ILUSTRADO
Sábado, 02 de Junho de 2012, 21h:32
A
A
CRÔNICA
A última tentativa
Juliana Curvo*
Especial para o Diário de Cuiabá
Quando eu escrevo: começa com um sentimento de culpa mal resolvido. Uma vontade de sair andando sem rumo, como quase sempre acontece com todos os outros problemas que invento. Passa algum tempo, com olhos fechados, vem um medo inexplicável de tudo o que parece exato. Começo a clamar por nomes de desconhecidos, imaginar vidas que não são minhas (e faço da sua rua meu itinerário). Saudades imensas do que já aconteceu. Dúvidas do que realmente foi. Papel em branco, pedaço calado de mau caminho. Começo a pensar no primeiro beijo, um gosto estranho, uma língua macia, muita saliva. Não transformaria toda noite mal dormida em uma história de amor (não neste momento). Céus de fevereiro são mais escuros que os de outubro, novembro. Chuvas de dezembro são mais fortes que as de junho. No outono o pôr-do-sol é bonito por aqui. Garoa. Cidades quentes também são cinzas. Saudades de cheiros: cheiro suave do mar (e tudo pode ter cheiro de mar). Pés na areia suja: poluição em Copacabana de 1º de janeiro. Vou escrever sem saber mesmo o por quê (Insatisfação). Saudades dos ímpetos da juventude, sempre olho no espelho as minhas primeiras rugas, os meus cabelos brancos. Começo me abismar com fatos corriqueiros. Satisfaço-me com qualquer coisa. De repente, ou talvez não, invade uma vontade, incomoda-me os suores. Cidades quentes ficam cinza por pouco tempo. Não é por isso. Existe um frasco pequeno de perfume guardado, umas lembranças, quem sabe. Vou olhar para ele sempre como o atestado óbvio da incompetência. Também não é só isso. Os gritos me incomodam: pessoas não sabem fazer silêncio na hora certa. Tudo bem. Existiu uma mulher, Luana. Peituda, nascida no Acre, cabelos encaracolados e cor de mel. Uma orelha menor que a outra. Existiu um homem, Alan. Branco, olhos claros, aluno do curso de teatro de rua. Alan convidou Luana para ir ao cinema. Cine teatro, sala 2. qualquer filme, isso era o que menos importaria. Alan beijou Luana, passou as mãos nos seus peitos, mordeu a orelha menor. Alan levou Luana até o ponto. Beijou mais, abraçou. Não fez nenhuma declaração de amor, até porque não saberia. Também não mentiu. Luana gostou de Alan, não se incomodou com as mãos, se arrepiou com as mordidas. Alan subiu a rua a pé, não esperou Luana entrar no ônibus. Nunca entendi o tanto que isso me incomoda até hoje. Luana não entrou no ônibus. Quando estava colocando o pé no primeiro degrau, veio uma vontade, uma saudade (quem vai saber o que realmente houve?) Correu na frente do ônibus, resolveu ir embora a pé. Um carro estava entrando na prainha, Luana olhou, não deu tempo de parar e nem de correr. O carro bateu e Luana foi jogada no canteiro central. Bateu a cabeça no meio fio e num pedaço de cimento com plantas dentro. Morreu na hora, a rua ficou banhada de sangue. Pararam o trânsito para limpar. Uma coisa tomou conta de mim, a serenidade com que Luana morreu. Viu o carro, como não dava para fazer mais nada, apenas esperou. Nada passou disso. Quisera eu, com o tempo, ter serenidade quando me invadem certas coisas, certos sentimentos, certos dias. Quisera eu que essa fosse a última tentativa de escrever. A última noite mal dormida (ou não dormida). Um carro me atropelando, atrapalhando o trânsito, depois de ter ficado cheia de tesão no cinema. Quisera eu não inventar mais esses escritos para dar conta dos meus pedaços. *Juliana Curvo é professora de literatura e colabora com o DC Ilustrado