ILUSTRADO
Segunda-feira, 19 de Março de 2012, 21h:23
A
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ESCREVER
Fenômenos ocultos da criação literária
Em literatura, forma e conteúdo se tornam uma só e mesma coisa, ou seja, a dificuldade de começar e o texto espesso, hesitante, desconexo
Márcia Denser
Especial para o Diário de Cuiabá*
Diferentemente dum texto ensaístico ou jornalístico, que envolve o leitor pela razão, o texto literário é arte porque atinge o leitor pela emoção. Muitas vezes eles se ocultam até do próprio escritor, que os realiza intuitivamente, sem meditar a respeito, isto é, se perguntar por que certos recursos funcionam ainda que aparentemente devessem produzir o efeito inverso, ou seja, não funcionar de forma alguma. Por exemplo, uma das coisas mais difíceis para qualquer escriba é iniciar um texto. No caso do escritor, que tem uma massa de informações a passar, o problema surge de cara: Como começar a contar? Se eu não sei exatamente ainda o quê, como e por que PRECISO contar isto? (porque o fato é que eu PRECISO contar isto, malgrado as razões me escapem, só vou entendê-las, escrevendo, não adianta PENSAR a respeito). Afinal, literatura é ação/realização. Bom, conforme o exemplo abaixo, na novela Sodoma de Mentiras (in Toda Prosa II, Record, 2008), eu resolvi o problema tornando-o literal. Em duas laudas, tento começar a contar a história de Natan a partir dum rodear dessa compacta montanha negra de informações mudas, puxando todas as impressões que me vinham, mesmo que desconexas, mesmo que parecessem digressões do que realmente seria contado adiante, como algo fora do tema central. Mas este cerco ao problema não só me levou diretamente ao núcleo da história, como tornou-se ele próprio uma espécie de metáfora formal do problema (de como começar a contar), fazendo o leitor ter a mesma dificuldade na leitura desse texto quanto eu tive para escrevê-lo; fazendo-o sentir na própria pele a minha angústia e o meu desespero nessa abordagem, enfim, tornando-o meu cúmplice. Outro dado importante: assim é que, como sempre em literatura, forma e conteúdo se tornam uma só e mesma coisa, ou seja, a dificuldade de começar e o texto espesso, hesitante, desconexo. Os parágrafos abaixo dão (devem dar, creio) esta idéia, malgrado façam parte duma longa novela, com 30 laudas no original. SODOMA DE MENTIRAS Começar a contar pode significar pensar em Natan ou então naquelas janelas só vidro e aço que circundavam o apartamento transformando-o numa espécie de vitrine ou aquário; em certa manta escocesa amarrada ao pescoço ou num quadro de Renoir; começar a contar pode significar começar a puxar todos esses trapos de lembranças e tentar coagulá-las, dar-lhes um nome, uma forma, um significado, explicar o que ocorreu através dessa escultura de palavras, tatear as razões, os porquês de tantas vidraças nuas e tantos quadros no chão e tanta acidez gástrica produzida por tantos cafés e tantos cigarros e o cheiro do onanismo sobre lençóis listrados azul e branco; começar a contar sem emoção, com fluidez aquática e submersa, o que começou no dia 9 de maio e terminou a 27 de junho, entre as primeiras mechas e o derradeiro rabear do signo de Gêmeos. Contar o recheio desses dias e dessas noites não sem antes assentar pilares bem definidos de tempo, início e fim, simplesmente só para poder então se meter no meio como entre as capas de um livro de histórias de fadas e mergulhar nelas e esquecer a realidade porque essa história não se deixa contar a partir da realidade uma vez que história e lenda e ficção e para crianças dormirem logo deliciosas mentiras com gosto de licor de tangerina morno farol sobre uma esquecida mesa de carvalho enquanto bocas mordiam bocas com o hálito do amor dentro dessa redoma durante exatamente sete semanas, que também é conta de mentiroso e por que não? Contar é também mergulhar nessa matéria, obter a zona perdida onde mentiras se transformam em verdades solenes e o desejo em preces embriagadas não obstante meu duende estar rindo lá embaixo, sem saber que eu, nas nuvens de um sétimo andar, nessa redoma, sodoma de mentiras, já terei salgado tudo ao redor. Porque, veja bem, meu querido, estou dando um tiro nisso tudo, cortando minha retirada, queimando a cidade por onde deveriam seguir-me tuas tropas, passando depois o arado nos campos e salgando-os porque não quero deixar esperança a puta vestida de verde nenhum rabo, nenhum inseto, nenhuma antena se movendo, nada e mesmo estar escrevendo a respeito, este exercício asmático e estéril, sobre um passado que não lembro, um futuro que não me importa, é perpetuar este presente de dúvidas claudicantes onde você se move (sim, porque você está do lado da lâmina, é só aumentar a potência das lentes do microscópio) e, veja, sempre para dentro, encaracolando-se cada vez mais para dentro, absorvendo seus próprios humores, cego, mudo, surdo e frio, como um peixe das regiões abissais do oceano, o meio ambiente apenas como extensão da tua dor e do teu prazer, esbarrando assustado em outros peixes cegos, surdos, mudos e frios (a luta no espelho, a eterna luta do macaco no espelho), esborrachando o focinho na parede de vidro que foi retirada do aquário há quarenta e cinco anos... * Musa Dark Houve um tempo em que ela era conhecida como Musa Dark da literatura brasileira. Também já foi rotulada como a preferida do Paulo Francis. Márcia Denser é escritora paulistana. Publicou, entre outros, Tango fantasma (1977), O animal dos motéis (1981), Exercícios para o pecado (1984), Diana caçadora/Tango Fantasma (Global,1986, Ateliê, 2003,2010, 2a.edição), A ponte das estrelas (Best-Seller,1990), Caim (Record, 2006), Toda prosa II - obra escolhida (Record, 2008). É traduzida em nove países e em dez línguas: Alemanha, Argentina, Angola, Bulgária, Estados Unidos, Espanha (catalão e galaico-português),Holanda, Hungria e Suíça. Mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, é pesquisadora de literatura e jornalista. Foi curadora de literatura da Biblioteca Sérgio Milliet em São Paulo. O texto acima foi publicado originalmente no site Congresso em Foco e sua publicação no DC Ilustrado foi autorizado pela autora.