ILUSTRADO
Segunda-feira, 27 de Junho de 2011, 21h:19
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RESENHA
Bionne faz bonito no show Deixa Florir
Sob a direção musical do compositor Paulo Monarco, elas apresentaram um repertório recheado de composições de gente daqui, com direito a autores na plateia
Martha Baptista
Da Reportagem
É tão bom quando você assiste a um show e sai com a sensação de ter presenciado um momento especial na carreira dos artistas envolvidos uma espécie de ponto de virada (turning point). Isso aconteceu com o show Deixa Florir, apresentado pelo grupo musical Bionne no Teatro do Sesc Arsenal, no último final de semana. As meninas do Bionne - Kátia Mendes (voz e percussão), Grazielle Louzada (saxofone), Andrea Rosa (cavaco), Kalinca Nunes (percussão), Karola Nunes (violão e voz) e Simone Miranda (piano)- estão na estrada há algum tempo, sendo que as três primeiras componentes estão no grupo desde sua criação, em 2003. Tocam em bares da cidade, principalmente no Choros & Serestas (Chorinho), mas foi a primeira vez que subiram ao palco de um teatro para apresentar um espetáculo autoral. Deu certo. Sob a direção musical do compositor Paulo Monarco, elas apresentaram um repertório recheado de composições de autores daqui gente que estava na plateia na noite de estreia, como Estela Ceregatti, ex-Bionne, que vem surpreendendo com a riqueza e diversidade de seus talentos. Outros compositores contemporâneos das meninas do grupo também cederam composições como o violonista Joelson Conceição, Daniel de Paula (mestre na viola-de-cocho), Luciano Campbell, que deixou o erudito de lado para homenagear a namorada Grazielle com a ótima Xôminina, e Leôncio Pio que deu um tempo no rock para fazer o seu Choro pra Cleiciane. Todas as composições apresentadas receberam arranjos do pianista Leandro Braga, que realçaram cada instrumento utilizado no momento exato. A vocalista Kátia Mendes foi a intérprete de duas lindas canções de Monarco (Santa e A Flor) e ainda se revelou como compositora com o samba Canta meu Brasil, valorizado com a citação de frases de clássicos do cancioneiro nacional, como Aquarela do Brasil de Ary Barroso, Brasileirinho de Waldir Azevedo e Brasil de Cazuza,Nilo Romero e George Israel. A abertura e o encerramento do show de cerca de uma hora de duração ficaram a cargo de duas vibrantes composições de Karola Nunes: Caia água e Francinilda. Esta última, divertidíssima, tem uma letra bem crítica de Marcelo Siqueira. A única exceção na proposta de só apresentar composições praticamente inéditas e de compositores próximos aconteceu com Marciano no Choro, do cuiabano Levino da Conceição (1895-1955) um maxixe delicioso que deu margem às meninas exibirem toda sua brejeirice. No bis, elas homenagearam Chiquinha Gonzaga (1847-1935) interpretando o choro Bionne que batiza o grupo. As integrantes do Bionne pareciam felizes e, apesar de algumas ainda demonstrarem certa timidez no palco, contagiaram o público com a alegria de estarem tocando um repertório escolhido a dedo, para pessoas que estavam ali especialmente para assistir à sua performance. Os figurinos eram simples todas estavam vestidas em tom bege -, assim como o cenário, feito a partir de flores de tecido (fuxico) que enfeitavam o piano e outros instrumentos. A iluminação e o som eficientes contribuíram para o sucesso do espetáculo, que contou com uma participação mais do que especial da percussionista Juliane Grisólia. Quem foi ao Teatro do Sesc Arsenal teve a oportunidade de constatar que tem gente pesquisando, compondo e se dedicando a uma classe de música que está além de três acordes e de versos melosos, vazios e cheios de chavões. É sempre bom constatar quando as pessoas reconhecem que um show de qualidade é como um espetáculo teatral ou um filme: é preciso ter uma proposta de trabalho, uma coerência, uma direção. Uma vez tendo tudo isso, deixa florir!