ILUSTRADO
Sábado, 06 de Setembro de 2008, 10h:23
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ESTREANTE
A publicidade num romance fiel aos ideais de Emerson
Antonio Gonçalves Filho
Agência Estado
Antes de ser elogiado por Nick Hornby, que o definiu como uma mistura de Kafka com a série inglesa de televisão "The Office", o romance "E Nós Chegamos ao Fim" (Nova Fronteira, tradução de Myriam Campello, 350 págs., R$ 39,90), do estreante Joshua Ferris, circulou um ano pela internet, recebendo comentários para lá de entusiasmados. O jovem escritor norte-americano, de 34 anos, que esteve no Brasil para lançar seu livro na 20ª Bienal Internacional do Livro, concedeu uma entrevista na qual revelou ter sido esse seu primeiro livro comprado pela HBO, o que reforça a observação de Hornby, o autor de "Alta Fidelidade": Ferris deve mesmo virar piloto de série de televisão. Já Kafka é outra história. Por mais absurdas que sejam as situações descritas por Ferris, não há nenhum personagem transformado em barata ao acordar, embora seu romance esteja cheio de gente sendo julgada à revelia. Bem, de certo modo Hornby acaba acertando. A situação é mesmo esdrúxula para os publicitários da agência descrita no livro de Ferris, despedidos um a um em plena crise da bolha da rede, quando muitas empresas criadas durante o boom internético foram à bancarrota, justamente em 2001, ano em que as torres gêmeas também vieram abaixo. Ferris, um intelectual nascido em Danville, Illionois, e formado em Filosofia pela Universidade de Iowa, não usa a crise apenas para fazer comédia, mas como pretexto para discutir o transcendentalismo do escritor e filósofo norte-americano Ralph Waldo Emerson (1803-1882) por meio de seu personagem mais amalucado, Tom Mota. Em meio à recessão econômica e com a falta de trabalho e clientes, ele e outros colegas outrora prósperos imaginam-se catando restos nas latas de lixo, exato como os mendigos vistos no caminho para o trabalho. O pânico toma conta da agência, acirrando a concorrência e a paranóia. Transformando as mesas do bar próximo em extensão da agência, os publicitários sobreviventes começam a reexaminar suas vidas e, nessa batalha introspectiva, passam a brigar com o "eu" profundo, que impede o "eu" superficial de fazer o que mais gosta: consumir e falar mal da vida alheia. Há de tudo um pouco em "E Nós Chegamos ao Fim": um viciado em trabalho, um deprimido, um priápico que coleciona casos extraconjugais e até uma chefona fria que pode ou não estar morrendo de uma doença terminal, discreta sobre seu câncer, a despeito das especulações de seus subalternos. São tipos verdadeiros, que têm de fato um entendimento muito particular da comunidade em que vivem, mas que só conseguem ser solidários nos donuts grátis distribuídos com o café. De resto, torcem para não ser o próximo da lista quando chegar a hora do bilhete azul, ou, como diz um dos personagens, parafraseando Tom Waits, na hora de "andar na prancha", punição suprema imposta aos piratas. O mais curioso nisso tudo é que, a despeito de histórias corporativas como essas parecerem um tanto artificiais quando contadas num livro, a de Ferris é bastante real, assustadoramente verdadeira. Justificável: ele trabalhou, de fato, numa agência de publicidade, convivendo com cabotinos ilustradores que se tomam por gênios, fofoqueiros com roupas de grife e redatores deprimidos por vender cartões de crédito como se fossem passaportes para o paraíso. De qualquer modo, como em "The Office", um "mockumentary" (mistura de documentário com comédia), os traços autobiográficos são dissimulados. "Não me importava tanto o ambiente da agência como o Zeitgeist, o espírito de uma época em que as pessoas começam a se tocar que é impossível não se envolver com o mundo em que vivem, como publicitários que fazem campanhas em prol das crianças famintas da África sem nenhum envolvimento emocional com o tema". Ferris não fez um livro para demonstrar uma tese, isso é claro, nem mesmo a de que a natureza disfuncional de uma comunidade fechada em si mesma só encontra sentido no próprio umbigo, o que explica as intermináveis risadas nas reuniões de publicitários e a necessidade de transformar tudo em piada antes desses encontros de trabalho. Por vezes, a escrita de Ferris remete aos temas de Don DeLillo, mas sua ambição literária é ainda maior. Ele, sendo o narrador da história, usa a primeira pessoal do plural, como Faulkner usou no conto Uma Rosa para Emily, em que o escritor norte-americano assume o lugar de todos os homens da comunidade para contar a história de uma mulher reclusa que se recusa a pagar impostos. Ferris explica que o uso da primeira pessoal do plural no romance difere ligeiramente do propósito de Faulkner, que não se exime da culpa por pertencer a uma comunidade que pressiona o indivíduo até o limite da tragédia. "Decidi ser justo com a coletividade, mas ainda mais honesto com o indivíduo", explica, justificando que usou o "nós" porque é esse o discurso predominante nas corporações, particularmente na publicidade, ofício em que indivíduos tentam deseperadamente convencer pessoas a pertencer a grupos, uniformizando comportamentos e hábitos de consumo". Falando em termos literários, o uso da primeira pessoa do plural é menos faulkneriano e mais emersoniano. Ferris segue o conselho de Ralph Waldo Emerson, que dizia ser uma prova de alta cultura dizer as coisas mais profundas de modo mais simples E o modo mais simples é, segundo Ferris, usar a voz coletiva, nesse romance que começa como farsa e termina como tragédia, colocando autor e leitor frente a frente, como se fossem responsáveis pela mudança tonal no panorama de um mundo que expulsa pessoas de seus locais de trabalho, jogando-as na arena da globalização. "Apesar das contradições, considero o pensamento filosófico de Emerson como a mais importante contribuição à cultura americana", diz o escritor, justificando as citações, no romance , de outros discípulos do pensador, entre eles o poeta Walt Whitman e o ensaísta e naturalista Thoreau. "Não dá para ser um grande romancista sem se curvar à tradição, e isso é muito emersoniano, eu diria", observa Ferris, assumindo que faria parte do clube transcendentalista de Concord, se tivesse vivIdo na época do filósofo. Ele, que escreve seu segundo livro, não esconde que sua ambição literária considera exemplos como o do nova-iorquino Jonathan Littel, autor do polêmico A"s Benevolentes", ficção histórica narrada por um ex-oficial da SS. Littel tenta forçar os limites do realismo e, a exemplo dele, gosto de autores que escrevem criticamente sobre a sociedade em que vivem, como Jonathan Franzen ou Corman McCarthy.