ILUSTRADO
Sábado, 24 de Julho de 2010, 11h:46
A
A
CRÔNICA
A passagem pela rua do destino
Wanderley Wasconcelos*
Especial para o Diário de Cuiabá
Esta história é resultante de uma decisão. Muitos presenciavam aquela cena que se repetia todas as tardes e se omitiam diante do fato, até que uma bela senhora, sexagenária, não se fez de rogada e, tomada pela indignação, cruzou para sempre a vida de um certo menino. Vivíamos o quase final dos anos de chumbo e quase tudo bom era feito na marra, para usar um termo da época. A demanda pela posse da terra na região acossava os pobres por todos os cantos. Por fim eles foram obrigados a migrar para a cidade e ceder, de modo involuntário sua quadra de chão aos ricos que sempre tiveram acesso à justiça e também ao poder de mando. O menino de que falamos e que naquela tarde cruzou a rua de seu destino, era um filho de vitimados na luta agrária. Vitimados que passaram à condição de anônimos. Os órfãos que daquele embate sequer podiam sonhar com um estatuto que os protegesse e que por isso eles foram entregues a ninguém. Numa casa, espécie de creche, recebiam refeições e a visita diária de um policial militar. Já não sabemos mais qual foi o polícia que em certa tardinha passou segurando pelo braço o menino incógnito quando foi interceptado pela mulher de cabeleira alva. Uma mulher gente e dotada do que há de belo no gênero humano, a coragem de dizer sim em ocasiões aflitivas, difíceis. Ela quis saber para onde levavam o menino. Se ele havia comido àquela altura das horas - uma boca de noite. O praça titubeou e depois de alguns minutos entregou a criança com a ressalva de que avisaria ao delegado. O pequeno, então, ganhou um nome, um lar, o respeito, o carinho da família e passou a ser mais um daquela casa povoada de filhos e netos. O espantalho, a sombra da tragédia de que sobrevivera creio que permanece em forma de alguns flashes em seu subconsciente, em sua mente sã porque ele foi educado para não guardar consigo nenhuma mágoa e não cultivar o desejo da vingança, da desforra, de reparar o que de mal lhe causaram em sua primeira infância. O menino cresceu, brincou como todos, foi pra escola, fez suas traquinagens, entrou pela porta da frente em uma universidade, formou-se, conseguiu emprego e nunca se descuidou daquela senhora hoje já quase nonagenária que teve a coragem de cruzar o seu caminho para cercar sua vida de sonhos que se tornaram aos poucos, devagar como os pobres conduzem a vida, uma realidade. Não faz tanto tempo assim que avistei aquele menino. Creio que visitava à casa da família. Gritei por seu nome e ele me respondeu com um aceno e o mesmo sorriso de quando era pequeno e que às vezes o peguei em meu colo. Não quero imaginar o que ele pensa de sua própria história, mas tenho a certeza de sua veneração pela avó que um dia cruzou seu caminho. Que lhe estendeu as mãos num gesto grandioso que poucos ousam fazê-lo. *Wanderley Wasconcelos é jornalista e escritor, autor, entre outros, de Aboio, Viagem Nua