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ILUSTRADO
Quarta-feira, 25 de Junho de 2008, 21h:18

LITERATURA

Mia Couto e o sentimento do tempo

Autor moçambicano, em sua mais recente obra, "Venenos de Deus, Remédios do Diabo" une tradições de seu país como o cotidiano do Moçambique contemporâneo

Ubiratan Brasil
Agência Estado
Em Moçambique, um ditado diz que cada velho que morre é uma biblioteca que arde. Assim, em um país carente de recursos, a tradição oral é um tesouro, pois carrega a trajetória de todo um povo. Em meio a crises e guerras intermitentes, a África é um continente que resiste. É o que defende o escritor moçambicano Mia Couto, cuja mais recente obra, "Venenos de Deus, Remédios do Diabo" (Companhia das Letras, 192 páginas, R$ 38), une tanto as tradições de seu país como a vida cotidiana do Moçambique contemporâneo. Trata-se da história de Bartolomeu Sozinho, um velho mecânico naval da era colonial, que vive um momento singular - aposentado e já tendo vivido em uma nação que se tornou independente de Portugal e ainda enfrentado os 30 anos de uma devastadora guerra civil, ele está doente e convicto de que vai morrer. Uma certeza que atrapalha a ação de Sidónio Rosa, médico português enviado para aquele lugar, Vila Cacimba, encarregado de tratar de uma terrível epidemia e que o atende em sua casa, buscando, em vão, injetar-lhe esperança. Fraco, Sozinho é tomado por lembranças e desejos, que tomam forma em palavras desencontradas, mas que se traduzem em histórias emblemáticas de seu povo. Verdadeiras ou não, elas carregam, na verdade, a sabedoria da tradicional cultura oral africana. Desconfiado da veracidade do que ouve, o médico tem, no entanto, outro desejo que não apenas o de curar o velho: reencontrar Deolinda, antiga paixão, filha declarada de Sozinho e pivô de uma espetacular história de amores e falsidades. Ao se debruçar sobre a mentira e sobre a solidão, Mia Couto trata de temas que lhe são caros. "Aos completar 50 anos, ganhei o sentimento do tempo e isso foi algo novo na minha vida", comenta o escritor que, nascido em 1955, também é biólogo e cujo trabalho, traduzido para diversas línguas, tem a questão da identidade como essência. Dono de uma especial prosa poética e ainda firme na ambição de escrever um livro que fluísse como a oralidade, Mia Couto respondeu, por e-mail, às seguintes perguntas. O passar do tempo é um elemento importante em sua obra, especialmente nesse livro. Por quê? MIA COUTO - Acontece-nos, por vezes, haver tempo; acontece-nos, outras vezes, tropeçar na idade. A mim aconteceu-me aos 50 anos ganhar o sentimento do tempo e isso foi algo novo na minha vida. O tempo é - como diz o provérbio da minha terra - um ovo: se não se segura bem, cai; se se aperta com força, quebra. A única forma de lidar com ele é desvalorizar E o modo mais leve de desvalorizar o tempo é convertê-lo em história. Foi o que fiz. Também a mentira, parece, é uma condição essencial para o existir. É correto isso? M.C. - Toda a literatura é uma mentira que não mente. Neste caso, a narrativa desse romance se constrói como uma caixa de ilusões e fala de lugares e pessoas que sabem que, para se sentirem existentes, devem recorrer à mentira. Nessa construção pecaminosa, Deus e Diabo, por vezes, trocam de função. Esperar pela pessoa amada é um ato que exige paciência. Até que ponto tal persistência ainda é comum na sociedade moderna? M.C. - A pessoa amada nunca se encontrou. Ela se construiu, numa paciente obra a dois. No caso deste romance, essa procura exige que as pessoas mudem de continente, mudem de nome e mudem para outra vidas. Os segredos familiares são fontes benéfica de inspiração, tanto para a literatura como para o cinema e o teatro - Nelson Rodrigues, por exemplo, é um dos mestres em apresentar o apodrecimento familiar. O que mais te atrai nesse assunto? M.C. - Escutei o escritor Amos Oz, em Paraty, no ano passado, durante a Flip, dizendo que há mais mistério oculto numa família que numa viagem a Marte. A família não é apenas uma constelação de pessoas, é a nossa primeira narrativa, uma teia em que nos construímos como personagens. Essa revelação de ocultas mentiras sobre a nossa própria identidade é, por exemplo, um tema constante nas novelas. Mais que um velho arquétipo literário é um receio nosso, profundo, de sermos estranhos e intrusos numa família que nos acolhe e que inventa o nosso pertencer. Antes que o retrato de uma história de amor, o livro seria um retrato mais amplo, do próprio Moçambique? M.C. - Não existe essa pretensão de retrato de uma nação, mas de uma condição de desamparo e distância. Não é um território específico que me interessa, mas a fronteira entre lugares. Os personagens de "Venenos de Deus, Remédios do Diabo" parecem novos, em relação a seus anteriores. É certo isso? Como surgiram? M.C. - É verdade, este livro é, de algum modo, um livro que rompe com a construção dos anteriores que são arborescentes e de personagens múltiplos e variados. Entendi que me devia desafiar e surpreender. Só assim me interessa continuar escrevendo. Busco não a carreira, mas a permanente estréia, o eterno recomeço. Você disse que esse é um livro pessoal. Por quê? No que ele é mais pessoal que os outros? M.C. - Este livro é tão pessoal como qualquer outro Os livros são algo pessoal por via deferida, nós nos reinventamos nos personagens que nascem dos nossos fantasmas. A angústia de Bartolomeu Sozinho diante do passar do tempo e da proximidade da morte também é sua? M.C. - Sim. Não chamaria, no meu caso, de angústia. Mas existe a sensação que estamos no limiar de um abismo e, nesse abismo, vão desabando e se extinguindo os nossos pais e os da geração deles. A consciência da finitude é uma aprendizagem impossível. Talvez essa impossibilidade resulte de que não existe fim. Carecemos, sim, aprender a recomeçar em outras vidas, outros seres. As palavras fazem mover as coisas? São perigosas as palavras? M.C. - Os pensamentos e as sensibilidades fazem mover as coisas. As palavras que movem e que constituem perigo são as palavras que não podem ser ditas em nenhuma língua: as palavras do sonho. O mal é um aliado da literatura? M.C. - Sim. Mas não sei o que é o mal. E, assim posta a questão, a literatura pode ser uma poderosa construtora do Bem.

Edição EDIÇÃO 16959




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