ILUSTRADO
Sábado, 16 de Agosto de 2008, 15h:03
A
A
RESENHA
Ele brinca de moldar o som na boca
Jotabê Medeiros
Agência Estado
Em "Doralice", ele estica os esses como a cobra insidiosa do desenho animado Mogli. Em "Desafinado", ele emenda as palavras e cria neologismos melódicos ("revelou-se a suenormingrantidão!"). Em "Estate", ele mastiga o italiano como se o devorasse antropofagicamente: ("la neve copprirá tuuuuuutte le cose"). E se dá ao luxo de inventar onomatopéia para preencher espaço de uma nota que ele porventura tenha pulado ao cantar "Pra Machucar Meu Coração" ("Pra bróóóóó machucar meu coraçããão!"). No universo paralelo da música de João Gilberto, o som é o único soberano, o som e a modulação infinita dos sons em sua voz e seu violão. Não é tanto a palavra, mas o som da palavra, e seu show de estréia no Auditório Ibirapuera exacerbou essa sua obsessão artística. João Gilberto cantou de novo duas canções (para ilustrar sua história, ou para que sua história verbal se torne apenas musical). As canções que ele repetiu ("Chove Lá Fora", de Tito Madi, e "O Nosso Olhar", de Sérgio Ricardo) pediam essa repetição, pediam o didatismo, por não integrarem usualmente seu repertório. Mas João erra também - cantou "intregar", em vez de integrar, na letra de "O Nosso Olhar". Disfarçou e seguiu adiante, sem se incomodar. João estava em estado de graça, e é pena que tão poucos testemunharam momento tão especial de sua carreira. A suprema e notória economia de meios de João Gilberto estava cercada, entretanto, de um elemento novo, um aparato cênico que se pretendia "discreto". Cenografia e iluminação tingiam paredes, fundo, teto e o chão de seus minimalistas banquinho e "criado-mudo" (com garrafa dágua que ele nem tocou). Cenografia e iluminação fizeram uma leitura errada: transformaram o essencial de João em um reducionismo new age. O que era aquele objeto projetado no telão ao fundo do palco? Uma batata inglesa caleidoscópica? Uma pedra preciosa derretida? O que era aquela calçadinha de pedras portuguesas que projetaram no chão sob seus pés? Ele afina o violão já na quarta música, "Caminhos Cruzados", mas é impossível saber exatamente o que ele terá ouvido de desafinamento no instrumento, parecia tudo perfeito. É talvez para o que vem a seguir, uma versão ainda mais lenta e arrastada da canção que ele decifra continuamente, e reinventa. Enfatiza agora as primeiras sílabas. "Sóóóó um nooovo amor, pode a saudade aaaapagar." O show de João Gilberto é tão conhecido, tão batido, e no entanto tão cheio de mistérios. Como explicar que o pé esquerdo de João dance tanto durante "Doralice", e fique tão quieto durante "All of Me?" Talvez porque aqui nessa segunda canção fique claro que João é uma antítese de Sinatra, é o eterno baiano de Juazeiro arredondando canções de todos os quadrantes. O silêncio era sepulcral no Auditório Ibirapuera. Dava para ouvir o estômago do vizinho da cadeira ao lado roncando. Notava-se de imediato que aquele não era um público comum, mas selecionado, um público que não detestaria João mesmo que ele quebrasse o violão em suas cabeças.