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ILUSTRADO
Quinta-feira, 20 de Março de 2025, 15h:54

LIVROS

Alice Sant'Anna se equilibra entre o mundo concreto e o imprevisível em novo livro

Poeta vasculha experiências objetivas, maternidade, livros, natureza e morte em 'Acrobata'

CLAUDIO LEAL
Da Folhapress - São Paulo
A poeta Alice Sant'Anna

Os 35 poemas do livro "Acrobata", de Alice Sant’Anna, cercam nomes, animais, livros, mortes e lugares concretos. Sua imaginação vasculha experiências objetivas e encontra o "aleatório e imprevisível", como reconhece a poeta carioca de 36 anos.
Na hora da escrita, os acontecimentos extraordinários podem se recolher, sem encontrar um caminho de linguagem. Diante das cataratas de Foz do Iguaçu, ela ficou perplexa e planejou um poema capaz de reter o impacto sensorial das águas. A ideia não prosperou.
"Meus poemas sempre surgem de cenas, seja a partir de algo que vivi ou que alguém me contou. A imaginação não deixa de ser concreta. Quando sentimos medo, tristeza ou ansiedade, as sensações se materializam na nossa cabeça e são tão reais quanto uma mesa ou uma cadeira", disse Alice.
"Embora meus poemas surjam da experiência, nem toda experiência chega a virar poema. Adoraria escrever com mais frequência, porque sinto que a escrita depende muito mais de uma abertura, uma disponibilidade interna, do que de efetivamente ter algo para contar. Os poemas não necessariamente nascem de uma experiência grande, marcante, fundadora".
"Sabiá", o mais recente, nasceu da observação de uma cena menos exuberante que uma queda-d'água: um ninho de sabiá-laranjeira na árvore ao lado do quarto de seu filho mais velho, Nicolau. Antes da descoberta, ela conversara com o amigo Ismar Tirelli Neto "sobre uma certa reverência que os poetas têm com a natureza, como se a natureza fosse sempre pura, romântica e acolhedora, em contraposição à nossa vida numa cidade enorme, agitada, barulhenta, agressiva, enlouquecida, completamente distante desse ideal".
A visão do ninho aprofundou esses pensamentos. "Fiquei sensibilizada, querendo me aproximar e acompanhar de perto, e talvez até ajudar aquela mãe. Separei água, banana. Eu estava no fim da licença maternidade, com meu caçula [Leon] sempre no colo. Mas nada aconteceu como eu previa, e a sabiá não me deu a menor bola. Não bebeu a água, deixou a banana lá. Notei que, quanto mais eu tentava ajudar, mais atrapalhava, e que o melhor que eu podia fazer era não me intrometer."
"Acrobata" surge oito anos depois de "Pé do Ouvido". Entre os dois livros, ela publicou a plaquete "Duas Mulheres" (2017) e uma antologia em Portugal, "Aula de Natação" (2018) —e silenciou um pouco. Nascida no Rio de Janeiro, em 1988, radicou-se em 2016 na capital paulista, onde trabalha como editora na Companhia das Letras.
Aos 15 anos, Alice conheceu o poeta Armando Freitas Filho (1940-2024), que, no prefácio da antologia portuguesa, destacou a "noção de equilíbrio" de seus versos. "Armando foi fundamental pra mim, e por muitos motivos. Pelos livros que lançou, obviamente, mas também pela relação com a Ana Cristina Cesar —foi seu melhor amigo e o curador de sua obra— e pelo incentivo que deu para as novas gerações. Sem ele, eu nunca teria publicado. Além do Armando e da Ana C., sou fã do Ferreira Gullar desde a adolescência. Chacal também é uma grande inspiração, pela poesia coloquial e pelo prazer de ler em voz alta", ela contou.
."Dos meus pares, sou influenciada por muitos poetas e amigos, mas destaco aqui a Marília Garcia, que mistura poesia e ensaio, como se o leitor pudesse acompanhar uma ideia se formando ao vivo."
A ensaísta Heloísa Teixeira (ex-Buarque de Hollanda) leu os primeiros poemas de Alice em 2006, assinou a orelha de "Rabo de Baleia" (2013) e se manteve atenta aos seus passos.
"O ‘Acrobata’ me tomou de assalto. Alice é uma das poetas que defini, em vários textos, como o novo cânone poético, ou seja, uma poeta que já se tornou referência legítima de sua geração", diz a integrante da Academia Brasileira de Letras. "Tem uma pegada surpreendente de acaso, toques inesperados como o lindíssimo poema sobre a baleia, e uma lírica que lembra Ana Cristina Cesar. Só que agora com um universo expandido, que sai de sua projeção especular e enfrenta grandes temas, como a maternidade."
Na tese do doutorado em literatura pela PUC-Rio, em 2020, Alice apresentou um conjunto de poemas que formaria a base de "Acrobata". A mudança do Rio para São Paulo reverberou em sua poesia, como indicam as marcas urbanas de "Dia de circo", "Primeiras impressões" e "Praça Roosevelt".
Os versos conscientes da prosa expõem, em seu fluxo, as tensões das liberdades introduzidas pela poesia moderna —no ritmo, nas mudanças de perspectiva, nos cortes de imagens. "O ritmo de frases seccionadas, com frequência elaboradas em linguagem oral, produz um efeito de estranhamento", observa o romancista Milton Hatoum, na orelha do livro.
Apesar do aceno ao "antipoético", Alice não se afasta do lírico autorretrato: "por onde passo/ fecho as portas atrás de mim/ que é para não me espalhar demais" ("Praça Roosevelt").
"A poesia pode ser muitas coisas. Não precisa ser rimada, metrificada (mas pode ser também). A forma gráfica do poema dá muita liberdade para experimentar. Gosto de pensar que a poesia tem um lado de crônica, de contar um caso, uma cena, uma história, e também que a poesia pode ser ensaística, uma reflexão que vai se formulando aos poucos", ela disse.
Os poemas narrativos de "Acrobata" absorvem citações e vozes alheias —"o rio fica dentro de nós/ e o mar é o que está em volta/ diz um poema de t.s. eliot/ as veias sobem e descem/ num movimento que se pensar demais/ arrisca parar de funcionar" ("Quarta-feira").
Raridade em livros de poesia, uma bibliografia elenca as obras evocadas. "Essas citações têm a ver com o doutorado. Queria pensar sobre o que leva as pessoas a partir em busca de algo inesperado e a tomar decisões grandes, profissionais e afetivas, sem nenhuma garantia de que serão boas escolhas."
Na leitura de "A Incrível Viagem de Shackleton", de Alfred Lansing, Alice encontrou elementos para um poema antiépico de paisagens gélidas e gestos imponentes contrastados com a vida ordinária.
"A história do Shackleton, um navegador que levou a tripulação para uma expedição na Antártida assim que estourou a Primeira Guerra, é maravilhosa. Ele tomou uma atitude que já não fazia sentido para o seu tempo, porque as pessoas, de uma hora para outra, já não estavam mais tão interessadas assim nas grandes expedições e nos heróis que morriam longe de casa."
O navio ficou emperrado no gelo. "Shackleton morreu como um homem que não conseguiu conquistar seu objetivo, e hoje é visto como herói, já que conseguiu trazer a tripulação toda de volta para casa —todos vivos. Peguei essa história como mote para pensar outras situações, algumas grandiosas e outras pequenas, mas que na nossa trajetória pessoal têm um impacto enorme."
A poeta-acrobata exerce um controle sóbrio de emoções e movimentos. O título do livro foi inspirado na observação de um grupo da Ocupação Nove de Julho, que se reunia na praça Roosevelt, no centro de São Paulo, endereço de Alice por cinco anos. Com a ideia de um poema, ela se tornou espectadora de truques de circo, esforçando-se para não ser notada.
"Queria olhar tudo que pudesse e depois voltar para casa e escrever. Só que curiosamente esse esforço para ficar invisível não funciona —só me deixou mais pesada e chamativa. O poema tentava falar sobre a leveza dos malabaristas e acrobatas em oposição à narradora, que quer ser apenas um olho, mas que não consegue. Olhar também é uma forma de se aproximar, de puxar conversa. E olhar sem falar nada incomoda."
Dedicado aos seus dois filhos, "Acrobata" enquadra a maternidade sem retórica. No fim do volume, "Tartaruga" remete a um dia na praia com seu menino mais velho, que ainda aprendia a falar. Ela se aproximou de uma tartaruga morta, ignorada pelos banhistas, para que o rebento narrasse a cena mais tarde.
"Uma criança pequena está sempre vendo as coisas pela primeira vez e apontando, dando nome. Chove lá fora, ele aponta e diz: chuva. A gente envelhece e segue fazendo a mesma coisa, mas a ‘chuva’ talvez vá ficando um pouco mais elaborada quando tentamos definir algumas sensações. Naquele momento, meu filho tinha um ano e eu tinha 32, e estávamos vendo uma tartaruga grande, morta, encalhada na areia, pela primeira vez."

Acrobata

  • Preço R$ 69,90 (88 págs.)
  • Autoria Alice Sant'Anna
  • Editora Companhia das Letras
 
 

Edição EDIÇÃO 16959




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