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Cuiabá MT, Sexta-feira, 12 de Junho de 2026

ILUSTRADO
Sexta-feira, 10 de Setembro de 2010, 19h:16

DEPOIMENTO

Histórias de feira de livros no Araguaia

O DC Ilustrado traz nesta edição mais uma preciosa colaboração, de um escritor mineiro que está radicado em Cuiabá há inúmeros anos

Rômulo Netto
Especial para o Diário de Cuiabá
Fui convidado para participar da Feira do Livro, evento que seria realizado em Alto Araguaia, no período de 1 a 4 de setembro deste ano. O convite pegou-me de surpresa, pois de há muito tempo já me considerava um escritor esquecido, mais que isso, um escritor que jamais seria lembrado para qualquer coisa, a não ser pelos “críticos” que, de onde em onde, diziam que não perderiam tempo lendo o que escrevia. Sou vítima de meus próprios erros e preconceitos. Disto não tenho dúvidas. Mas eis que chegamos a Alto Araguaia. Sou do cerrado longínquo dos Gerais, acostumado com o sertão poeirento, que aos poucos foi sendo consumido pela fome do agronegócio que despontava. Confesso que esperava encontrar uma cidadezinha desdeixada, suja, com ruas esburacadas, e, principalmente jovens mal educados. Como dizemos lá no meu sertão-cerrado mineiro: “caí do cavalo”. A criançada ordeira, ávida de conhecimento tomou literalmente conta da tenda e buscou as prateleiras das editoras. De onde em onde um grito de surpresa, com as capas bem elaboradas, o texto esmerado da maioria dos autores. Assisti espantado a três cenas que não posso deixar de relatar aqui. A primeira ocorreu no penúltimo dia da Feira. O garotinho chegou arrastando a avó, literalmente, e foi logo apontando o livro Conferência no Cerrado, de Durval de França e Cristina Campos (TantaTinta/Carlini & Caniato Editorial). A avó exultava em alegria pelo fato de seu neto ter se interessado por um livro. O garotinho, creio eu, na faixa etária de nove anos, largou a mão da avó e foi correndo chamar pela mãe, exultante, por ter achado um livro de seu agrado. Em seguida a decepção: - não vou comprar nada não! Seu pai comprou um monte de livros e você não leu nenhum. Acho que nós, os que estávamos ali no estande, ficamos mais decepcionados que a criança. Porcertamente os livros que ele ganhou de presente não foram os de sua escolha, talvez não tivessem nada em consonância com seu mundo infantil, povoado e repovoado de sonhos. Enquanto pai busquei orientar a leitura de minhas duas filhas, jamais lhes impus um texto do meu agrado. Leram alguns dos meus preferidos, de livre escolha. A segunda cena: um esperto menino puxou conversa. Indaguei sua idade: de chofre ele respondeu: − oito anos. Ataquei novamente perguntando se já tinha lido algum livro: Ele, sereno, confiante e sem titubear: − Vários! Aguçado pela curiosidade desfechei outra pergunta: − Quantos? Dez? Em sua sábia inocência retrucou: − Mais, muito mais. Meus pais me dão livro de presente, quando escolho e leio, também, na escola. Adoro ler. Ressaltei a importância da leitura, ainda mais, disse-lhe que buscasse nas bibliotecas públicas e, se porventura, devorasse os livros das bibliotecas públicas não se acanhasse em pedir emprestado àquelas pessoas que acreditassem que o livro seria lido e devolvido. O menino foi embora deixando comigo um enorme vazio. O vazio provocado pela insensibilidade do poder público que ainda não acredita que a instrução é a mais poderosa arma para a construção de um País. A cultura e a literatura estão umbilicalmente ligadas à instrução. Mas esses míopes mentais não estão preocupados em atender aos anseios de uma população ávida por novos conhecimentos. Parece-me que eles pensam que construir uma biblioteca não dá, mas tira votos. A terceira cena: um garotinho, no máximo com dez anos. Chegou ressabiado, sem saber se podia folhear o livro ou não. Elaine Caniato quase que ordenou que assim o procedesse. Aproveitei a deixa e confessei a ele que o livro é maravilhoso. O li praticamente numa sentada. Aventura: gênero que a criançada adora. Elaine debruçou sobre a mesinha e explanou em didáticas palavras o conteúdo do livro. O menino ouviu atentamente. Não comprou o livro imediatamente. Retornou meia hora depois com outros amiguinhos, para finalmente uma hora depois chegar com a mãe. Pegou o livro, abriu, folheou. E de repente o pedido: − Mãe, compra pra mim! E ela retruca: − Com o seu ou com o meu dinheiro? Ele, rápido e certeiro como um míssil detona: − Com o seu lógico, é um presente pra mim! O jovenzinho saiu todo contente, não sem antes exclamar: −Vou começar a ler agora. Kuatrin, de Alexandre Tarelow, este o livro que chamou a atenção. No sábado pela manhã eis que o menino aparece novamente. Elaine faz a pergunta fatal: − E aí? Já começou a ler o livro? Está gostando? Com a segurança de velhos leitores ele respondeu? −Sim! Estou gostando, já estou na página vinte. Pude ver nos olhos de inúmeras crianças e jovens o desejo de adquirir diversos livros, infelizmente continua prevalecendo, acho eu, que justamente aqueles que manifestam o desejo de ter uma boa formação intelectual são os que menos condição financeira possui para adquirir este adorável sonho de consumo: um bom livro. Confesso que participar da Feira do Livro de Alto Araguaia me ofertou a possibilidade de rever meu julgamento sobre pessoas que pouco conhecia e, ainda assim, erroneamente colocava um escudo entre elas e eu. Preconceito que, no decerto, privou-me de bons momentos. Preconceito que, porcertamente, impediram que cultivasse a amizade de pessoas mais sábias e que muito poderiam ter me ensinado através dos tempos. Acho desnecessário citar nomes. Elas, melhor que ninguém, se lerem este depoimento saberão de sua inclusão nesta lista. Eu só espero que elas entendam que apesar da idade, e talvez por ela mesma, fiquei mais ranzinza, desconfiado. Tranquei em meu mundo não permitindo a chegada de nenhum turista. Entretanto sob outra óptica eu não posso deixar de citar nomes de algumas pessoas que querendo ou não me fizeram enxergar o verdadeiro mundo: aquele da construção em conjunto, do sofrimento e das alegrias compartilhados: Elaine Caniato e Ramon Carlini, responsáveis pela tentativa de me incluir na lista de peso dos escritores mato-grossenses, natos ou que como eu aqui vivem, e, mais recentemente, Marcelo Cabral, responsável, ao lado de Elaine Caniato pela criação das maravilhosas capas de meus dez livros. Outras surpresas agradabilíssimas aconteceram. Apesar de termos trabalhado na mesma Instituição, jamais tivera a oportunidade de desfrutar da companhia irreverente de Luis Carlos Ribeiro. Durante todos esses dias pude ler claramente em seus olhos a convicção de que nasceu para ser o que é: um contador de histórias, um encantador de crianças, um abridor de portas para o fantástico mundo da literatura. Mas, de todas essas surpresas, a maior delas, foi o encontro com Fátima Sonoda. Quando ela era estudante e eu responsável pela Comissão Permanente de Concurso Vestibular da Universidade Federal de Mato Grosso, estávamos em lados antagônicos. Não em minha visão, mas na deles, vez que sempre escolhi para coordenar e fiscalizar cada concurso vestibular alunos, independentemente de sua orientação política. E, para coroar, outra grande surpresa: conhecer Lorenzo Falcão, a quem conhecia apenas de vista e pelos excelentes textos no Diário de Cuiabá. Conversamos um pouco e no ínterim dessa conversa pude encontrar um jornalista que ama o que faz e, ao mesmo tempo captei em suas palavras a essência que acompanha os verdadeiros escritores. Como esquecer a professora Maria Dias de Souza Neves responsável pelo convite e a Stéphano, seu filho que, a todo momento, demonstravam reconhecimento e atenção para com este velho escrivinhador? E, finalmente, a Cleuta Paixão, que me socorreu, praticamente me arrastando até a emergência do Hospital Municipal de Alto Araguaia onde, por duas vezes fui medicado para atenuar as fortes dores de uma já velha conhecida: a gota, mais que isso o ser humano maravilhoso que, ao lado da Maria Dias de Souza Neves soube nos contagiar fazendo com que nos sentíssemos em casa. Uma semente foi lançada. Oxalá outros municípios mato-grossenses consigam se espelhar no trabalho realizado em Alto Araguaia. • Romulo Netto, jornalista, escritor mineiro, escondido em Cuiabá desde janeiro de 1972

Edição EDIÇÃO 16961




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