ILUSTRADO
Segunda-feira, 12 de Abril de 2010, 20h:28
A
A
ACADEMIA
Amor Exigente e AA
No bosque, à sombra das árvores, um grupo de jovens tocam e cantam alegremente. Ao violão está Paulo. Garoto de apenas dezessete anos. Magro, alto e longos cabelos. Vânia, morena alta, longos cabelos negros e lisos com dezoito anos de idade e uma linda voz acompanha o Paulo cantarolando uma linda canção. Vânia entrou no mundo das drogas e do álcool muito cedo. Esse também foi o caminho seguido por Paulo. Mas o destino pode ser mudado e eles estão mudando. Novos hábitos fazem parte da vida deles. A acompanhá-los estão suas mães. Assistem com satisfação à alegria dos filhos. A felicidade das mães era muito maior ainda porque além dos filhos estarem limpos elas também tinham encontrado uma nova forma de ver e sentir seus filhos. Vânia e Paulo também adotaram uma nova postura para com a vida. A compreensão e o amor com seus familiares até que aumentaram. Foi o que comentou a mãe de Paulo. Vamos deixar que ela fale desse amor. Dessa nova relação com o filho. Paulo chegou num ponto em que eu julgava não haver mais retorno. O menino estava tão perdido no mundo das drogas que nem eu nem o pai dele sabíamos mais o que fazer. Conviver com o Paulo, para nós, representava uma situação de risco. A impressão era de que tínhamos um estranho dentro de casa. Nada de valor podia ser deixado ao alcance de sua mão. Minha bolsa e a carteira de seu pai eram constantemente assaltados por ele que sempre precisava de mais dinheiro para comprar drogas. E quando ele pedia dinheiro? Era uma situação angustiante para nós. Dar o dinheiro era a mesma coisa que dar a droga. Não dar o dinheiro significava empurrá-lo para o roubo, para as mãos dos traficantes e dos aproveitadores. Essa situação era muito delicada para nós. Vivemos isso durante dois longos anos. Dos quatorze aos quinze anos do Paulo tivemos que encontrar força não sei de onde para não abandoná-lo, para não perdê-lo. Mas enfim fomos ajudados por um grupo de pessoas que trabalham com situações iguais e essa. O Amor Exigente nos orientou. Hoje, o Paulo está limpo. Limpo em todos os sentidos. Está lindo! Assim a mãe via o filho alegre numa roda de amigos. A mãe de Vânia que ouvia tudo calada e até muito emocionada confessou que na família dela a situação foi muito parecida com a vivida pela família de Paulo, mas hoje vê na filha uma grande promessa. Há mais de dois anos Vânia não usa nenhum tipo de droga. Está concluindo o segundo grau e pensa em ser médica. Já o Paulo está no terceiro ano do colegial e ainda está em dúvida entre as várias engenharias. De uma coisa ele tem certeza. Como gosta de cálculos, quer ser engenheiro. Só falta decidir qual engenharia seguirá. O dia continua avançando. Muito sol, brisa farta e calor intenso de quase meio dia. Outras pessoas continuam chegando. Daqui, de minha cadeira, respiro fundo, olho esse movimento frenético e intenso de pessoas simpática, risonhas e passo a mais uma página do meu livro. Vejo uma moldura que retrata uma roda de capoeira. As cantigas são marcadas pelo som do berimbau. No jogo da capoeira destaca-se o Luiz. Garoto caboclo com dezoito anos de idade, de físico bem definido e riso fácil. Uma mandinga daqui, outra dali, lá vai ele no jogo bonito e cadenciado que seu belo físico elástico lhe permite. Depois de horas no sol, a roda se desfaz. Luiz procura por água de coco para se refrescar. Depois de matar a sede, mergulha na piscina para refrescar o corpo suado. Luiz é um jovem simples, até bastante modesto. Está tentando, através do esporte, sair do mundo das drogas que lhe consumiu muito dos seus poucos anos de idade. De uma coisa Luiz tem certeza: aquela vida nunca mais. Ele sabe o quanto é difícil vencer as tentações, mas ele não está só. Além do esporte, aos domingos, freqüenta o grupo dos AA. Ele reconhece: o reforço do grupo é fundamental para que possa resistir aos convites tentadores da turma antiga. Ele mesmo conta como as vezes é difícil dizer não e por isso sabe o quanto é preciso estar preparado para estas ocasiões. Foi assim: eu já tinha parado de beber e usar drogas. Mas certa vez, numa festa na casa de colegas da escola, fui convidado a participar de uma rodada. Tentei resistir durante algum tempo mas no fim eu topei. Os colegas convidando para beber, as meninas dando em cima e eu só no refrigerante. A noite passando, o clima aumentando e eu só vendo as coisas acontecerem. Até que num dado momento não consegui resistir ao convite de uma garota para beber e ficar com ela. Esse foi o primeiro passo para o início de um tormento que durou dias. Eu ainda não tinha total consciência da minha impotência diante do primeiro gole. No outro dia, quando acordei, estávamos todos num só quarto. Dormindo uns sobre os outros. Garrafas e copos espalhados pelo chão. Minha cabeça estava tão pesada que mal consegui levantá-la do chão frio. Sentia dores por todo o corpo. Parecia que tinha tomado uma surra ou brigado com alguém. Porém, não consegui lembrar do que tinha acontecido durante a noite anterior. Por volta do meio dia fui para casa. Chegando lá, encontrei com os amigos das antigas, e com eles continuei a bebedeira que durou vários dias. Eu já conhecia o AA, tomei coragem e procurei o grupo novamente e hoje vivo um dia de cada vez sem sofrer com o passado e muito menos com o futuro. O futuro a Deus pertence. Cuido apenas do dia de hoje - o dia mais importante da minha vida. Luiz está no caminho certo. Um jovem com tudo pela frente não pode se perder em questionamentos sem fundamento. A ele hoje interessa divertir, mas sem bebida ou qualquer outra droga. Mas Luiz entende que tem muito para construir ainda e por isso mesmo voltou ao colégio no período noturno. Durante o dia trabalha como repositor num grande supermercado. Como ele está se saindo muito bem no colégio e é um funcionário muito empenhado em suas tarefas, o gerente já sinalizou que nas próximas promoções ele será um dos beneficiados. Acadêmico Antônio Soares Gomes Cadeira 3