ILUSTRADO
Sexta-feira, 21 de Maio de 2010, 20h:31
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TEATRO
Espetáculo premiado é encenado no Arsenal
Agreste, com a Companhia Razões Inversas, é a atração de hoje no projeto Palco Giratório. Peça já faturou prêmios importantes como APCA e Shell
Claudio de Oliveira
Da Redação
Algumas temáticas desafiam a compreensão e se renovam explorando os sentimentos humanos e a fronteira do preconceito. A relação entre pessoas do mesmo sexo é um destes temas que vêm impondo uma reflexão necessária. A peça Agreste, da companhia Razões Inversas, foi lançada em janeiro de 2004 e no mesmo ano faturou o prêmio APCA de texto e espetáculo, bem como o Shell de melhor autor para Newton Moreno. Doutor em Artes pela Escola de Comunicação e Artes, da USP, e professor de teatro na Unicamp (Universidade de Campinas), o diretor do espetáculo Marcio Aurelio vem há três décadas dedicando-se ao teatro. O diretor já trabalhou textos de Bertolt Brecht, Heiner Müller, Alcides Nogueira e Márcio Souza, entre muitos outros. O texto - narrado e interpretado por João Carlos Andreazza e Paulo Marcello - trata da vida de um casal de lavradores no sertão nordestino. Quando a mulher fica viúva, os habitantes do lugarejo descobrem, durante os preparativos do enterro do marido, que não se tratava de um homem. A reação do povo contra o episódio revela o preconceito e o conservadorismo de um pequeno grupo social, um comportamento extremo que não se limita ao lugar ao qual alude o título da peça, termo usado de modo propositadamente alegórico para maior alcance de sentido. Segundo o texto da enciclopédia Itaú Cultural de Teatro, O grande feito do espetáculo é a combinação das qualidades do texto com os procedimentos experimentais da montagem, que pode ser dividida em três blocos - o do plano mítico, o do tempo da ação e o da dimensão psíquica das personagens. Marcio Aurelio inspira-se no artista plástico Joseph Beuys e no seu conceito de esculturas sonoras: os vinte minutos iniciais, em que os atores narram causos pelo microfone, servem para criar o interesse do público, que é conduzido a uma outra condição de tempo e espaço. Em entrevista a Diego Viana, do UOL, o diretor Marcio conta que dos oito meses usados para o ensaio, três ou quatro foram dedicados a estes vinte minutos iniciais. Ele explica: O texto do Newton Moreno tem uma estrutura aberta, mais de provocação que naturalista. E precisava-se descobrir como criar interesse no espectador. O texto tem três grandes blocos. O primeiro é o tempo mítico. Ele andava muito para encontrá-la. Tudo é indeterminado. No segundo bloco, naquele dia, naquela manhã..., focado. O terceiro é a condição psicofísica dos personagens. O sol, muito tempo caminhando. Como construir isso para o espectador? Outra influência de Beuys é o uso de ternos de feltro nos figurinos. O objetivo é contrariar as referências do público, geralmente habituado à caracterização do nordestino com outro tipo de roupas, claras e leves. Para o diretor, o objetivo do trabalho é "propor outro jogo ao espectador, diferente de entrar no teatro e encontrar uma coisa acabada. Esse vai ser construído com ele e vai depender da sua disponibilidade para o jogo. Essa idéia está ligada à estética do chamado teatro pós-dramático, que é o teatro que se constrói, não dá uma fórmula. Outro ponto interessante da entrevista que expande o nosso horizonte em relação à peça é a explicação do nome: Agreste. Diego(Uol), entrevistador, inquiri sobre o termo, a palavra agreste. E o Aurélio explicou esta transformação: Quanto mais eu queria entrar na peça, mais eu precisava me afastar. Em vez de uma forma regionalista, eu era levado a tratar do universal. Por exemplo, uso músicas de diferentes lugares. Uma canção japonesa ou de uma tribo africana. Mas quando vai explodir o tema central da peça, ela é tratada de forma regional. É o único momento em que os atores cantam uma música do folclore da região. E são homens narrando, mas os personagens são mulheres. É um jogo metonímico, porque é narração. E também metafórico, porque é um jogo de representação. A questão masculino-feminino tem um limite muito tênue, mas é de uma diferença enorme. Serviço: O QUE: Teatro, Agreste QUANDO: 22 de maio, 20h ONDE: SESC Arsenal INFORMAÇÕES: Recomendado 16 + anos