ILUSTRADO
Segunda-feira, 29 de Outubro de 2012, 20h:43
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RESENHA
Crítica mordaz à sociedade da aparência
As guerras, as pestes e as grandes catástrofes naturais que mostram o lado sombrio escondido dentro do ser humano, nesta obra de Albert Camus
Jacir Alfonso Zanatta*
Especial para o Diário de Cuiabá
Constantemente a humanidade se vê ameaçada por catástrofes naturais, vírus ou algum tipo de doença ainda desconhecida que coloca em risco a existência no planeta. As tragédias, assim como a peste não escolhem raça, religião ou classe social. O livro A peste de Albert Camus, ganhador do prêmio Nobel de Literatura de 1957 é considerado o 32ª melhor livro escrito no século XX. Uma reflexão profunda sobre o comportamento humano nos tempos de crise. Um material com capacidade de mostrar que o ser humano nada mais é do que um animal com impulsos reprimidos e que nos períodos de crise, enquanto alguns buscam ajudar os semelhantes, outros se aproveitam e se tornam feras predatórias e irracionais. O livro é marcado por uma reflexão sobre o sentido da vida. Camus busca mostrar como nos apegamos às coisas passageiras que no fim nada valem, mas que servem para, muitas vezes, manter a aparência. Nos períodos mais turbulentos é possível perceber que a vida não passa de um piscar de olhos entre o nascimento e a morte. Mesmo assim, uma boa parte da população insiste em viver num mundo de ilusão. São apáticos a tudo e criam uma redoma de vidro para se sentirem protegidos dos perigos vindos de fora e acabam esquecendo que o homem é capaz de fazer o bem, mas também pode produzir o mal. É possível perceber ainda, que as guerras, as pestes e as grandes catástrofes naturais servem apenas para mostrar o lado sombrio do ser humano. Com isso, as ajudas humanitárias contribuem para que a desgraça não chegue à nossa casa. A peste é um clássico da literatura universal capaz de mostrar que a história e a sociedade que vivemos dizem respeito a todos nós. Que são nas pequenas ações que construímos ou destruímos o mundo à nossa volta. E, que a omissão é uma forma de aceitação, pois permite que as coisas aconteçam. Silenciar perante a injustiça e a corrupção é aceitá-la. O que em outras palavras é o mesmo que praticá-la. Atemporalidade é uma característica das obras de Albert Camus. Ele busca fazer uma abordagem filosófica em torno de questões relativas à natureza humana presentes em qualquer época e lugar. A peste foi produzida numa linguagem clara e objetiva, através de personagens ricos e diálogos repletos de reflexões. Camus constrói sua trama à semelhança de um mosaico: à primeira vista, desenha-se uma situação definida, mas aos poucos é possível perceber o homem em sua plenitude, deixando vir à tona seus sentimentos e suas angústias. Camus vai um pouco além de meramente fazer um relato sobre a peste. No primeiro capítulo ele mostra que para se conhecer uma cidade em todos os seus meandros é preciso saber como se trabalha, se ama e se morre. Conforme vamos lendo a obra, é possível perceber que a grande maioria das pessoas dedica boa parte da vida para criar hábitos e outra para deixá-los. É interessante observar ainda que quando as pessoas criam hábitos, os dias passam sem dificuldades. Hoje já se tornou natural ver as pessoas trabalharem de manhã à noite e optarem, em seguida, por perder o pouco tempo que lhes resta para viverem na frente da televisão. Mas o que impressiona em Camus, é como ele consegue ver com clareza e precisão aquilo que o ser humano mais tenta esconder. Ele alerta para o fato de que o trabalho mata o amor, uma vez que as pessoas casam-se, amam ainda um pouco, trabalham. Trabalham tanto que se esquecem de amar. Para Camus a obstinação é a única coisa que triunfa sobre tudo. Ele acredita que enquanto as pessoas são amadas, são compreendidas sem palavras. Mas lembra de que uma pessoa não ama para sempre. Por isso, ele defende que o grande desejo de um coração inquieto é possuir interminavelmente o ser que ama e poder mergulhar esse ser, quando chega o tempo da ausência, num sono sem sonhos que só possa acabar no dia do reencontro. Assim sendo, nada no mundo vale que nos afastemos daquilo que amamos. Desta forma, ele acaba por sentenciar que as pessoas só se afastam do que amam quando mantém relacionamentos medíocres. Sobre tragédias, ele argumenta que elas podem tirar o poder do amor e da amizade. O livro é uma crítica à sociedade da aparência. Mesmo durante os períodos de maior desgraça, as pessoas buscam manter as aparências. O autor acredita que por vivermos num mundo sem amor, chega sempre uma hora em que nos cansamos das prisões, do trabalho e da coragem, para reclamar o rosto de um ser e o coração maravilhoso da ternura. Quem sabe seja por isso que Camus defende que a ternura humana é algo que se pode desejar sempre, mas se obtém apenas algumas vezes. Humanista por natureza, Camus entende que mesmo com toda a desgraça que ronda a humanidade, os homens possuem mais coisas a admirar que a desprezar. SERVIÇO: CAMUS, Albert. A peste. Rio de Janeiro: Record, s/d *Jacir Alfonso Zanatta é jornalista e colabora com o DC Ilustrado