO: de 7 a 16 de outubro QUANTO: R$ 20 (inteira) e R$10 (meia)