ILUSTRADO
Sexta-feira, 29 de Novembro de 2013, 19h:27
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LANÇAMENTO VIRTUAL
Autor mato-grossense lança obra em espanhol
A peça teatral Fica, Pedro! do autor mato-grossense Luiz Carlos Ribeiro foi escolhida pela Consejería de Educación de la Embajada de España en Brasil para ser traduzida. A obra trata do bispo Pedro Casaldáliga, que é espanhol e vive em Mato Grosso desde 1968, conhecido pela sua luta ao lado dos menos favorecidos como índios e sem-terras na disputa por terras na região Araguaia do estado. A ideia surgiu em 2012 pelo assessor de educação da Consejería, José Suárez-Inclán García de la Peña. Ele convidou a professora da Língua Espanhola, Silvana Teixeira, para fazer a tradução. No mesmo ano o texto começou a ser traduzido e passou a ter a revisão textual feita pelo assessor técnico e coordenador do C.R.D.E Centro de Recursos Didáticos de Espanhol em Cuiabá, Marcial Izquierdo Blanco. Neste sábado, 30, será feito o lançamento virtual da obra em espanhol. Na ocasião será realizada a leitura dramatizada da peça com participação especial do autor e dramaturgo Luiz Carlos Ribeiro. O evento está marcado para as 9h no Centro de Recursos Didácticos de Español, localizado dentro da Escola Estadual José de Mesquita, no Porto (Rua Barão de Melgaço). Participam também da leitura, entre professores de espanhol, artistas e convidados: Eloá Pimenta, Joelson Jogosi, Admil Trindade, Cristiane Novais, Silvana Teixeira, o espanhol Marcial Izquierdo, a mexicana Victoria López e o músico chileno David Nicolás. A peça foi encenada pela primeira vez em 2009 pela Companhia Teatral Cena Onze, dirigida por Flávio Ferreira que, em colaboração com o autor, contribuiu para o enriquecimento cênico do espetáculo, segundo relata o Luiz Carlos. Para Marcial Izquierdo, assessor da Consejería de Educación, a peça !Quédate, Pedro! (nome em espanhol) supõe uma dupla novidade nas publicações da Consejería de Educación. Por um lado, é a primeira vez que publicamos uma obra de autor mato-grossense, diz o assessor, acrescentando que se faz justiça aos sete anos da presença da Consejería de Educación em Cuiabá. Izquierdo destaca ainda ser uma honra poder divulgar a obra de grande autor cuiabano Luiz Carlos Ribeiro. Responsável pela revisão, ele disse que o trabalho lhe serviu também para aprender um pouco mais sobre o contexto sócio-cultural em que se inscreve a realidade de Mato Grosso e a atividade do bispo espanhol, esclarecendo ainda que suas dúvidas constantes sobre questões relativas à cultura brasileira, aos termos nativos, à geografia mato-grossense, à musica local tem aumentado seu interesse por esta região do Brasil, onde vive há dois anos. O assessor explicou também que as revisões foram feitas sempre em diálogo estreito com Luiz Carlos e Silvana Teixeira e que muitas dúvidas iniciais foram sanadas com infinita paciência e grande dedicação. Silvana Teixeira, convidada para traduzir Fica, Pedro! ao espanhol, conta que foi um processo laborioso, que requereu pesquisas linguísticas já que muitos termos advêm da língua indígena ou africana. Para a professora de espanhol, preservaram-se muitas palavras em sua originalidade, para manter a expressividade pretendida. A tradutora revela que o trabalho exigiu várias reuniões com Marcial Izquierdo e Luiz Carlos Ribeiro, cujo consenso dirimiu alguns conflitos, como por exemplo: - Traduzimos ou não monções e bandeiras? Optando pela permanência, por se tratar de evento histórico, entra na obra em itálico para demonstrar que são terminologias portuguesas, e não espanholas. Igualmente, todas as palavras indígenas como kamaiurá e iranxe foram mantidas bem como aquelas de origem africana como maculelê, aruandê, entre outras. Outra dificuldade encontrada, explica Silvana, foi a proximidade entre as línguas e a contaminação em sua fala cotidiana, sendo às vezes imperceptível a permanência de algum erro de tradução, como por exemplo, as palavras deshumano (português) e inhumano (espanhol) que foi apropriadamente observada por Izquierdo. Silvana, que além de tradutora também é atriz, define a obra como teatro denúncia, por retirar da memória subterrânea as lutas de sem-terras, indígenas, oprimidos e marginalizados, todos custodiados por Dom Pedro. O autor de Fica, Pedro! fala que o texto é libelo dramático escrito em solidariedade a Dom Pedro Casaldáliga, escritor, poeta, dramaturgo, bispo emérito da Prelazia de São Félix do Araguaia. Entre miscigenações e sincretismo religioso, a peça evidencia a oposição latente entre opressores e oprimidos, denunciando, por exemplo, o assassinato do padre João Penido Burnier, em Ribeirão Cascalheira, ocasião em que algumas mulheres foram torturadas. De repercussão internacional, hoje o clérigo vive sobre proteção oficial, dentro de seus 75 anos, sendo que há alguns anos foi convidado pela Santa Sé a se retirar por causar constrangimento sua pregação repleta de Teoria da Libertação e hibridismo com rituais afro-brasileiros e indígenas. A PEÇA A peça teatral está estruturada em único ato que se desdobra em oito cenas representativas de um grande ato de julgamento, onde Dom Pedro Casaldáliga é acusado por um inquisidor e convidado a deixar a Prelazia. A figura do bispo, conta Luiz Carlos Ribeiro, é exposta ao interrogatório cruel dos inquisidores, detentores do poder político, econômico e social da região, aliado à postura tradicionalista da igreja que o intima a se retirar de sua casa, abandonar sua pastoral, sua razão e filosofia de vida religiosa. Composta por uma variedade de ritmos musicais, ¡Quédate, Pedro! evoca Bach, Carlos Gomes, Milton Nascimento, a Missa dos Quilombos, Missa Cochabambina da Bolívia, maculelê, flautas indígenas... aberturas que nos mostram possibilidades de diálogo, de misturas entre raças, culturas e religiões.