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Cuiabá MT, Sexta-feira, 19 de Junho de 2026

ILUSTRADO
Segunda-feira, 11 de Outubro de 2010, 18h:56

ARTE

Mito e ludicidade

Os personagens de Daniel Pellegrim, aparentemente apenas lúdicos, oníricos e divertidos, também são transcendentais e críticos

Daniel Pellegrim inaugura sua mais nova exposição com criatividade e bom humor. O trocadilho “Luk ti! Ameli. Bena mi, Gee. Guará! Stum” além de configurar como título de sua exposição, brinca com os nomes dos personagens inventados pelo artista, desafiando-nos a encontrar aí possibilidades de significação. Desdobrando seus personagens dentro e fora das telas, o artista experimenta diferentes possibilidades de composição, inventa paisagens, situações, novas realidades. Incentivado com recursos do Fundo Estadual de Fomento à Cultura de Mato Grosso e com apoiadores da iniciativa privada, o artista realiza sua exposição individual itinerante de 14 a 22 de outubro, na Casa de Arte Lara Donatoni Matana, em Cuiabá-MT e, de 11 de novembro a 11 de dezembro, na Subsolo Galeria de Arte Contemporânea, em Curitiba-PR. Com a curadoria da crítica de arte Joice Gumiel Passos (membro da Associação Brasileira de Críticos de Arte - ABCA), de Curitiba, Daniel Pellegrim fortalece sua proposta de criar, compartilhar, difundir sua arte e conquistar novos mercados para a arte produzida em Mato Grosso. Para Joice Daniel Pellegrim é paranaense de Marialva e mato-grossense da Chapada dos Guimarães, e “traduz na sua obra o regional e o nacional para além de qualquer fronteira.” Experimental, lúdico, pós-moderno, alia suas atuais inquietações estéticas às questões da toy art. Uma versão da arte pop contemporânea que apresenta a “arte brinquedo”, um movimento que utiliza desde as técnicas da reprodução em série até a produção artesanal e que, híbrido, comporta tanto a urbanidade, a tecnologia, como o underground e o nonsense. Uma estética que se apresenta através de personagens exóticos que podem ser meigos, inocentes, violentos, subversivos, cômicos, satíricos e até heróicos ou, eróticos. O objetivo é sempre, na ordem inversa, causar estranhamento, reação do fruidor, como assoprar e morder, ou vice-versa. Misturando arte urbana com cultura local, tecnologia com mitos e tendência global, a “arte-brinquedo” equivale à exigência do divertido na pós-modernidade. Obras únicas ou com tiragem limitada, numeradas e assinadas, que podem resultar de técnicas artesanais, handmades (feitas a mão), ou serem produzidas em escala industrial, estes trabalhos manifestam um universo lúdico e onírico, ao mesmo tempo, que ironizam, criticam e satirizam a realidade da vida contemporânea. Daniel Pellegrim mistura arte urbana, tecnologia industrial, discurso mecânico, técnico, tendência global com a cultura local, com os mitos, as nuances da diferença, o artesanal, o sonho, a utopia, o lúdico e o primordial. Os elementos curvos, serpenteados, ilógicos, produzidos ora de forma original, ora mecanicamente repetidos, organizados e reproduzidos em série, podem resultar numa obra única, tinta acrílica sobre linho, ou num papel de parede e, sobre este, pode ou não estar camuflado, um quadro, com o mesmo padrão e tema. Seus personagens podem compor imagens inaugurais ou são as células básicas, com variações, que resultam nas organizações geométricas, ou não, das suas composições. LUK Este personagem foi criado a partir da observação do perfil de montanhas e árvores. Com três olhos sempre abertos, sendo que o terceiro é na barriga, Luk não possui boca, nem braços e o seu alimento vem da visão. Luk vive da observação, para ele, ver é imperativo! Luk se metamorfoseia em paisagem, ele é e está nela, lançando seu olhar para quem o observa. No céu, as estrelas de quatro pontas apontam possíveis direções: Norte? Sul? Leste? Oeste? A lua cheia ilumina os chapéus-nave que podem fazer sua cabeça. Vive em lugares serranos ou montanhosos e é amigo dos trovões, das tempestades, brumas e ventanias. Dizem que quando alguém o vê e inclina a cabeça, tal qual Luk costuma fazer, este consegue, quase que telepaticamente, se comunicar com ele e entrar por alguns instantes em seu mundo visionário. BENA Bena de anfisbena, de cecília, de minhocoçu, de cobra de duas cabeças. Este personagem amigável, recriado, articula-se aos mitos indígenas sul-americanos do Minhocão do Pari (Rio Cuiabá), Boitatá (Norte e Nordeste), M'Boi (Foz do Iguaçu/ Paraná), etc. Gastón Bachelard define a serpente como “raiz animalizada, traço de união entre o reino vegetal e o reino animal”. Presente em todas as culturas de qualquer época, espalhada pelos cinco continentes, sua imagem mitológica assume sempre um papel fundamental, associada que está, à essência primordial da natureza, à fonte original de vida, ao princípio organizador do caos. GEE Gee é um personagem que se articula com o mito do negro d'água. No alto da cabeça possui um membro que usa para respirar, passando-o à superfície das águas, sendo facilmente confundido com um peixe ou um boto. Devido a pouca luminosidade das profundezas dos rios, seus olhos são esbugalhados e luminosos. Para resistir grande tempo sem ir à superfície, desenvolveu enormes bochechas para guardar o ar. Mãos e pés possuem membranas que facilitam o nado. No peito, utiliza uma pedra para captar as vibrações do rio. Gee pode sentir todos os movimentos do rio, da nascente à foz. Muito forte, nada com grande rapidez. Vez por outra, se irrita com a quantidade de redes, armadilhas, anzóis, garrafas, sacos plásticos, latas e outras coisas estranhas que encontra pelo seu caminho e acaba virando algumas embarcações. Contudo, quem o considera e respeita o rio, tem nele um aliado. O rio é sua casa, vive e morre pela água. É possível perceber sua presença pelos sons que o acelerar de seus braços emitem embaixo d’água, geeeeeeeeee.... GUARÁ “O homem é lobo do homem", escreveu o filósofo inglês Thomas Hobbes. Assim como a serpente pertence ao arquétipo comum do inconsciente feminino, o lobo está ligado ao arquétipo masculino. Na América do Sul, o avermelhado lobo Guará se mostra onívoro, não forma alcatéias - é solitário. Diferente dos lobos europeus e asiáticos que foram amplamente caçados, os Guarás correm alto risco de extinção devido à conversão de terras para a agricultura, por transmissão das doenças dos cães e atropelamentos em estradas. AMELÍ DEGÊ A Melíade de Gê ou de Gaia (mitologia grega), a Melissa da Terra. Em Mato Grosso, Mãe do Morro. Mito que se articula com as várias representações existentes em diferentes épocas, lugares e cujo tema principal é a Terra. Diferente da Mãe do Morro e das Melíades gregas, esse personagem tem em sua composição linhas que remetem a insetos: formiga, escorpião, cupim, louva-deus, borboleta, etc. Insetos que, de alguma maneira, possuem uma relação vertical com a terra e que representados em formação simétrica viabilizam composições centralizadas. Amelí conecta-se com a “Mãe Terra”, vive “na” e “para” terra, mobilizando forças a favor da sustentabilidade e da preservação. STUM Este personagem articula-se ao mito do Pé de Garrafa, também conhecido como Cão-Coxo, Capenga, Cambeta e Pé de Quenga. Visto em Mato Grosso, no Paraná, em Goiás, no Piauí e em Tocantins. Na Irlanda, apresenta-se como o elfo Fachan. Com o umbigo branco, um chifre na cabeça, um olho, uma mão com garras e um pé redondo, precisa do equilíbrio e da síntese para realizar os seus saltos. Stum, quando se movimenta, provoca estrondosos sons... Stum, sstum, ssstumm... Estes personagens, aparentemente apenas lúdicos, oníricos e divertidos, mas, realmente, criativos, transcendentais e críticos, são células básicas inteligentes que, organizadas, podem desenvolver os mais variados temas, indo da possibilidade da diversão ao comprometimento, do surrealismo à arte conceitual, da composição da araucária ao coqueiro, sempre na busca universal de novas células inteligentes que venham compor a rede transformadora, crítica, criativa e, fundamentalmente, divertida. Neste mesmo percurso se encontram hoje os artistas Jeff Koonns, Kenny Scharf, Bounty Hunter, James Jarvis, Brothersfree, Janson Siu, Takashi Murakami, Furi Furi, Jakuan, Tim Tsui e outros. (Com Assessoria) Serviço: O QUE: Exposição itinerante de Daniel Pellegrim QUANDO: De 14 a 22 de Outubro, 2ª a 6ªf, 8h às 18h e sáb. 9h às 12h ONDE: Casa de Arte Lara Donatoni Matana, R. João Bento, 170 QUANTO: Grátis INFORMAÇÕES: 3623 6335

Edição EDIÇÃO 16966




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