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Quarta-feira, 17 de Junho de 2026, 00h:00

TELEVISÃO

Na Copa, o SBT é a Globo ontem

Galvão Bueno revive os bons tempos, mas sem a força de antes

MAURICIO STYCER
Da Folhapress – São Paulo
Vinicius Junior comemora seu gol pela seleção brasileira durante partida contra a seleção do Marrocos

"Eu sou você amanhã", anunciava a publicidade de uma marca de vodca, nos anos 1980, prometendo um dia seguinte sem ressaca. Na Copa de 2026, viu-se uma proposta com o sentido inverso: o SBT é a Globo ontem. Na estreia do Brasil no Mundial, a emissora da família Abravanel convidou o espectador a uma imersão nostálgica, evocando as muitas décadas em que Galvão Bueno foi a voz do futebol brasileiro.

No gramado, trazendo informações, estavam os repórteres Mauro Naves e André Hernan. No estúdio, em São Paulo, pontificava Tiago Leifert. Todos ex-Globo. Na cabine, em torno de Galvão, Mauro Beting e Nadine Basttos foram os coadjuvantes cordatos, papéis que por muito tempo foram de Casagrande e Arnaldo Cesar Coelho. Meio deslocado, o ex-jogador Pato, genro de Silvio Santos, completou o time.

Em 2018, Galvão afirmou que "provavelmente" a Copa da Rússia seria a última que narraria. Em 2022, no Qatar, a Globo informou que ele estava se despedindo das transmissões em TV aberta. Desde então, narrou amistoso da seleção no YouTube, apresentou um programa de debates na Band e outro no SBT e tornou-se sócio do canal N Sports, que se associou ao SBT para exibir 32 partidas da Copa 2026.

A presença de Galvão no vídeo deixa evidente que o narrador nunca teve, realmente, a intenção de parar de narrar, mas a Globo claramente não queria mais tê-lo no comando de uma cabine de narração numa Copa do Mundo.

Aos 75 anos, a voz de Galvão perdeu parte de sua força natural e não tem a mesma qualidade técnica. O estilo, porém, permanece vivo, ainda que às vezes pareça uma caricatura de si mesmo. Num gesto risível, o narrador assegurou a presença na tela do SBT do grupo Olodum, uma velha tradição da Globo.

Galvão se tornou célebre pelo tom dos seus palpites. O narrador não abre mão, além de descrever os lances, de comentar a forma de atuar dos jogadores, orientar o técnico e instruir os espectadores. "Tô começando a gostar do jogo", disse dois minutos antes do gol de Marrocos. O árbitro "é ruim demais", afirmou. "Se é para sair assim, é melhor ficar embaixo do gol", disse sobre o goleiro Alisson. "A torcida não pode se aquietar", proclamou, reclamando dos brasileiros no estádio.

Quanto mais concorrência, melhor. Nesse sentido, a aposta do N Sports e do SBT em Galvão é positiva. Os dados prévios, divulgados pela Folha, indicam que a emissora paulista abocanhou cerca de 20% da audiência do jogo registrada na TV aberta, contra 80% da Globo. Não é pouca coisa.

A Globo transmite a Copa desde 1970, como a emissora lembrou mais de uma vez, procurando enfatizar o seu lugar. Apenas quatro profissionais narraram os jogos do Brasil neste tempo: Geraldo José de Almeida, Luciano do Valle, Osmar Santos e Galvão.

Uma nova voz não aparece de uma hora para a outra; constrói-se com o tempo. Luís Roberto estava sendo preparado para isso, mas infelizmente teve que se afastar para tratamento de saúde e coube a Everaldo Marques assumir a responsabilidade.

Achei que Everaldo se saiu muito bem. Evitou os arroubos patrióticos que constrangem, foi claro na descrição dos problemas e, como é obrigatório, buscou manter a temperatura alta em toda transmissão, mas sem gritar.

Luis Felipe Freitas, principal narrador da CazéTV, foi prejudicado pela decisão do canal no YouTube de mantê-lo no estúdio no Rio. O tom, como gostam os fãs, é sempre muitas oitavas acima do necessário.

Nos bastidores, antes do jogo, as equipes de Globo, SBT e CazéTV se igualaram no "pachequismo" desavergonhado e constrangedor.

 


Edição EDIÇÃO 16967




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