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Cuiabá MT, Quarta-feira, 17 de Junho de 2026

ILUSTRADO
Sábado, 19 de Maio de 2012, 12h:48

CRÔNICA

O homem mediano

Juliana Curvo*
Especial para o Diário de Cuiabá
A altura de um homem é uma variação genética, sendo descoberta através do cruzamento de genes do pai e da mão e da descoberta de quais são dominantes e recessivos. Uma conta fácil de ser feita, teoricamente. Estou utilizando a palavra homem no lugar de ser-humano (é para facilitar a escrita). Veja bem, características genéticas, quesito evolução, mudanças geográficas, climáticas, sociais, quedas, supressões, descobertas e eis que temos o homem mediano. Sim, aquele que não é o mais alto e muito menos o menor. Aquele que está no meio. Ou como diria a música do Arnaldo Antunes, que a Adriana Calcanhotto gravou em um disco incrível de quando ela ainda tinha sotaque gaúcho, pintava o cabelo de loiro e assinava o nome com apenas um t: “no meio do caminho dessa vida, estamos todos no meio. Quem chegou e quem faz tempo que veio, ninguém no início ou no fim.” Mais ou menos aí está localizado o homem mediano. Pois bem, eu não estou falando de altura apenas e muito menos de características físicas. Este homem do qual tento dar conta nestas linhas, não é e não deixa de ser. Não faz e não deixa por fazer. Ele é personagem de um romance que comecei a escrever: funcionário público, padrão, responsável por resolver problemas de telefonia. Sabe a quantidade de linhas, quantidade de telefones, quais são de uma determinada operadora, quais são de outra. Quais estão em uso, quais não. Nem sempre há problemas com telefone no local onde ele trabalha. Assim, tem dias em que ele fica apenas quieto, esperando o dia passar. Seu grande sonho é ganhar na loteria. Joga semanalmente, confere semanalmente. Nem sempre, apenas quando sobra tempo. O maior prazer que possui é tomar café no meio da manhã e no começo da tarde. Exatos 9:00 e 14:00. Apaixonou-se certa vez por uma prostituta que dizia ter o dom de ver gente morta andando por aí, por acolá, mas só via quando ela transava de barriga vazia. Um dia, o homem mediano conta, levou a moça para ver o mar, com o décimo terceiro. Cheia de ver, sentada na areia, ela não comeu e eles ficaram juntos a noite inteira. Ela dissera que descobrira o prazer em se dar. De repente, começou a gritar, gemer, bater no homem mediano com toda a sua força. Estava possuída por alguma coisa. Ele a matou estrangulada, deixou o corpo estendido na cama e voltou para casa, que ficava bem longe do mar. Mas, ele diz que ela volta, sempre bela, sempre branca. Este é o homem mediano que invento e descrevo, um ser que mata o que não morre (por que desejar tão mal assim para si?). Um ser que eu, e ninguém, sabe se sempre quis ser isso que é. Eu paro de escrever, pois vai dando o meu horário de fechar o expediente, o ar-condicionado precisa ser desligado, as luzes, o computador. Antes, porém, tomo meu gole de café forte no copo de plástico, que até me parece bonito, vendo alguma fumaça que sobe. Olho pela janela: As cinco horas da tarde (as mesmas cinco horas do poema de Garcia-Lorca), o sol no outono de Cuiabá ilumina o morro de Santo Antonio de maneira que somente no pico há tons de amarelo, todo resto fica escuro. Como se fosse neve, mas com sol. Pode-se saber o pôr-do-sol quando o morro volta a ser unicolorido e assim passa toda noite. O homem mediano será que percebe a beleza dessas nuances de cor? Eu devo ir, mesmo que a crônica não me pareça pronta, para conseguir chegar em casa antes que mude de idéia e desista de descrever o que está no meio, mas não em processo, é finalizado assim, longe das pontas. *Juliana Curvo é professora de literatura, inútil, mas agora com mestrado. Míope, mãe e problemática. Escreve mais do que lê, gosta mesmo de colecionar coisas velhas e ultrapassadas, e colabora com o DC Ilustrado ([email protected])

Edição EDIÇÃO 16964




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